A alambique do Nestor
Logo que acabou a piracema fui convidado para pescar numa fazenda em Sertaneja. O proprietário preservou minas dágua e formou uma grande lagoa, onde soltou lambaris, jundiás e traíras. Fiquei animado quando soube que nos últimos três anos ninguém havia pescado naquele lugar. Arrumei as tralhas de pesca e no sábado, bem cedinho, o Passarinho estava buzinando em frente de casa, com o Jota, Dé da Sanfona e o Luiz Caruncho já instalados na caminhonete. Fazia um lindo dia em Londrina, com um céu tão azul que parecia anil. Pegamos a estrada e o Passarinho pisou fundo no acelerador, o que me levou a chamar sua atenção:
- Sei que você gosta de voar. Mas pode tirar o pé, que a viagem é curta e as traíras não vão fugir.
Em pouco tempo saímos do asfalto e foi então que o Jota lembrou-se das tuviras, dizendo que tinha uma venda por ali, onde poderíamos comprar iscas. Pegamos um caminho de terra, mas depois de uns dez quilômetros Luiz Caruncho mandou o Passarinho parar dizendo que naquelas bandas não tinha venda alguma. O Passarinho manobrou e saiu pegando outra estradinha que, a bem da verdade, era um carreador. Quinze minutos depois estávamos perdidos. Foi quando passou um agricultor e disse que pra chegar na Fazenda Santa Helena era só virar à direita no alambique do Nestor e seguir em frente. Foi só o homem falar do alambique que a turma se alvoroçou. Conhecedor do assunto, Dé da Sanfona esclareceu que a cachaça é um patrimônio cultural brasileiro, produzida em vários Estados e pode ser envelhecida em tonéis de madeira, como amburana, carvalho, jequitibá, castanheira...
- Vocês sabem a diferença entre cachaça, aguardente e pinga? Perguntou o Jota.
- Dizem que são coisas diferentes, respondi.

Jota explicou que apesar de se referir à mesma bebida, as palavras não são sinônimas e que aguardente é qualquer bebida obtida a partir da fermentação de vegetais, mas a cachaça é o nome da aguardente feita da cana-de-açúcar. Assim, toda cachaça é aguardente, mas nem toda aguardente é cachaça. Dé da Sanfona salientou que pinga é o nome vulgar da cachaça e que a bebida ganhou esse apelido dos escravos, pois quando ferviam o caldo da cana-de-açúcar nos engenhos, o vapor condensava no teto e pingava sobre eles. Sem descuidar da boleia, Passarinho disse que a cachaça é uma riqueza brasileira exportada para muitos países e que existe até uma lei dizendo o que é cachaça e o que não é.
- Não vejo a hora de conhecer esse alambique. Deve ser uma coisa chique, falou o Luiz Caruncho.
Distraídos nessa conversa, nem notamos que havíamos chegado ao lugar. E foi uma grande decepção! Só havia ruínas daquilo que um dia fora um alambique. Maquinários destruídos, peças enferrujadas e uma placa caída no meio do mato, indicando onde outrora existia o alambique do Nestor. Ao embarcarmos para seguir viagem, um trator encostou ali perto e dele desceu um senhor, dizendo ser o dono daquelas terras. Depois dos cumprimentos, ficamos conversando sobre o clima, lavoura e safra. Mas o Jota não se conteve e perguntou:
- O que aconteceu com o alambique? O dono, chamado Agenor, respondeu:
- Era do meu avô, Adamastor e depois foi de meu pai, Nestor. A gente fazia cachaça, melado e rapadura. Mas depois que meu pai morreu abandonei o alambique, porque não compensava mantê-lo na área rural. Tem que produzir em escala industrial, daí o mundo todo pode comprar cachaça pela internet.
Um tanto decepcionados por não termos podido visitar um alambique artesanal, seguimos pra pescaria. E para animar a turma, eu finalizei:
- Toca o barco, Passarinho! Tem uma fritada de traíras nos esperando.
GERSON ANTONIO MELATTI, leitor da FOLHA





