A árvore da minha infância
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sábado, 29 de junho de 2019
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Na década de 1970, minha família veio para Londrina. Saímos de uma das cidades do interior do Paraná e por aqui fincamos raízes, neste chão “vermelho”. Criança ainda, brincava nas ruas sem asfalto onde a poeira tomava conta das casas – em sua maioria ainda de madeira de peroba-rosa com pequenas varandas na frente. Quando o transporte urbano passava pela rua principal levantava uma verdadeira cortina de poeira que demorava a “baixar” causando incômodo às donas de casa que estendiam suas roupas em varais esticados ao sol.
Vez ou outra, para amenizar os efeitos da poeira, um carro pipa da prefeitura jogava água pela traseira em forma de chuveiro...era uma festa só! Corríamos atrás dele na maior das algazarras! Agora o pó se misturava à água formando uma pasta grudenta e escorregadia que grudava entre os dedos dos pés! Quase não havia moledo e às vezes não sabíamos se era melhor o pó ou a lama que se formava.
Não íamos ao “centro” todos os dias pois a distância dos bairros e os poucos ônibus disponíveis para a periferia dificultavam o translado. Os ônibus amarelos circulavam diariamente desde que o tempo permitisse. Sim, digo “permitisse” pois, em caso de chuvas fortes, ficavam atolados em meio ao barro vermelho e a viagem era interrompida.
À medida em que os anos se passavam, novos bairros iam se formando e alguns cafezais e áreas agricultáveis eram invadidas por máquinas que abriam novas ruas. Em pouco tempo o casario se formava descaracterizando a antiga paisagem agrícola.
Na parte mais baixa do bairro existia um pequeno córrego de águas cristalinas que corria suavemente. Não tinha muita profundidade e podíamos ver pequenos lambaris e outros pequenos peixes passando por ele. Lembro-me da velha ponte feita de madeira. Tábuas grossas suportavam até veículos pesados. Tinha parapeitos de eucalipto tratado onde nos debruçávamos por horas a contemplar e escutar o barulho das águas passando sob ela.
Em uma de suas margens havia uma frondosa árvore cercada por pastos. Uma verdadeira pintura! Era jovem e altiva! Sua copa majestosa e seus galhos abertos serviam de abrigo para pássaros que ali pernoitavam e também pequenas plantas neles se desenvolviam. O pequeno córrego passava não mais que uns cinco metros de seu caule. A natureza se harmonizava naquele lugar.
Após longos anos, passei novamente sobre o velho córrego. Uma avenida agora passa sobre ele tirando o encanto natural. A ponte não mais existe e suas águas agora são turvas... não creio que haja abundância de vida como outrora! E a velha árvore ainda continua de pé. Sua copa deixou de existir e seus braços agora são galhos secos que agonizam principiando seu fim. Pobre árvore da minha infância! Ao seu redor vejo restos de construção, lixo e animais amarrados compactando o solo e sufocando-a... Triste vê-la nestas condições! Até quando sobreviverá a pobre árvore da minha infância?
"Em uma de suas margens havia uma frondosa árvore cercada por pastos. Uma verdadeira pintura!"
Valdinei Franco, leitor da FOLHA
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