União acima das diferenças
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de outubro de 2018
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 
Amigos devem gostar das mesmas coisas? Ter os mesmos interesses e objetivos? Homem pode ser amigo de mulher e vice-versa? A adolescência é um período delicado, cheio de mudanças e conflitos familiares. Muitos jovens se sentem incompreendidos e quem melhor para nos ajudar nesse período do que nossos amigos?
Em Londrina, amigos que se conheceram ainda na adolescência, em um grupo de oração na década de 1980, mostram que não há limitações para que as pessoas criem afinidades e mantenham essa amizade ao longo dos anos, apesar das diferenças. No último final de semana alguns deles conseguiram se reunir para matar as saudades ao vivo, já que muitos dos seus integrantes residem em outros lugares.

"É a primeira vez que conseguimos fazer um encontro assim. Muitos de nós nos encontramos por aqui, mas para encontrar o pessoal que não mora mais aqui fica mais difícil. Como duas irmãs que fizeram parte do grupo viriam para Londrina, resolvemos nos encontrar. Aí um foi chamando o outro e o encontro vai acontecer", contou a farmacêutica Vanilze Simone Lamberti, nas vésperas da data.
Ela diz que entrou para o grupo com 11 anos, onde passou quase uma década, e nesse período conviveu com pessoas de diferentes idades, em uma saudável troca de experiências. "Fomos crescendo, cada um foi para um lado, mas a amizade ficou. Nos reuníamos não somente na igreja, mas para jogar bets, vôlei, tomar lanche, ir em festas", descreve.
Uma das visitantes que motivou o encontro, a professora e hoje dona de casa Cintya de Souza Pereira, conta que já era amiga de Lamberti na infância e que entraram juntas no grupo. "Ficamos até a faculdade. Só nos afastamos porque vieram relacionamentos e compromissos profissionais. Eu me casei e fui para São Paulo, minha irmã também se casou e foi para Castro. A Simone foi para o Mato Grosso, depois voltou para Londrina. Mesmo assim sempre mantivemos o contato pelo telefone. Naquele tempo as ligações eram caras, não era tão fácil, mas a amizade não se perdeu", garante.
dentro do grupo e em muitos casos nossos filhos também são amigos entre si"
Cleber José Vorussi, administrador, também fez parte do grupo e afirma que foi um dos primeiros integrantes. "Eu tinha uns 13, 14 anos. Mesmo o pessoal se mudando da cidade mantivemos o contato. Eu fui para Cuiabá, agora estou em Arapongas e sempre estivemos trocando experiências. Tem pessoas que já são avôs, estamos na terceira geração dentro do grupo e em muitos casos nossos filhos também são amigos entre si."
Para os amigos, o fato de terem passado juntos pela adolescência - um período de muitas mudanças e novidades - e terem valores em comum fez toda a diferença para que a amizade fosse além da distância e do tempo.
"Foi mais fácil passar por essa fase de transformação tendo bons amigos na adolescência, com ideais, objetivos e educação em comum. Os amigos falam, aconselham e essa sinceridade na amizade ajuda. Nem sempre os adolescentes ouvem os pais, mas tendo bons amigos fica tudo mais fácil", avalia Lamberti.
Pereira acredita que o fato das amizades mais antigas serem mais presenciais do que hoje fez a diferença. "A idade nunca foi um problema para nós. Hoje observo meus filhos e vejo que as amizades deles são pelas redes sociais e não criam raízes, são mais superficiais. Digo isso e eles dizem que não existe isso. Mas nós não tínhamos linha telefônica, o contato era mais forte. Nós não nos afastávamos dos nossos amigos quando eles tinham problemas, pelo contrário, nós ajudávamos. Na minha família mesmo, éramos muito humildes, tivemos problemas de desemprego e esses amigos levaram cestas básicas para nós."
Para ela, a diferença de pensamentos entre os amigos também era contornada pelo respeito ao outro. "Idade, sexo, raça, orientação sexual não eram questões importantes, não faziam diferença na nossa amizade. Ela era baseada em princípios verdadeiros, por isso criamos laços. Tivemos uma formação religiosa forte, mas não tem julgamento, tem a tolerância. As pessoas continuam nossas amigas", destaca.
O grupo foi importante, na opinião de Vorussi, para fortalecer a amizade entre os participantes e foi uma base para o relacionamento familiar que cada um desenvolveu depois. "Por mais que a gente fique longe, quando um precisa do outro existe essa troca, existe essa ajuda."


