Um mergulho na cultura pernambucana
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

Confesso que nunca fui muito fã de Carnaval e preferia passar os dias de folga descansando em algum lugar tranquilo. Mas sempre me chamava a atenção a festa no Nordeste, não sei se pelo número de pessoas ou por ser uma cultura muito diferente da nossa aqui no Sul. Samba nós temos por aqui, já frevo... E foi com muita surpresa que neste ano fui escalada para atender ao convite recebido pelo Folha Mais para conhecer o Carnaval de Recife, Olinda e cidades próximas. Foram seis dias de muito trabalho, mas com muita diversão e novas descobertas.
Muitos podem associar Pernambuco aos seus paraísos litorâneos, alguns até pensam em conhecer os prédios históricos e museus, mas a maior riqueza que percebi foram as pessoas. Elas sabem explicar os diferentes nomes dos grupos de Carnaval, conhecem a origem e o porquê cada um se apresenta de uma maneira. As crianças desde cedo são levadas por seus pais, mantendo a tradição. E não são só os músicos famosos que chamam a atenção. Apresentações de boi, la ursa, maracatus e outras manifestações culturais reúnem grande número de pessoas.
A festa de Carnaval em si é algo muito diferente para nós, principalmente por ser muito familiar. É comum vermos pessoas de todas as idades nas ruas, dos bebês de poucos dias (sim, sem exageros) até senhores e senhoras de muitas décadas de vida. Todos brincam lado a lado, curtem os shows e os espetáculos culturais ofertados e feitos pelos moradores. O entusiasmo é fantástico, as fantasias são muito comuns e não precisam ser grandiosas. Uma tiara, um pouco de glitter ou um chapéu diferente já são suficientes para fazer qualquer um entrar no clima.
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A festa no Recife é dividida em 43 polos, ou seja, pontos de Carnaval com atrações variadas. Elas estão espalhadas por toda a cidade e o objetivo é fazer com que os moradores tenham boas atrações perto de casa, sem precisarem se locomover muito. Os shows também impressionam, indo de artistas locais a grandes nomes, de Skank a Elba Ramalho, passando por Nação Zumbi cujo berço é a Várzea, um bairro de Recife que ficou simplesmente abarrotado de pessoas de todas as classes sociais para acompanhar a apresentação na segunda-feira de Carnaval. E tem para todos os gostos: samba, frevo, forró.

Grande parte desses polos fica no Recife Antigo, região do Marco Zero, onde fica o palco principal. Entre as ruas estreitas de paralelepípedo, cercadas por prédios centenários, se apresentam os artistas. O mais curioso é que uma hora estamos ouvindo samba e ao virar a rua vem o forró, um pouco mais adiante um frevo. No meio da rua passam caboclos de lança com suas vestes coloridas e caboclinhos com trajes que lembram índios, seguidos de senhoras com vestidos semelhantes aos usados nas cortes e que fazem parte dos blocos carnavalescos líricos. Funk mesmo só lembro de ouvir uma vez, saindo de uma caixinha de som na calçada.
A quantidade de pessoas nas ruas também é algo que impressiona. O tradicional Galo da Madrugada reuniu cerca de dois milhões de pessoas e andar entre toda essa gente exige uma técnica apurada: ao mesmo tempo que é preciso olhar para o companheiro que segue abrindo caminho só é possível andar em fila indiana -, tem que estar atento para onde pisa, tentando desviar das outras pessoas que pulam ao ritmo da música.
Confesso que tive relativo sucesso e achava que já sabia como fazer, mas o ato de participar do cortejo dos Bonecos de Olinda me mostrou que ainda tenho muito a aprender! Lá, além de tudo isso, ainda é preciso desviar das mãos dos bonecos que quando giram podem nos acertar exatamente a cabeça, conforme a altura do humano que se intromete no meio do desfile.
No final sobram muitas risadas, roupas encharcadas de suor nosso e dos outros -, e lembranças que irão durar para sempre. O pensamento de "nunca mais me enfio no meio de tanta gente", mesclado com "até que foi divertido", talvez explique o motivo de tantas pessoas estarem ali, todos os anos, a cada novo Carnaval. "Essa cidade vai tremer; A galera vai suar", diz o refrão da música "Arrea a Lenha", de Almir Rouche, artista pernambucano. Ouça e tente ficar parado na multidão!
A jornalista viajou a convite da Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco e da Prefeitura Municipal de Recife


