O ano era 1965 quando fomos morar em Assis (SP). Nossos irmãos menores foram matriculados numa escola perto de casa; nós, os mais velhos, fomos para o Instituto Estadual “Dr. Clybas Pinto Ferraz”. Ficava longe de casa e íamos a pé. Depois do ginásio, o colégio oferecia os cursos normal, científico e o clássico. O Dadá, o Idivar e eu estudávamos o científico de manhã, na mesma sala. Alguns professores faziam gozações conosco por sermos de Sertaneja e do Paraná. De vez em quando, perguntavam: “E os irmãos de Sertaneja sabem responder?” ou “E os paranaenses estudaram?”. Mas éramos bons alunos e estudávamos muito. À tarde, eu ainda estudava o normal e, à noite, o Idivar fazia o curso técnico de contabilidade no Colégio Comercial de Assis. Nossa vida escolar não era fácil, mas a dedicação era imensa.

Quando meus irmãos vêm aqui em casa ver a mamãe, sempre recordamos de alguma coisa. Dessa vez, lembramos da chácara que o papai tinha comprado e que ficava na mesma rua de casa. Trouxera de Sertaneja o Mário pra trabalhar lá e com ele, vieram um irmãozinho e uma irmã para cuidar deles e da casa. Eram pessoas boas e dedicadas. Não era uma chácara de lazer, mas tinha uma horta, alguns pés de fruta, galinhas e porquinhos para o consumo. Tínhamos uma criação de suínos das raças Duroc, Landrace e Wessex que o papai vendia pra frigoríficos. Eram enormes e uma das brincadeiras das crianças era montar nos porcos. Estes eram alimentados com ração à base de farinha de osso, farinha de carne, farelo de soja, milho e, para as porcas que estavam amamentando, era acrescentado um pouco de alfafa. Quando uma porca criava, de dia ou de noite, o papai, meus irmãos e o empregado revezavam-se porque tinham que cuidar para que ela não deitasse sobre os porquinhos que eram uns dez ou doze, matando-os por causa do seu peso.

icon-aspas "O tempo que ficamos na cidade de Assis foi muito bom, deixou saudades"

Certa vez, vi o papai muito preocupado, observando os porcos. Alguns estavam prostrados, mancando, com febre, com os cascos descolando e com lesões. Chamou o veterinário. Era febre aftosa, doença contagiosa. Teve que separar os porcos doentes, alguns tiveram de ser sacrificados, outros morreram da doença. Teve que desinfetar todo o lugar, parece-me que usaram creolina e outras coisas; ficou tudo bem limpinho e em especial, as baias. Perdemos algumas cabeças, mas depois tudo voltou ao normal. Papai teve todo o cuidado de vacinar a criação. Só sei dizer que por muito tempo, não aparecemos na chácara.

De vez em quando, íamos visitar nossos familiares e amigos de Sertaneja. Aos poucos, o papai foi acabando com seus negócios na cidade e foi cuidar de suas terras no Mato Grosso. O tempo que ficamos na cidade de Assis foi muito bom, deixou saudades.

IDIMÉIA DE CASTRO, leitora da FOLHA.

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