A ameaça do plantio clandestino
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sexta-feira, 06 de outubro de 2000
Cristina Côrtes De Londrina 
O produtor que plantar sementes de soja transgênica contrabandeadas estará expondo todas as lavouras brasileiras ao risco do retorno de doenças já controladas no País. O alerta foi feito pelo pesquisador da Embrapa-Soja, José Tadashi Yorinori, que destacou como principal risco um novo surto da mancha-olho-de-rã, uma doença causada por fungo e que há mais de dez anos está controlada nos campos de soja do País.
A soja transgênica é a que foi modificada geneticamente, para ser resistente ao herbicida roundup, e tem sido plantada nos Estados Unidos, Argentina, entre outros países. No Brasil o plantio comercial de variedade transgênica está proibido. É liberado apenas o plantio em alguns campos experimentais. O produtor que plantar soja transgênica nesta safra, além de estar infrigindo a lei, poderá disseminar doenças já controladas, ou novas doenças. Muitas cultivares transgênicas argentinas, de onde as sementes estão sendo contrabandeadas, não têm resistência a mancha-olho-de-rã. Há registros de agricultores no Norte da Argentina que perderam praticamente toda a sua produção na última safra, explica o pesquisador.
PerdasA mancha-olho-de-rã (Cercospora sojin) é uma doença originária dos Estados Unidos e causa a desfolha da planta e o apodrecimento dos grãos. No Brasil apareceu pela primeira vez na safra 1970/71, quando dizimou grande parte da área plantada na Região Sul e no Cerrado. Até o último surto, na safra de 88/89, calcula-se prejuízos em torno de US$ 200 milhões. Foi a primeira doença pesquisada, para obter variedades resistentes, no Centro Nacional de Pesquisa de Soja.No Brasil já foram detectadas 25 raças, por isso a importância de cultivares resistentes e o tratamento de sementes com fungicidas, destaca Tadashi.
Nos Estados Unidos a doença não é problema, segundo o pesquisador, porque só ocorre eventualmente devido ao controle do próprio clima. Nas grandes regiões produtoras de soja americana, o Meio Oeste, o invernmo rigoroso se encarrega de controlar o fungo, explica.
PerigoMuitos agricultores não imaginam as consequências que o plantio de uma semente clandestina pode trazer ao meio ambiente. Todas os grandes surtos de doenças nas lavouras, de maneira geral, são introduzidos através das sementes, e as doenças são as principais ameaças à produtividade das lavouras, comenta Tadashi.
Independente de ser transgênicas ou não, as variedades plantadas na Argentina ou nos Estados Unidos não estão adaptadas às particularidades de clima e solos brasileiros. Sem estar adaptada, uma variedade pode ter problemas de produtividade, ser suscetível às doenças nacionais e espalhar pelas lavouras brasileiras doenças novas ou que já estavam erradicadas.
Já foram identificadas pela pesquisa 25 raças da mancha-olho-de-rã, e existe o risco das variedades clandestinas trazerem raças novas para as lavouras brasileiras. Podem aparecer também outras doenças como a mancha-bacteriana-chocolate, originária dos EUA; a mancha-foliar-vermelha encontrada em Zimbabue, na África; ferrugem-da-soja e cancro-da-haste.
O pesquisador alerta para que o produtor esteja consciente desses riscos e evite o plantio de soja transgênica, que não trará nenhuma vantagem. Só o agricultor relaxado precisa da soja transgênica para controlar o mato, porque o bom produtor já faz um manejo para evitar as plantas daninhas sem aumentar os custos de produção, comenta Tadashi.
O controle de ervas daninhas com herbicidas é responsável por uma parte significativa dos custos de produção, e existe a expectativa por parte dos produtores de que o uso da soja transgênica possa reduzir estes custos. Segundo o pesquisador, o plantio da soja transgênica poderá colocar o grão brasileiro em risco de ser rejeitado pelos países importadores que não querem produtos geneticamente modificados. Outra restrição é que as variedades transgênica não são mais produtivas. A soja transgênica dificilmente vai superar a convencional em termos de produtividade, informa o pesquisador.


