Xeque-mate das rainhas
Série da Netflix encanta o mundo e faz procura pelo xadrez disparar, principalmente entre as mulheres
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de dezembro de 2020
Série da Netflix encanta o mundo e faz procura pelo xadrez disparar, principalmente entre as mulheres
Marcos Martins - Especial para a FOLHA 

No final de outubro, as buscas pelo jogo de xadrez cresceram 41% na internet. Segundo o Google, em novembro a pesquisa atingiu o ponto mais alto desde janeiro de 2013. A pergunta mais comum entre os internautas foi “como jogar xadrez”, seguida de “quantas casas tem um tabuleiro de xadrez”, “jogos de xadrez”, “estratégias de xadrez” e “tabuleiro de xadrez madeira”. Já no eBay, site de e-commerce americano, houve um aumento de 273% nas buscas para a compra de um tabuleiro. Cresceu também o interesse em aprender a jogar. O enxadrista e mestre americano Levy Rozman passou de uma média de 70 mil visualizações diárias na plataforma de vídeos Twitch para mais de 500 mil.
O fenômeno foi consequência do lançamento da série “O Gambito da Rainha”, que em pouco tempo se transformou na minissérie mais assistida da história da Netflix, sendo vista em 62 milhões de casas mundo afora. Baseada no livro homônimo de Walter Tevis, de 1983, foi escrita e dirigida por Scott Frank. A trama se passa na década de 1960 e narra a trajetória de Elizabeth Harmon, interpretada pela atriz Anya Taylor-Joy. A menina de 9 anos, após ser abandonada por seu pai e perder a mãe, vai morar em um orfanato, aprendendo xadrez com o zelador da instituição, que disputava partidas sozinho no porão. Encantada pelo jogo, passa a dedicar a vida a aprender cada vez mais e aprimorar habilidades, impressionando a todos e tornando-se uma grande campeã.
'ME SENTI REPRESENTADA'
As dificuldades de um ambiente dominado pelos homens, o enfrentamento do machismo e os problemas pessoais da garota permeiam a história, que conquistou fãs em vários países. Muitas se identificaram com Beth. Enxadrista desde os 18 anos, a vendedora de consórcios Andréia Juliani Abonizio, de Londrina, conta que se viu ali, encarando os desafios daquele universo predominantemente masculino. “Muitas vezes eu era a única mulher no meio dos jogadores, então me senti representada ali. Entre as colegas, fui a única que segui competindo no esporte. Falta apoio e incentivo para as mulheres”, aponta.
Entre as pessoas que demonstraram entusiasmo após assistir a série, 73% são mulheres e 27% são homens, segundo a consultoria Decode. Apesar disso, a presença feminina no esporte é bem menor do que a masculina no Brasil: das 100 maiores pontuações em xadrez, apenas uma foi conquistada por uma mulher, aponta a agência. “A participação feminina ainda é pequena. O ambiente é muito masculino, acho que historicamente isso inibiu a presença das mulheres”, avalia a bióloga e jogadora de xadrez Érika Czernisz, também de Londrina.
IMPULSO
A paixão pelo esporte começou aos 12 anos de idade, quando um tio ensinou os primeiros movimentos. “Ele ensinou por brincadeira, mas eu era muito competitiva e queria ganhar, isso me motivou a estudar mais. Um professor de matemática da escola tinha um projeto, aí me envolvi, a família apoiou e comecei a disputar torneios”, relembra Czernisz que, entre outros títulos, foi bicampeã paranaense na categoria sub-16 feminina em 2002/2003. Para ela, a série é positiva. “Foi fiel em vários aspectos e acredito que ajuda na popularização feminina. Existe uma falsa ideia de que as mulheres são mais fracas e a série pode ajudar a acabar com esse preconceito. Pode ser um impulso para as mulheres saberem que é possível se destacar”, acredita.

Um dos professores de Czernisz nos anos 2000, o mestre em xadrez Carlos Martins é hoje técnico das equipes londrinenses. Ele também acredita que o sucesso da série pode fomentar a participação feminina no esporte. “Sempre tivemos mais meninos nas turmas, aí uma garota chegava naquele ambiente e desanimava, acaba desistindo, mas acredito que está mudando. Temos cidades em que projetos nas escolas ajudam na difusão, aí os grupos ficam mais equilibrados. E esse ano tivemos várias iniciativas para ampliar o número de jogadoras no Paraná”, destaca.
MOVIMENTAÇÃO VIRTUAL
Disputada de maneira virtual, devido à pandemia, a Taça Piraí do Sul reuniu 64 jogadoras, em setembro. Outros quatro torneios femininos agitaram o Circuito Outubro Rosa, promovido pelo Clube de Xadrez Siqueira Campos. E Martins também destaca o projeto “Damas em Ação – Rumo à Maestria”, criado em 2018, com a proposta de aumentar a visibilidade do jogo e incentivar a prática da modalidade pelas mulheres. “Tudo ajuda a popularizar e a série vem nessa onda. Muitas mulheres se identificaram com os desafios de um ambiente por vezes machista. Traz ainda aspectos da época retratada e estimula o estudo. Já dá pra sentir uma movimentação virtual e acredito que após a pandemia a participação feminina deve se intensificar”, avalia o mestre.

DEBATE VÁLIDO
Também professor de xadrez, Marcio Hideo Ara Bueno ainda não vê um aumento na procura pelo esporte. Em relação à série, faz ressalvas ao conflito de Elizabeth Harmon com os medicamentos. “Pode parecer um pouco exagerado, passar uma impressão errada, mas o debate é válido. E se está divulgando o xadrez, é bom”, analisa. Abonizio concorda. “É um drama pessoal dela, não podem achar que todo jogador passa por aquilo. Eu não conheço nenhum caso real. Mas entendo que é um aspecto da dramaturgia e amei ela estudando as jogadas, sendo persistente, o que é fundamental no esporte”, explica a campeã londrinense das modalidades relâmpago, rápido e convencional, em 2018, e paranaense no rápido, no ano passado. “Aprendi assistindo grandes jogadores de Londrina e transformou minha vida”, relembra.
Participando de projetos no esporte desde 1999 e professor da modalidade no Instituto de Educação Infantil e Juvenil, Bueno acredita que o poder público pode apoiar mais a participação feminina com a organização de estruturas de acompanhamento a longo prazo. “Com estímulo e proteção de conflitos, orientação de situações em ambientes de competição, um espaço como esporte transformador e acolhedor e não apenas uma busca por resultados e medalhas. Acho que isso poderia fazer a diferença”, aposta.
'ENSINA PARA A VIDA'
Czernisz também acredita no xadrez como importante no desenvolvimento de crianças e adolescentes. “Ele ajuda no desenvolvimento cognitivo, é desafiador, estimula a persistência, faz você lidar com as vitórias e derrotas, recomeçar e fazer melhor. O xadrez ensina para a vida”, resume.
Sentimento compartilhado por Abonizio, que já deu aulas em escolas, desenvolveu projetos inovadores e hoje ensina o filho, de 4 anos. “Ele tem tem autismo leve e o xadrez com certeza vai ajudar no desenvolvimento. Ele já conhece as peças, eu ensino os movimentos. Vai ajudar na concentração, na amplitude, trazer lições para a vida. Não é uma madeira com peças. É uma paixão”, destaca. Siegbert Tarrasch, polonês que foi um dos mais famosos enxadristas do início do século 20, afirmou na época: “o xadrez, como o amor, como a música, tem o poder de fazer os homens felizes”. E, com certeza, as mulheres também.
DÚVIDAS DOS INTERNAUTAS
Expressões e curiosidades estão entre as questões mais procuradas após o sucesso da série
● Quantas peças tem no jogo de xadrez?
O tabuleiro conta com 64 casas e 32 peças dispostas em uma ordem pré-determinada.
● Quantas peças de xadrez cada jogador possui no início?
Cada jogador conta com 16 peças, sendo elas oito Peões, dois Cavalos, dois Bispos, duas Torres, um Rei e uma Dama (ou Rainha).
● Como o Rei anda no xadrez?
O Rei pode se mover ou capturar outras peças em qualquer direção e sentido do tabuleiro, avançando uma casa de cada vez. Os dois reis nunca podem estar em casas vizinhas.
● O que significa a expressão xeque-mate?
O xeque-mate é a finalização do jogo, quando não há nenhum outro movimento com o qual o Rei possa ser coberto por outra peça ou se mover para outra casa sem ser tomado por uma peça do adversário.
● O que significa "gambito da rainha", que dá nome a série?
Tradução do inglês “The Queen's Gambit”, a expressão remete a uma jogada famosa de xadrez que ocorre logo no início da partida. Nela, o jogador que detém as peças brancas - e que, portanto, inicia a partida - sacrifica um peão para dar espaço aos seus próximos movimentos. Ainda que arriscado, o truque garante a quem começa o jogo uma vantagem crucial sobre o oponente. A própria palavra “gambito” já indica uma ação ou artimanha destinada a enganar uma pessoa, com o intuito de derrubá-la.
GRANDES NOMES NO XADREZ
● Masculino
Bobby Fischer (Estados Unidos/1943-2008), Garry Kasparov (Azerbaijão/1963), Alexander Alekhine (Rússia/1892-1946), José Raul Capablanca (Cuba/1888-1942), Magnus Carlsen (Noruega/1990), Anatoly Karpov (Rússia/1951), Viswanathan Anand (Índia/1969), Vladimir Kramnik (Rússia/1975), Mikhail Botvinnik (Rússia/1911-1995) e Emanuel Lasker (Polônia/1868-1941)
● Feminino
Judit Polgár (Hungria/1976), Vera Menchik (Reino Unido/1906-1944), Maia Chiburdanidze (Geórgia/1961), Hou Yifan (China/1994), Nona Gaprindashvili (Geórgia/1941), Mariya Muzychuk (Ucrânia/1992), Olga Rubtsova (Rússia/1909-1994), Antoaneta Stefanova (Bulgária/1979), Lyudmila Rudenko (Ucrânia/1904-1986) e Ju Wenjun (China/1991).


