A caminho do mercado internacional
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de janeiro de 1999
Cláudia Barberato 
Do nascimento até o abate, o controle de qualidade da carne produzida, é uma garantia de melhor remuneração ao pecuarista. A seguir, na cadeia produtiva, frigoríficos têm que fazer sua parte, implantando programas de qualidade de seu serviço. A exigência é do mercado externo.
A partir de 1º de janeiro de 2000, países que compõem a União Européia só comprarão carne que estiver devidamente embalada e identificada pelo código de barras, com todo o histórico do animal que produziu essa carne. A informação é de Constantino Ajimastro Júnior, da Pecuária Dahma, empresa que possui 12 fazendas localizadas nos Estados de São Paulo, Goiás e Minas Gerais, totalizando rebanho de 90 mil cabeças na produção de novilhos de corte.
Saída é exportarA chamada rastreabilidade de produção, com dados desde o nascimento até o abate do animal, na fazenda; o processo de abate, cortes e resfriamento, no frigorífico; e sua conservação nos pontos de venda, é que vão ditar o mercado da carne. Propriedades rurais, frigoríficos e supermercados - toda a cadeia produtiva, deverão fazer a rastreabilidade, prevê.
No Brasil, alguns frigoríficos exportadores já fazem a rastreabilidade, para atender o mercado internacional. Segundo Ajismatro, a pecuária nacional só poderá evoluir se considerar o mercado de exportação. Para isso é preciso atender as exigênciais internacionais, sobretudo da União Européia.
Padrão de qualidadeA Pecuária Dahma é uma das maiores do Programa de Qualidade Total para Carne Bovina, coordenada pelo Fundo de Desenvolvimento Pecuário (Fundepec), de São Paulo, entregando semanalmente novilhos enquadrados em alto padrão de qualidade.
A empresa trabalha com boi magro e engorda, mas neste ano deverá fazer também a cria. A identificação eletrônica é usada em todo o rebanho do grupo. A criação está baseada em pasto rotativo, com pivôs centrais, possibilitando que o animais comam sempre um pasto de primeira. Existe também confinamento com ração balanceada. Há dois anos a empresa optou por trabalhar pela rastreabilidade.
Como funcionaA rastreabilidade é um método que garante informações sobre todo o processo da produção de carne, desde o nascimento do boi, e pode ser feita com identificação eletrônica dos animais, através de um cheep no corpo do bovino. Existem métodos como brincos eletrônicos, brincos eletrônicos com códigos de barra; pulseiras com cheeps em uma das mãos (patas) do animal; ou cheeps implantados no húmem, entre outros.
O sistema de rastreamento dos passos da carne, do produtor até o varejo, ainda é pouco desenvolvido no Brasil. É possível que aqui o processo se inicie com controle feito no papel, diferente de outros países onde já é usado o cheep eletrônico no animal.
Tradicionalmente, o controle da vida do animal, sua sanidade, entre outros dados, ainda é feito por anotações em papel. Na maioria das vezes, segundo Ajimastro, a informação é colhida por um funcionário de formação simples. Conseguir que ele anote as informações em uma planilha de maneira correta é um desafio. Para manusear os dados da identificação eletrônica, deverá haver um bom treinamento.
Todo o esquema requer infra-estrutura e investimentos que ainda não são viáveis para a média da pecuária brasileira, que sequer tem uma estação de monta programada na propriedade.
O rastreamento deveria servir para os atacadistas e supermercados na compra de produtos de melhor qualidade. Deverá ser também uma maneira de reduzir o grande número de abates clandestinos no País. O processo já conta com outras experiências no Brasil com trabalhos do Fundepec, de São Paulo, e da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS).
O Ministério da Agricultura trabalha para cumprir portaria que determina carne embalada e identificada desde sua origem e que nos estabelecimentos onde é feito o corte de carnes sejam implantadas normas básicas de higiene. Mais tarde espera-se que a rastreabilidade cujo ponto básico é a identificação eletrônica de animais seja também implantada.
Brincos e softwarePara iniciar a rastreabilidade, a Dahma implantou brincos de identificação em todo o rebanho há dois anos. A empresa agregou os brincos ao seu software de administração rural. O sistema acompanha um leitor de barras semelhante ao utilizado nos supermercados.
Uma pequena pistola emite um facho de raio laser que mira o código impresso no brinco, na orelha do boi, e faz sua leitura. As informações são descarregadas no computador por um simples cabo ou armazenadas em um coletor de dados, para posterior transferência. Os dados podem ser trabalhados da maneira que o proprietário desejar.
Corrigir falhasO sistema de código de barras, associado ao software, faz o acompanhamento de todas as fases de produção. É possível corrigir erros no manejo alimentar e sanitário, entre outras falhas no processo da produção de carne, garante Ajimastro. O programa controla também vacina, medicamentos, pesagem, produção e reprodução, entre outros itens.
Atualmente este acompanhamento é feito a partir da compra do bezerro até o abate. Há informações sobre os melhores fornecedores de novilho, a composição racial, tipo de alimentação, período de permanência na propriedade, tempo de confinamento, ganho de peso, características de carcaças, entre outras.
Vantagens e desvantagens Embora o sistema funcione bem, existe a desvantagem do alto custo de implantação e manutenção. A unidade custa US$1,00. A desvantagem surge no manejo, na estação das chuvas, afirma.
Segundo Ajimastro, na seca o sistema funciona muito bem. Mas, quando chove, a lama suja o brinco e o código. É preciso colocar um empregado para limpar os animais, atrasa o serviço e encarece o sistema. Além disso, é preciso treinar bem o pessoal que irá mexer com a pistola a laser que deverão ser bons de pontaria. O sistema funciona bem em animais mais mansos, que não se mexem muito.
Numa da fazendas do grupo estão sendo testados outros tipos de brincos, apenas com números que seriam digitados em um computador de mão e se teria acesso às informações. A vantagem é que o empregado não teria mais que ficar mirando na orelha do animal para acertar o código de barras.
Ajimastro conta que o brinco, com transponder, é acionado na hora em que o animal entra no curral para pesagem, através de uma placa instalada com sensores para a leitura de todos os dados, que poderão ser acessados no computador. A vantagem é que cada brinco custa US$0,30.


