A época ajuda o ataque da praga
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 1996
Silvana Leão 
A população de cigarrinhas das pastagens aumenta muito nesta época do ano, devido aos altos índices de umidade e ao tempo encoberto e quente. O entomologista Rodolfo Bianco, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), diz que poderiam ser tomadas medidas de manejo das pastagens, para manter baixa a ocorrência da praga, mas isto deveria ter acontecido em agosto ou setembro. Agora ainda é possível controlar o ataque, mas o custo é alto.
Inseto sugador, a cigarrinha injeta nas folhas das gramíneas uma toxina que vai debilitando o pasto até ele secar. Deixa o capim mais pobre em nutrientes e em palatabilidade. As gramíneas mais sensíveis são as braquiárias (principalmente decumbens e humidícola), o napiê e o capim-estrela, enquanto o capim-marandu, o brizantão e outros são resistentes, porém menos utilizados nestas regiões. O colonião também é resistente, mas os solos das pastagens estão, no geral, debilitados. Por isto uma das medidas que o pesquisador recomenda é a reforma das pastagens.
Comportamento da praga Rodolfo Bianco lembra que o ciclo de vida da cigarrinha é de mais ou menos 30 dias, quando podem ocorrer de quatro a cinco gerações de cigarrinha, que ficam em superposição. Assim, ao mesmo tempo podem estar no pasto insetos em todas as fases da vida, e quando se faz uma pulverização de inseticida, logo depois ocorre a reinfestação.
Em capítulo específico sobre cigarrinhas das pastagens, do livro Forragicultura no Paraná, elaborado pela Comissão Paranaense de Avaliação de Forrageiras, Rodolfo Bianco e outro pesquisador do Iapar, Sérgio José Alves, escrevem que os ovos do inseto são normalmente depositados perto das raízes das gramíneas, enterrados a um ou dois centímetros de profundidade.
A umidade relativa influi consideravelmente no período de incubação. Em condições ideais, com umidade de 80% a 90%, o período de incubação varia de 12 a 18 dias para a maioria das espécies. Em condições de umidade relativa baixa, a incubação é inibida e os ovos podem entrar em diapausa, que pode durar vários meses, até que se apresentem condições favoráveis, afirmam os pesquisadores.
Eles explicam ainda que as ninfas, depois da eclosão, buscam refúgio nas partes úmidas e sombreadas na base das plantas e começam a se alimentar nas partes descobertas da raiz, nos brotos e estalões e na parte basal do talo. Desde o início da alimentação e durante todo o período ninfal, que varia de 25 a 35 dias, o inseto se recobre com uma espuma. Esta espuma, em forma de saliva, protege as ninfas de seus inimigos naturais e contra a dessecação, proporcionando um microclima favorável para seu desenvolvimento. As ninfas podem morrer em poucos minutos se expostas à radiação solar ou a ambiente muito seco.
Grau de infestação Os pesquisadores do Iapar acreditam que para implantar e conduzir adequadamente o manejo das cigarrinhas, é necessário que técnicos e pecuaristas conheçam a biologia, hábitos e, acima de tudo, saibam quantificar a infestação da praga. Para tanto, vistorias e amostragens são necessárias, pois das informações obtidas a campo depende a escolha das medidas de controle.
Três épocas são mais importantes para a realização das amostragens: setembro, novembro e janeiro. No Paraná, essas épocas correpondem, respectivamente, à primeira geração, segunda geração e pico populacional das cigarrinhas. Para detectar o nível de infestação, o produtor deve ter como base o seguinte critério: até 30 ninfas por metro quadrado, a infestação é considerada baixa; de 30 a 50, infestação moderada; acima de 50, infestação alta. Um profissional da assistência técnica pode ajudar neste trabalho.
Rodolfo Bianco ressalta que hoje em dia existem produtos químicos que podem ser aplicados até sem tirar o gado do pasto. O problema é que não pode ser produto de longo efeito residual, e se o pecuarista passa um desses produtos agora, daqui a uma semana vai precisar aplicar de novo, encarecendo o controle da praga. Em vista disso, aconselha Bianco, o ideal é ir fazendo a reforma das pastagens, substituindo o material que existe por pastos mais tolerantes, isto é, que suportem melhor o ataque da cigarrinha.
Controle biológico Na fazenda experimental do Iapar no município de Ibiporã, vizinho de Londrina, existem parcelas de pastagem, com cigarrinha, onde foi aplicado o fungo Metarhizium anisopliae. Porém, o ideal é ter áreas de capins mais tolerantes, e adotar algumas práticas culturais que deveriam ter sido tomadas em agosto-setembro, para poder prever o que fazer agora.
A orientação do pesquisador Rodolfo Bianco para aquela ocasião seria que se fizesse uma pequena reforma de pastagem, com grade ou fogo leve, porque as ninfas receberiam os raios do sol e não prosperariam (é preciso, porém, tomar cuidado com o fogo, que é altamente prejudicial aos inimigos naturais da praga). Quem não fez nada deste tipo, poderá fazê-lo no início da próxima primavera. Se o pecuarista pretende utilizar o metarhizium, o manejo da pastagem não deve ser muito drástico, pois o fungo não tolera sol.
As aplicações do fungo (que é desenvolvido e comercializado em arroz autoclavado) devem ser cadenciadas, porque ele começa a resolver o problema quando tem algum potencial de inóculo na área. Isto leva de 3 a 4 anos. Se aplicar de 4 a 5 kg de água com fungo por hectare, o pecuarista poderá obter resultado em um ano, mas se em seguida ocorrer um veranico, ele perderá o metarhizium devido ao sol. Então, devem ser aplicadas de 250 a 500 gramas/ha, dependendo do tipo da pastagem: se for mais alta, aplicar maior volume do fungo com água; se for menor, aplicar menos.
Rodolfo Bianco disse que tem recebido, no Iapar, comunicações de infestação de cigarrinhas nas pastagens em quase todo o Estado, mas principalmente nas regiões Norte e Noroeste, onde se acha o maior rebanho bovino de corte do Paraná, e onde o tempo está mais quente e úmido este ano. Nestas regiões, atualmente as reclamações são principalmente a respeito da infestação em estrela-roxa, como acontece em Londrina, por exemplo. De Guarapuava (Centro-Sul) para o Sul, a cigarrinha não se desenvolve muito.


