O que é ser caipira? A resposta muda de acordo com os processos sociais. Antes, termo pejorativo para designar pessoas que não tinham os costumes da elite da cidade, hoje, o caipira representa também uma identidade sustentada com orgulho. Imagem transformada a partir da defesa de artistas que apostaram nessa temática em suas obras também apresenta uma idealização da figura do caipira.

“Pelo ponto de vista histórico, o caipira é aquele que não está adaptado às regras do mundo urbano. Porque, no século 18 e 19, o termo era utilizado para designar pessoas que moravam no campo ou em vilas e cidades que não conheciam os modos considerados corretos de comportamento”, explica Moacir José dos Santos, professor de estética e história da arte, da Unitau (Universidade de Taubaté). Mas isso muda ao longo do tempo, quando recentemente o termo é apropriado com orgulho como uma marca de identidade.

Santos explica que historicamente, a figura do caipira aparece em registros no século 17 e 18, como um adjetivo colocado por outras pessoas. Camponeses e caboclos, resultantes da mescla indígena e colonizadores, foram os primeiros a receber o título a partir do olhar pejorativo da elite econômica e cultural. “O isolamento do ambiente urbano junto a absorção de costumes indígenas vão singularizar essa cultura observada nos hábitos alimentares, gestos, crenças, disseminados em território que passa por São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais, sul do Rio de Janeiro e até mesmo Santa Cataria e Mato Grosso”, explica.

IMAGEM

Até o início do século 20, havia a estigmatização do caipira, mas o pensamento começa a mudar com a introdução dessa figura nas expressões artísticas. “O que se faz na pintura de Almeida Junior, no século 19, ou com o próprio Monteiro Lobato e outros escritores que tematizam o ambiente rural, depois com Mazzaropi no cinema, é capturar esse conjunto de características e defini-los em personagens”, afirma Santos. Foi assim com muitos ícones, como Chico Bento, na Turma da Mônica, ou Nerso da Capitinga, da Escolinha do Professor Raimundo.

Características presentes nessa imagem do caipira e que seguem, pelo menos, cinco pontos básicos definidos pelo professor, como: capacidade de produzir seus próprios meios de subsistência; profunda religiosidade; apreço à vida comunitária e forte sentimento de autonomia e independência; jeito próprio de falar demonstrando distanciamento do ambiente escolarizado; e forte contribuição da cultura indígena, presente no falar, na alimentação e no conhecimento do território.

CAIPIRA MODERNO

Ao mesmo tempo, ele ressalta que se trata de uma idealização, visão romantizada, já que esse modo de vida representado foi muito presente até o início do século 20. “Hoje vivemos em uma sociedade profundamente urbanizada, em que hábitos urbanos também estão presentes no campo, chamada de urbanização extensiva”, afirma.

Até porque os modos de produção atuais não acompanham o modelo antigo e isso influencia diretamente na forma como o homem lida com o campo suas tradições. “Por exemplo, a Folia de Reis correspondia ao período extenso de várias semanas de celebração do nascimento de Cristo. Porém, hoje, o homem no campo não pode se afastar durante semanas do trabalho para praticar as atividades”, comenta.

A imagem também convive com outra forma de representação, o caipira norte-americano importado pelo Brasil. “Quando se fala de caipira, uma parte lembra desse mundo da música de raiz, outros possuem essa referência do country, rodeio, da forma de se vestir, da música, dos hábitos que remetem ao mundo rural norte-americano. Então, a gente vê essas visões convivendo”, menciona.

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