"O dicamba passa a ser um componente que agrega controle ao glifosato", explica o gerente técnico de proteção de cultivos da Bayer, Antônio Ferreira
"O dicamba passa a ser um componente que agrega controle ao glifosato", explica o gerente técnico de proteção de cultivos da Bayer, Antônio Ferreira | Foto: Ricardo Chicarelli



Soja transgênica e o herbicida glifosato. Uma relação que o produtor brasileiro conhece bem, afinal, as duas primeiras gerações de oleaginosas geneticamente modificadas (RR e Intacta RR2) - desenvolvidas pela Monsanto (agora Bayer) - transformaram a forma de o produtor fazer o manejo da safra. Quase ninguém questiona que os números do País em relação à produção e exportação estão diretamente ligados a essa revolução, independentemente de todas as polêmicas criadas pelos transgênicos ao longo das últimas décadas.

Ao mesmo tempo, o uso continuado e intenso desse herbicida tão poderoso capaz de controlar mais de 500 espécies de plantas daninhas de folhas largas e estreitas gerou naturalmente uma pressão por seleção natural e resistência de algumas plantas invasoras, cada vez mais complexas para se controlar. O temor é que a molécula perca sua eficiência a cada safra, pois não há nada sendo desenvolvido pela pesquisa com essa robustez de controle.

Não por acaso, a Monsanto já trabalhava há 15 anos numa nova tecnologia de soja e nesta safra produtores das seis maiores regiões de cultivo do grão estão tendo contato pela primeira vez - em áreas controladas - com a terceira geração de soja transgênica, com previsão de ser lançada comercialmente pela Bayer na safra 2021/2022. A Intacta 2 Xtend foi mostrada esta semana aos sojicultores paranaenses, num evento promovido pela empresa multinacional, em Maringá.

De forma simples, a nova soja (ou pacote tecnológico, como a empresa prefere dizer), também será resistente ao herbicida dicamba - que atuará de forma conjunta com o glifosato - com foco em 250 espécies de plantas daninhas de folhas largas. "Hoje o produtor controla plantas daninhas da seguinte forma: normalmente faz a aplicação de glifosato, se há um novo fluxo (de plantas invasoras), ele entra e aplica de novo (o famoso herbicida). Isso aumenta o que é chamado de pressão de seleção, aparecendo novos casos de biótipos resistentes", explica o gerente técnico de proteção de cultivos da Bayer, Antônio Ferreira.

Com o dicamba junto à nova soja, o manejo muda. De forma geral, na primeira aplicação seria adicionado o herbicida em conjunto ao glifosato, controlando as plantas daninhas com um efeito de solo, ou seja, não apenas as pragas já emergidas, mas controlando as espécies que vão emergir posteriormente. Eventualmente, o produtor poderia fazer uma nova aplicação do dicamba caso houvesse necessidade durante a safra. "O dicamba passa a ser um componente que agrega controle ao glifosato. A buva, por exemplo, o glifosato não controla mais. Num segundo grupo, temos as plantas daninhas de multifluxo (caruru e picão-preto, por exemplo), em que acontece o chamado efeito de solo. Por fim, as de terceiro nível (corda-de-viola e leiteiro), de difícil controle, quando adicionado o dicamba, houve melhoria no controle."

Vale dizer que os produtores, em sua grande maioria, não fazem a recomendação exata da Bayer em relação ao manejo adequado com glifosato. O ideal seria aplicar herbicidas pré-emergentes já disponíveis no mercado, o que diminuiria bem a pressão por seleção como acontece com o uso exclusivo e contínuo do herbicida. "Hoje infelizmente apenas 5% a 8% do mercado brasileiro, em média, utiliza esse tipo de produto. Não sei a capacidade de desenvolver novas moléculas no futuro e por isso precisamos garantir a longevidade do glifosato", complementa Ferreira. (V.L.)

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