A crise do Mercosul - Luiz Antônio Fayet
A crise do Mercosul
Luiz Antônio Fayet
Os países do Mercosul adotaram, sistematicamente, nos últimos anos, o mesmo erro de manter suas moedas valorizadas. O valor de uma moeda em relação a outra não pode ser ditado pela vontade dos governantes; ela é fruto de todo um conjunto de características de cada economia.
Valorizações artificiais, como as adotadas pelo Brasil e Argentina, fatalmente dão com os burros nágua. Com a explosão da política cambial brasileira em janeiro, a grande pergunta passou a ser: e a Argentina? Seguramente não vai durar muito tempo, a água já está batendo no queixo.
Com a política de manter o dólar a preços baixos, a Argentina foi perdendo competitividade internacional, mas como ela tem uma economia muito complementar à nossa, foi ganhando o mercado brasileiro. Nos últimos cinco anos as exportações da Argentina para o Brasil pularam de 5% para mais de 30% do total. Com isto, a economia deles como a de todo o Mercosul, passou a ter uma dependência muito forte das importações brasileiras.
Um amigo definiu muito bem este quadro: eram como dois bêbados agarrados, um apoiando-se no outro. Como um caiu, ou outro vai junto. A flutuação de nossa moeda já está dando seus reflexos em cascata no Mercosul. As mudanças nos fluxos comerciais nas fronteiras é um claro sinal disto.
Para nossa economia, algumas cautelas devem ser observadas: 1 - a desvalorização do peso argentino dificultará nossas exportações para lá; 2 - paralelamente, aumentará o poder de competição dos produtos deles em nosso mercado, especialmente os lácteos, carnes e os agrícolas em geral, pressionando para baixo os seus preços; 3 - enquanto a desvalorização do peso não acontecer, eles vão aprontar uma série de invencionices para coibir importações do Brasil, tais como: quotas nas fronteiras; quotas nos têxteis; quotas nos veículos; etc. Portanto, convém ter cuidado para os negócios com esta área.
Estas colocações evidenciam que nossas autoridades econômicas não poderão deixar a cotação do dólar ficar abaixo de R$1,80, sob pena de piorar ainda mais a complexa crise que vivemos.
Lá e cá, a cotação do dólar e a inflação se mantiveram baixas à custa de endividamentos externo e interno. Isto quer dizer, os problemas não foram resolvidos, foram simplesmente represados.
No Brasil, isto ficou claro quando ajoelhamos diante do FMI para homologar nossa concordata internacional. Entretanto, falta ainda a concordata interna, que virá. A liberação do câmbio em janeiro reabriu as esperanças e, assim, aos trambolhões, iremos tentando arrumar a casa. Este é o caminho que eles deverão percorrer. Aliás, o candidato governista à presidência já falou até em pedir ajuda ao Papa. Talvez receba a resposta que é mais fácil um camelo passar pelo buraco do fundo de uma agulha do que políticos carreiristas resolverem os problemas de seus países. Aliás, a mania dos políticos do mundo subdesenvolvido é de contrariar a lógica das coisas, submetendo os povos de seus países a sacrifícios inúteis e desnecessários, tais como o desemprego, a miséria e a dependência externa.
Como se vê, a diferença entre o Brasil e a Argentina é só de idioma, Ao ver tudo isto, lembro-me da lição de minha avó: cuidado, dinheiro não leva desaforo pra casa.
O autor é consultor de empresas, membro do Conselho Regional de Economia do Paraná. Foi deputado federal e diretor do Banco do Brasil.





