Uma vida atrás do volante
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de março de 2018
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

Cinquenta e um anos de idade, sendo 36 deles dedicados à profissão de motorista, na maior parte do tempo atrás do volante de ônibus e caminhões. Erlete Aparecida Donda foi a primeira motorista a ser contratada pela Viação Garcia em Londrina e o pioneirismo vem de família. A mãe dela Aurora Alsouza Tarboni, já falecida - também era motorista de ônibus e caminhão e foi a primeira mulher a assumir o volante de um ônibus da extinta Viação Urbana Londrinense (VUL), criada em 1958.
"Aprendi a dirigir aos 15 anos e minha paixão veio da minha mãe. Desde que estava grávida de mim ela já trabalhava com isso. Nós inclusive viajamos juntas durante um tempo com o caminhão, trabalhávamos como autônomas. Durante cinco anos trabalhei também como instrutora de autoescola, ensinando motoristas de carros pequenos, depois voltei ao caminhão", conta.
Antes da empresa de ônibus ela trabalhou em uma transportadora, em que fazia viagens mais curtas, próximas à Londrina, de forma que pudesse voltar para casa no final do dia. Mãe de quatro filhos, todos já adultos, Donda contou com a presença da mãe para cuidar das crianças quando não podia estar em casa.
"Meus filhos estão todos crescidos e formados. São três homens e uma menina: um empresário, um DJ, um gastrônomo e a caçula é bombeiro civil e agora estuda para ser bombeiro militar", descreve, mostrando que as mulheres da família não se prendem a convenções quando se trata de escolher a carreira.
Há quatro anos na empresa, Donda hoje trabalha com ônibus rodoviário e também metropolitano, atendendo a linha Londrina - Cambé - Rolândia. A reação entre os passageiros é variada, mas geralmente bem vista, segundo ela.
"Tem gente que entra e fala 'nunca vi motorista mulher!'. Outros dizem que eu deixo os homens no chinelo. Nunca tive problemas, tem quem na hora de descer me elogie. Mas já ouvi um homem dizer, quando eu ainda dirigia caminhão, que estava roubando a vaga de um homem. Respondi que alguém igual a ele tinha me deixado com quatro filhos para criar", conta.
Donda diz que já foi assediada por passageiros, mas que leva "numa boa", mantendo distanciamento. "Meu trabalho é meu trabalho. Olho para o cliente e não vejo outra coisa. Eu dou respeito e peço respeito em troca. Uso calça masculina ajustada para mim, por achar mais confortável e também porque dessa forma me sinto mais protegida do assédio. E também uso uma camiseta por baixo da camisa do uniforme. Entrei num lugar onde só havia homens, no início nem tinha uniforme específico, depois que vieram as camisetes. Acredito que a pessoa que usa uma roupa mais chamativa acaba chamando mais atenção. Quando fui ser motorista era porque gostava mas também porque o salário era maior do que outras profissões."
Além do prazer de fazer o que gosta, ela diz que seu maior orgulho é ter a admiração dos filhos, que se orgulham de sua coragem e determinação. "São pessoas carinhosas e trabalhadoras."


