"A decisão de sair do Brasil não teve nada além de uma curiosidade minha e do meu marido. Não foi fugindo da violência, foi só que a gente sempre teve curiosidade de ter experiência fora do Brasil e essa oportunidade veio um pouco tarde, quando a gente tinha 46 anos", conta Joice Montefeltro, 53. Ela e o marido, Luis Carlos Jorge, venderam tudo que tinham - casa, mobília, carro - deixaram os empregos e foram, primeiramente, para a Itália. "Nós cogitamos Portugal, mas foi mais por decisão minha, eu disse: 'nós vamos mudar de país, vamos mudar nossa vida para falar português?' Eu queria aprender uma língua nova e por isso fomos para a Itália", recorda.

O casal Joice Montefeltro e Luis Carlos Jorge é dono de um bistrô na capital portuguesa: arte, comida e bebida na mistura Brasil, Itália e Portugal
O casal Joice Montefeltro e Luis Carlos Jorge é dono de um bistrô na capital portuguesa: arte, comida e bebida na mistura Brasil, Itália e Portugal | Foto: Arquivo pessoal



Com nacionalidade italiana, os dois foram para a Europa há sete anos com o propósito de não continuarem a atividade que faziam aqui no Brasil: nem jornalista, nem cabeleireiro. Luís fez alguns cursos de arte, mas as coisas estavam complicadas na Itália. "Estava muito difícil, a zona do euro estava em uma crise imensa, lá a gente não conseguia trabalho fixo, tudo era muito precário, nada era seguro e a gente precisava trabalhar, então decidimos abrir um negócio", conta.

Empreender era uma proposta que não dava certo em qualquer lugar, foi assim que encontraram Portugal como uma boa alternativa. "A gente conseguiu ter a oportunidade de abrir o negócio próprio, eles deram algumas vantagens. Naquela época, em 2013, tínhamos licenciamento zero, poderíamos abrir o negócio sem burocracia, coisa de 10 minutos, e com um ano de isenção de taxa, sem qualquer imposto incidindo sobre teu negócio", lembra. Atualmente eles possuem um bistrot que leva arte, comida e bebida na mistura Brasil, Itália e Portugal. O local escolhido hoje possui grande movimento de turistas. "Tivemos a sorte de pegar o aluguel ao lado de um dos miradouros mais frequentados de Lisboa, o que deu visibilidade para o nosso negócio", afirma.

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SEM TERRORISMO
Montefeltro explica que a região de Lisboa e Porto teve um aumento exponencial de turismo internacional nos últimos três anos, o que ela atribui ao clima, preços, segurança, receptividade e simpatia dos portugueses. "Quando falamos em segurança, significa que é um país onde não acontecem ações de terrorismo, como já aconteceu em outros países turísticos da Europa e Norte da África", indica. Outra questão observada é que a economia portuguesa está crescendo de maneira lenta e equilibrada. "E tudo isso conjugado com a beleza das cidades, da natureza, das praias e da história que se encontra em toda parte do país."

O casal havia visitado o local em 2010, mas ela afirma que muita coisa mudou depois. Hoje é possível perceber a adequação de ruas e avenidas, além de toda a infraestrutura para atender o turismo, desenvolvimento que também fez com que moradores deixassem os lugares tradicionais para viverem fora das grandes cidades. "Bairros como Alfama, conhecido por ser o berço do fado, hoje já não tem mais tantos portugueses residindo por lá", afirma.

ESTRANGEIROS
Montefeltro explica que desde que saíram do Brasil sempre passaram por situações desagradáveis, ainda que vivendo legalmente. "Você é sempre um estrangeiro na terra dos outros e quem vai para o Brasil viver, deve sentir o mesmo", afirma.

Se há preconceito de um lado, do outro não é diferente. A imagem que brasileiros têm sobre portugueses parece não ter evoluído muito. "Já passamos situações constrangedoras proporcionadas por turistas brasileiros com comentários preconceituosos, fazendo piadas até mesmo do sotaque português", aponta.

Apesar dessa relação, a jornalista acredita que Portugal seja um país de braços abertos para todas as culturas. "Têm muitas pessoas de ex-colônias vivendo com seus costumes e hábitos respeitados por aqui. Andam com suas roupas, praticam suas religiões, promovem suas festas e, para quem gosta de experimentar sabores e culturas diversos, é um prato cheio", defende.

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