Passeio em santuário de elefantes em Chiang Mai, no norte da Tailândia
Passeio em santuário de elefantes em Chiang Mai, no norte da Tailândia | Foto: Arquivo Pessoal



Largar tudo e fazer um mochilão é para os fortes como Isaque Mattos Barbosa, 29, que percorreu sozinho oito países asiáticos em uma viagem de um ano e meio. Nesse tempo, trabalhou como call center na Índia, fez dois trabalhos voluntários e três retiros em países diferentes, experiências que vieram na bagagem de quem se considera um aventureiro nato.

E como bom aventureiro, encontrou muito desafio no caminho. A começar pela chegada na Índia, sem hospedagem garantida pela instituição que vendeu a viagem, ficou morando durante duas semanas na casa de um dos colaboradores da agência local e ainda passou por intoxicação alimentar. "Fiquei malzão, mas é normal, o organismo não estava acostumado com os temperos e formas de preparo de lá", afirma.

Depois veio o emprego. "Esse trabalho em si já foi o maior perrengue. Logo no treinamento eu tive que respirar fundo, já vi que ia ser difícil. Lá não obedecem as leis trabalhistas, a situação é bem caótica, não pagavam hora extra", recorda. E o contrato que era para ser de um ano, fechou em oito meses. Tempo suficiente para conhecer muita gente na república de estrangeiros que fundou por lá para depois se despedir rumo à verdadeira experiência que buscava.

Em Jodhpur, a cidade azul do Rajastão, na Índia, usando roupa tradicional indiana
Em Jodhpur, a cidade azul do Rajastão, na Índia, usando roupa tradicional indiana | Foto: Arquivo Pessoal



DESAFIO

Esse espírito audacioso sempre esteve presente. Quando criança, ia de bicicleta com grupo de amigos até rios e cachoeiras de São José dos Campos (SP), cidade onde cresceu. Na adolescência, pegou gosto por trilhas, montanhismo e camping, hobbies que cultiva até hoje. Em 2013, na graduação, na UEL (Universidade Estadual de Londrina), participou de projeto em que ficou 15 dias no interior do Piauí desenvolvendo atividades que contribuíssem com os moradores locais. Toda essa expertise foi importante para chegar aos 27 sabendo lidar com situações desafiadoras.

"Como comecei morando na Índia, eu já estava calejado, já conhecia alguns golpes e tinha sagacidade para não cair mais", conta. No entanto, autoconfiança demais levou ao desapego com planejamentos. "Comprei passagem só de ida para a Indonésia, mas a imigração informou que eu precisava ter a de retorno, porque eu só podia ficar um mês lá. Então fui comprar a passagem, meu banco tinha bloqueado minha conta. Aquele dia pensei que ia ter que dormir no aeroporto", ri. Depois de muitas tentativas desesperadas em vários caixas eletrônicos, conseguiu fazer a transação direta pelo cartão. "Foi meu último perrengue lá".

Com a tribo das mulheres girafas, no Myanmar
Com a tribo das mulheres girafas, no Myanmar | Foto: Arquivo Pessoal



VIVÊNCIAS

Barbosa passou pela Índia, Nepal, Laos, Myanmar, Vietnã, Indonésia, Tailândia e Malásia em oito meses de autoconhecimento. Fez um retiro de 11 dias de silêncio na Índia; deu banho de lama em elefante; visitou Auroville, povoado de várias nacionalidades famoso por não ter religião, político, nem moeda; fez uma trilha nos Himalaias caminhando sete horas seguidas por oito dias; foi voluntário em hospital no Myanmar, uma das experiências mais relevantes. "Era um centro budista que tomava conta de pessoas sem moradia e sem esperança. Eu passei pomada em leproso, troquei fralda de uma mulher que estava bem mal", recorda, contando que o local tinha uma casa de cremação para os que não sobreviviam. Lá, também acompanhava os monges na arrecadação de comida.

A viagem foi por terra e por rio. "Viajei dois dias de barco da Tailândia até o meio de Laos", menciona. Também foi um dos que se dispôs a pular no rio Ganges. "Nenhum estrangeiro pula, tem nojo, mas quando fui fazer o passeio na canoa em Varanasi, na Índia, o guia falou que qualquer um que pulasse no rio se tornaria santo, era só o que eu estava precisando para pular", brinca.

Ilha de Java, Indonésia, com o vulcão Bromo atrás
Ilha de Java, Indonésia, com o vulcão Bromo atrás | Foto: Arquivo Pessoal



CARONA

Viveu intensamente como um bom aventureiro que se preze, mas se frustrou na tentativa de viajar de carona. "Eu fazia tudo de ônibus, trem, e os mochileiros tinham me dito que era sossegado pegar carona em Myanmar. Então eu achei um papelão na rua, pedi para a mulher do hostel escrever o nome da cidade que eu iria no dialeto deles, o pessoal do hostel não aprovou muito não, mas eu queria. Peguei um táxi até a estrada, fiquei lá durante uns 40 minutos esperando e nada. Tive que voltar a pé até a rodoviária", relembra.

As histórias renderam-lhe um blog, O Cosmopolita, dedicado a compartilhar suas experiências. Para ele, vale a pena enfrentar o risco para ter experiências como essas. "Você passa uns perrengues, mas depois fica mais forte, aprende, vive no pior cenário daquela situação", afirma. Viver intensamente e o encontro com si mesmo. "Eu estava buscando maturidade, grandes vivências, espiritualidade, uma alta dosagem de liberdade, isso tudo eu consegui", orgulha-se.

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