#TRADWIVES - Esposas tradicionais no topo das discussões na internet


Vitor Ogawa - Grupo Folha
Vitor Ogawa - Grupo Folha

A fundadora da plataforma online The Darling Academy, Alena Kate Pettitt, defende e promove um estilo de vida das mulheres baseado no papel da esposa que cuida da casa e mima o marido como se fosse 1959. Esse estilo de vida gerou o popular tópico nas redes sociais #tradwives, que é um neologismo formado pela abreviação das palavras em inglês para “esposas tradicionais”. É como se as mulheres desejassem o estilo de vida de Stepford, cidade fictícia retratada em dois filmes chamados Stepford Wives, ou “Mulheres Perfeitas” no Brasil (1975 e 2004), em que as mulheres são extremamente passivas, belas e ocupadas apenas com afazeres domésticos.


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Embora haja o conceito de sororidade, que implica em parar de sustentar ideias que incitam a rivalidade do gênero feminino e faz as mulheres aprenderem a lidar com as diferenças e entender que nem todas pensam e agem como elas, a socióloga Silvana Aparecida Mariano, professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina) acredita que há o risco de dizer que todas as mulheres tem essa escolha, o que não é real. “Ainda que algumas escolhas sejam conservadoras e tradicionais, elas são válidas politicamente desde que não comprometam a autonomia das mulheres”. “É preciso ver se isso é um movimento social ou se é uma tendência. Isso ainda não está claro. Mas ainda que algumas mulheres optem pelo papel de dona de casa, podemos observar quais são as mulheres que têm essa escolha. Li coisas sobre esse movimento, que está mais presente nos EUA, Inglaterra e Alemanha, que são países que possuem outra condição social. Esse recorte deve ser feito, já que esse países reúnem condições necessárias para que as escolhas sejam possíveis de serem feitas. Caracteriza-se especialmente por mulheres brancas." 



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Ela acredita que haja a adesão a esse movimento no Brasil, mas aponta que os percentuais devem ser muito menores que no exterior. “Pensamos isso diante da diversidade e situações que temos aqui e se levarmos em consideração a classe social e de raça do Brasil, temos mulheres negras e temos mulheres pobres e muitas vezes as duas se entrecruzam. Para muitas delas essa escolha não existe, pois em uma sociedade como a brasileira a pobreza é muito extensiva”, declara. “Eu participo de grupos em que pessoas relatam episódios em que adolescente são incapazes de recolher as cuecas no varal. A sociedade é marcada pela experiência de escravidão. Isso reflete no número de mulheres negras que estão no trabalho doméstico,  que cuidam de suas louças e limpam seus banheiros. Isso é um tipo de servidão”, completa Mariano.

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De acordo com Mariano, não é a ideologia que determina que tipo de tarefa cada gênero está apto a desenvolver. “Isso envolve mudanças nas dinâmicas familiares. Tanto homens como mulheres deveriam ser educados para o autocuidado e cuidar do outro, mas há uma demonização e até tentativas de criminalizar os debates sobre as relações sociais de gênero na educação. Como ensinar meninos e homens a respeitar as mulheres, a cuidar de si próprios, de seus próprios filhos, a cuidar de grupos familiares que sejam dependentes em algum momento da vida sem falar de papéis e relações e atribuições sociais e sem falar de gênero?” 


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Ela explica que na sociedade patriarcal as pessoas são levadas a crer que é natural que o trabalho doméstico seja exercido pelas mulheres. “É impossível fazer essa desnaturalização sem invocar o debate de gênero, além de discutir que tipo de políticas públicas e direitos existentes para atender a necessidade de cuidados da família. A cobertura de creches no Brasil está abaixo de 30% e a disponibilização da educação integral ainda está baixíssima. Essas crianças ficam sob cuidados da mulher, assim como a elas é atribuído o serviço de cuidados de idosos, pessoas com deficiência e de pessoas doentes”, critica.



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Segundo ela, é o gênero que está provocando isso, e não a biologia. “Na obra de Simone de Beauvoir temos a emergência das ideias precursoras daquilo que chamamos de construcionismo social”, aponta. Segundo Beauvoir, tanto o feminino como o masculino não possuem destino biológico, psíquico, econômico, mas sim, o conjunto da civilização que os elabora. “Mas tem uma mudança de teoria de Beauvoir para cá, que é a inclusão da dimensão de sexualidade e de desejo, ou seja, não somos totalmente independentes da biologia. Mas quando tentam desconstruir discussões de gênero usam isso de má fé, com o significado errado. Fica complicado dizer que os desejos nos indivíduos são construídos socialmente e biologicamente e não são somente definidos pela norma social ”, enaltece.


MULHER INDEPENDENTE E AUTÔNOMA


Na obra da psicóloga ativista feminista Betty Friedan, ela aborda o papel da mulher na indústria e na função de dona-de-casa e suas implicações tanto para a sobrevivência do capitalismo quanto para a situação de desespero e depressão que grande parte das mulheres submetidas a esse regime sofriam. “Ela trata desse período entre 1920 e 1930, em que a imprensa e a literatura produziam uma imagem de uma nova mulher muito independente, autônoma."

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É nesse período que surge, por exemplo, a figura de Betty Boop, desenho de uma dançarina de cabaré que era independente, solteira e auto-suficiente. Logo depois, durante a Segunda Guerra Mundial, mulheres foram convocadas para trabalhar em estaleiros e fábricas, produzindo armas, munições e suprimentos, substituindo os homens que haviam partido para a guerra. Foi nessa época que J. Howard Miller criou um cartaz conhecido como Rosie, a rebitadeira, que se tornou um símbolo do feminismo. Também foi o período em que surgiu a personagem Mulher Maravilha, das histórias em quadrinhos.


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Mas quando a guerra acabou aconteceu o retorno dos homens do campo de batalha e a mídia voltou a reproduzir o modelo das mulheres donas de casa. “Os panfletos que eram mais propagandeados retratavam mulheres em casas do subúrbio, com cozinhas espaçosas e mulheres dedicadas à casa. Isso gerou um mal estar naquele período de crise de identidade, embora naquela época não se usasse essa expressão”, conta Mariano.

Friedan destacou que a privação do acesso ao trabalho fora de casa após a Segunda Grande Guerra provocou problemas de depressão e a sensação de contínua insatisfação com a vida. Houve um movimento contrário que incentivou as mulheres a buscarem sua independência financeira e a conquista de um emprego. “Parte das pessoas que se alinham ao pós-feminismo acusa as feministas de terem produzido essa situação da dupla de jornada de trabalho. Quando o novo feminismo emergiu com a condição de aumentar participação no mercado de trabalho era encarado como um meio de ganhar maior independência, mas sempre se soube que a autonomia econômica não era suficiente."  Mariano considera que o movimento tradwives seria como se fosse uma dobra histórica. “Esse resgate da boa dona de casa é uma representação anterior a este período de 1920 e 1930. É como se voltássemos um século”.

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