A Crise Mundial e a Agropecuária
Ágide Meneguette
A crise mundial, seja qual for o seu desfecho em nosso país, trará sérios problemas para a comercialização dos produtos agropecuários, seja no mercado interno, seja no externo. Como a debacle é generalizada, o mercado mundial estará totalmente conturbado no momento de vender a safra de verão, que está sendo plantada. Os mercados estão se fechando, até por falta de recursos para comprar. A Ásia, que tem se constituído num grande comprador de produtos brasileiros, como soja, frango, açúcar e sucos, está fortemente abalada e vai reduzir suas compras.
A Rússia, que havia se transformado num bom mercado para proteínas animais e açúcar, por exemplo, não tem condições de comprar mais nada, já que quebrou. Para agravar a situação, os Estados Unidos e a União Européia aumentaram significativamente a sua produção de grãos, para repor os estoques estratégicos. Com a retração das compras, até nos mercados internos desses países, e com o estreitamento dos outros mercados, significa que a guerra das vendas vai ser acirrada, prevendo-se uma grande queda nos preços.
Portanto, o horizonte para a comercialização da nossa safra não é nada alentador. Os preços dos produtos de exportação já assinalam queda, caso do açúcar e da soja. Imediatamente, contudo, a agropecuária estará sentindo a crise. Primeiro de forma indireta, com a elevação dos juros, que corresponderá a uma elevação no preço dos insumos utilizados no plantio.
Embora o Governo Federal tenha afirmado que não haverá falta de recursos para o financiamento da safra, as medidas adotadas mostram o contrário. Em primeiro lugar haverá um menor volume de recursos disponíveis, uma vez que o próprio governo autorizou a aplicação das captações de dólares para financiamentos da ‘‘63 Caipira’’ integralmente em títulos com garantia cambial. Numa crise dessas, que banco não vai utilizar essa oportunidade ?
Com a alta de juros de mercado, o governo utilizará mais recursos orçamentários, para equalizar os juros fixos do crédito rural. Como esses recursos não são elásticos, significa uma possível redução no montante da oferta aos agropecuaristas.
Além disso, o problema crucial ocorrerá na comercialização, que se dará no início do próximo ano. O Orçamento de 1999 prevê uma redução dos recursos destinados aos financiamentos oficiais de EGF e para equalização, conforme apurou a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Esta redução será em torno de 17%, caindo de R$l bilhão e 446 milhões para R$1 bilhão e 231 milhões.
Até os recursos destinados às aquisições diretas de produtos agrícolas por parte do Governo e para o Prêmio de Escoamento de Produto (PEP) vão encolher no próximo orçamento, caindo de R$303 milhões para apenas R$70 milhões. Portanto, o poder de intervenção do Governo no mercado interno será menor, o que é preocupante, dentro desse quadro de hecatombe mundial. Ao invés de reduzir seus recursos para proteção da agropecuária, o Governo deveria estar aumentando as verbas do Orçamento Oficial de Crédito, para reforçar a sua capacidade de evitar um desastre similar ao que ocorreu em 1995.
O autor é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná.

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