À espera da terceira revolução
Cristina Côrtes
De Londrina
Os avanços das novas tecnologias na agricultura garantiram até agora ganhos de produtividades significativos nas principais culturas, mas a demanda por alimentos deve continuar crescendo, e a discussão do novo milênio será como produzir mais sem destruir a base da agricultura, que são os recursos naturais.
Segundo o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Carlos Armênio Khatounian, nos anos 30/40 do próximo século a necessidade de grãos no mundo será o dobro da atual, e a agricultura convencional está destruindo a base natural, da qual ela depende. Os exemplos estão aí, salinização, desertificação, comprometimentos dos recursos hídricos, efeito esponja se empobrecendo..., cita Armênio.
Para entender o que está acontecendo hoje e buscar alternativas para o futuro, é preciso olhar para o passado. Os estudiosos têm material farto para pesquisar a história da agricultura. Segundo Armênio, hoje temos representantes dos diversos estágios vividos pelo Homem em busca da sobrevivência.
EvoluçãoNa pré-história, quando o homem era apenas coletor e caçador, o meio ambiente determinava a disponibilidade de alimentos, definindo o tamanho da população humana, explica o pesquisador. E embora pouco numerosos hoje, há grupos que assim subsistem na África e no Sul na Ásia.
Mais tarde, surge o homem pastor controlando a reprodução dos animais para sua alimentação. Nas zonas desérticas do Planeta, tanto quentes quanto frias, esse modo de vida baseado na atividade pastoril ainda é usual. Na África, na região do Sahel, há vários grupos étnicos especializados no pastoreio. Esses grupos trocam produtos com os grupos agricultores que vivem nas regiões mais úmidas.
Armênio explica ainda que o surgimento da agricultura, que marca a terceira fase, significou um novo e importante passo na libertação do homem em relação aos limites impostos pelos ecossistemas naturais. A possibilidade de produzir grãos e túberas permitiu às populações humanas sedentarizar-se, ficando a subordinação à natureza limitada à fertilidade do solo e ao clima.
O Homem não depende mais do meio natural, mas sim do que tira da terra. Quase toda a humanidade vive hoje desses ecossistemas implantados.
Ainda segundo Armênio vivemos a primeira revolução na agricultura quando as atividades de pastoreio e cultivo se uniram, intercalados com períodos de pousio na Idade Média. A segunda revolução foi por volta de 1800 com a descoberta dos fertilizantes minerais, que agora possibilitaria a redução do período de pousio e permitiria a monocultura. Até hoje os rendimentos das culturas têm sido mantidos e incrementados com doses crescentes de insumos químicos, diz.
Ainda segundo Armênio, os sistemas de produção agrícola no Brasil tropical, tanto dos grandes quanto dos pequenos produtores, estão numa espiral de declínio de sua produtividade biológica. Para estancar essa espiral, ou ao menos reduzir seu ritmo, são necessárias mudanças significativas no âmbito das políticas macro-econômicas, dos conceitos da ciência agrícola, dos valores culturalmente adotados por produtores e consumidores, das relações de transferência de renda entre o campo e a cidade.
Como essas mudanças todas certamente não ocorrerão, pelo menos num prazo hoje estimável, o colapso parece inevitável, comenta Armênio.De fato, dentro de uma perspectiva pragmática, a degradação talvez tenha de se acentuar ainda mais, para ser percebida como problema pelo conjunto da Humanidade, e então ser enfocada. Nossa função, enquanto meio técnico de suporte à área agrícola, parece ser a de antecipar esses problemas, e, dentro do exequível, tomar iniciativas que os minimizem.
FuturoPara Armênio, a Humanidade não cria problemas que não possa revolver. Portanto, as respostas para o alcance do equilíbrio entre a produção e o consumo de alimentos virão. Defensor da agricultura orgânica, o pesquisador diz que esta alternativa ainda tem limitações para responder como padrão dominante. A terceira revolução na agricultura ainda não aconteceu, e precisamos de uma agricultura que tenha produtividade, mas não destrua os recursos naturais, completa.
Para o professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Efraim Rodrigues, da área de recursos naturais, cresce a cada dia a preocupação com a preservação. Há nove anos, quando comecei a dar aulas da Universidade, sentia restrição tanto por parte do estudantes como de colegas com relação a esta área. Hoje, percebo mais interesse do alunos, e o Departamento de Agronomia discute uma maior ênfase para recursos naturais, comenta.
O tema meio ambiente tem ocupado espaço em todas as discussões da área agronômica, da arquitetura, da saúde e muitas outras, numa demonstração de que o homem vem percebendo a cada dia a importância dos recursos naturais.São grandes os desafios para responder às necessidades alimentares da população sem inviabilizar o Planeta
Para o pesquisador Armênio Khatounian, uma das funçãos da pesquisa é antecipar a discussão em busca de soluçõesA degradação talvez tenha que se acentuar muito mais, para ser percebida pela sociedade, diz Armênio





