O rami foi introduzido no país como planta forrageira e teve uma grande produção no Norte do Paraná até entrar em decadência a partir da década de 1990. O maior incentivo na região foi quando a Fiação e Tecelagem Tokio de Rami adquiriu 400 alqueires de terra em Uraí (Norte Pioneiro) nos anos 1940, mas acabou quebrando na Segunda Guerra Mundial. A cultura teve uma retomada a partir de 1953, quando a família Itimura apostou no cultivo do rami e chegou ao ápice na década de 1980, época em que ela acabou se disseminado por várias regiões do Estado, mas aos poucos acabou cedendo essas áreas para outras culturas, como a soja e o milho. Para se ter uma ideia, segundo o IBGE, Londrina que possuía uma área de 3016 hectares para o rami em 1988, em 1997 possuía 968 hectares e desde 2012 o órgão não registra nenhuma área plantada dessa cultura na cidade. Em Uraí o IBGE não registra nenhuma área para o rami desde 1999.

O nome da planta é oriundo do malaio ramish, nome original da planta da família das urtigas, cuja denominação científica é Boehmeria nivea, uma variedade que não possui pelos urticantes. Introduzida no país como planta forrageira, ela se tornou conhecida por ter fibras bastante resistentes. Na época ela era muito utilizada na fabricação de tecidos, cordas e barbantes, e também podia ser utilizada para produzir a celulose utilizada no papel moeda, e ser empregada na fabricação de mangueiras, pneus, fios de paraquedas, etc.

O saudoso Wilson Ramalho Matta, que foi presidente do sindicato dos trabalhadores e faleceu em 2017, concedeu uma entrevista para a Folha de Londrina no dia 30/5/2005 dizendo que a cultura do rami sucumbiu por causa da política oficial de poucos incentivos. ''Fracassou devido à política têxtil, que praticamente provocou a erradicação do rami'', avalia.

Mas o ex-diretor da Toyo Sen I do Brasil, Kazuaki Yagi, explicou que a produção decaiu por aqui porque não havia mais consumo da fibra brasileira. “O rami representava a totalidade da produção da Toyo Sen I. A gente comprava a matéria prima, beneficiava a fibra e exportava para o Japão. Mas o Japão parou de comprar, porque a nossa própria empresa montou uma filial na China e o custo de produção a fibra por lá era mais barato, então dentro da própria empresa havia concorrência”, destacou. Com isso a indústria de fiação de rami do Brasil foi prejudicada. “Os produtos chineses invadiram o mercado e a produção aqui caiu. Fora a Toyo Sen I também tinha a Carambeí, a fábrica dos Itimura que beneficiavam a fibra. Quando caiu o consumo não tivemos como redirecionar a produção para outros mercados. Não é como o algodão, que ainda possui um mercado grande”, destacou. Segundo Yagi, antigamente havia demanda porque antes se faziam ternos e outras roupas de rami. “Mas saíram as fibras sintéticas, como o poliéster e o nylon, que tomaram o lugar do rami no mercado”, destacou.

Segundo ele, a Toyo Sen I fechou em meados da década de 1990. “A Carambeí, que também trabalhava com o rami, também fechou”, destacou. “A fibra do rami era cara e também era muito difícil de produzir, porque utilizava uma máquina descortiçadora conhecida entre os trabalhadores como ‘periquito’. Ela arrancava muitos braços dos trabalhadores. Nós inventamos uma máquina grande para automatizar esse processo, mas a fibra era muito forte e quanto maior a máquina, mais complicada era de operar”, relembrou.

Ele ressaltou que naquela época a empresa ajudou o antigo Iapar no desenvolvimento de variedades próprias de rami. “ Eu comprava a produção principalmente de sitiantes, alguns deles eram até do Paraguai, mas essa fibra vinha principalmente de municípios paranaenses, que além aqui da região tinha de Peabiru, Cascavel e muitos outros sítios”, relembrou.

Ele ressaltou que a empresa tentou desenvolver novos usos para o rami para manter a produção viva. “Como a folha de rami tem muita proteína, nós tentamos desenvolver o uso dela na alimentação. Uma empresa fez macarrão de folha de rami. Mas a área de alimentos era fora de nossa área de atuação e ficamos só na tentativa”, destacou.

PESQUISA

A professora do curso de Geografia da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Alice Yatiyo Asari, realizou uma pesquisa relacionada ao rami na década de 1980 e focou principalmente nos pequenos produtores, um total de 62, dos quais 32 eram proprietários, 25 porcenteiros e cinco eram arrendatários. De acordo com o trabalho na época, dos produtores, 90% residem na propriedade, evidenciando que se trata de “uma cultura que exige grande dedicação, pois há tarefas que necessitam de acompanhamento constante, principalmente no período da colheita.”

A pesquisa constatou também que o produtor de rami não tem na fibra a sua única fonte de renda, mantendo atividades alternadas e/ou paralelas, daí também a permanência por longos períodos com a cultura, pois os rizomas do rami exigem gastos elevados para erradicá-los. Normalmente o produtor abandona o ramizal, transforma-o em pasto, para em seguida partir para o plantio do milho, do algodão, ou do arroz. “Elas plantavam gêneros de primeira necessidade. Mantinham a horta e cultivavam arroz e feijão. Eram quase que auto suficientes. Isso me chamou a atenção na época. Os teóricos chamavam eles de camponeses, mas nas políticas públicas recentes têm chamado eles de produtores familiares. Era um exemplo de que uma pequena propriedade não precisa focar apenas para o mercado, mas para subsistência também. Me marcou e até hoje acho importante o produtor rural não ficar sobrevivendo apenas com um produto”, destacou.

Dos 600 trabalhadores consultados nessa pesquisa da década de 1980, 4 % eram menores e 52 % eram mulheres. A pesquisa identificou as seguintes funções na produção de rami: o maquineiro, o bagaceiro, o fibreiro, cortador e o carregador. “O maquineiro era o melhor remunerado, e era o que lidava com a máquina conhecida como ‘periquita’. Ele também era o mais suscetível a acidentes”, relembra Asari. “Uraí, que era uma grande produtora de rami, era conhecida como a capital mundial do rami, mas também era conhecida como a capital dos manetas”, destacou. Isso ocorria porque o maquineiro era responsável por colocar o caule da planta na boca da máquina e puxava rapidamente enquanto o rolo dotado de lâminas eliminava a parte lenhosa.

O bagaceiro fazia a limpeza dos restos do caule e folhas logo abaixo da máquina descortiçadora, e levava essa matéria triturada para a área de rami já colhida, para adubação e cobertura. O fibreiro é o elemento que estende as fibras em varais construídos com bambu, a fim de que as secassem de forma uniforme e consequentemente obtivessem melhor preço de venda. Esta atividade era realizada com frequência pelas mulheres. O cortador fazia o corte do caule do rami, bem junto ao solo, para que haja uma brotação uniforme e vigorosa. O carregador ou 'camelo' faz todos os outros serviços não especificados.

A cada corte eram necessários em média 45 dias e anualmente havia a média de três cortes, mas em tempos chuvosos colhia-se até quatro vezes em um ano. Cerca de 29% dos trabalhadores eram da própria família, os demais eram contratados temporariamente. “Estes diaristas ou 'peões', percorriam as propriedades produtoras no período de colheita oferecendo seus serviços ou então eram arregimentados em Londrina”, destacou a professora.

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