Neste 20 de agosto, a equipe completa seu primeiro aniversário:  “A gente não vem só jogar bola, virou amizade,  foi além do futebol
Neste 20 de agosto, a equipe completa seu primeiro aniversário: “A gente não vem só jogar bola, virou amizade, foi além do futebol | Foto: Lais Taine

Sentadas em volta de uma mesa, o clima é de descontração. Um grupo de mulheres aguarda a liberação da quadra para que elas possam ocupar o espaço e, finalmente, jogar o futebolzinho de sexta-feira. Entusiasmadas com o compromisso, contam como foi fácil encontrar mulheres interessadas em praticar o esporte, difícil mesmo foi encontrar um local adequado.

“Uma amiga e eu viemos do interior de São Paulo e a gente comentava sobre os jogos da infância. Morando em Londrina, decidimos montar um time, então eu divulguei o interesse no Facebook, marquei algumas amigas e elas foram convidando outras. Para formar o grupo foi rápido”, menciona Arielle Dias, 41. No dia 20 de agosto de 2018 criaram o grupo no Whatsapp para agendar o primeiro jogo. “Vai fazer um ano e muitas estão aqui desde o primeiro dia”, comenta.

A psicóloga comenta que o difícil não foi formar o grupo, mas encontrar um espaço. “Alguns são muito caros, então eu comecei a procurar escolas que tinham quadras cobertas, apenas uma cedeu e, mesmo assim, depois de determinado momento, fomos orientadas de que não podíamos mais jogar lá. Uma pena, porque essa integração da escola com a comunidade seria muito importante”, defende após mencionar que as poucas escolas estaduais que permitem o uso do espaço estão com os horários lotados e que não encontraram oportunidades nas municipais.

Após uma saga, conseguiram um local na zona leste da cidade, ponto de encontro das 25 mulheres que disputam uma vaga para brincar. “Toda sexta dá jogo”, menciona Fernanda Pardini, 25, uma das integrantes. A artista visual tem diabetes e cuidar da saúde foi fundamental para buscar um esporte, mas outro ponto foi primordial para mantê-la nele: a conexão com outras pessoas.

Arielle Dias organizou o grupo junto com algumas amigas por meio do Facebook
Arielle Dias organizou o grupo junto com algumas amigas por meio do Facebook | Foto: Lais Taine

“Depois daqui, a gente sai para algum canto para repôr as energias”, brinca. “A gente não vem só jogar bola, virou amizade, até festa junina do grupo nós já fizemos, foi além do futebol. Quando uma deixa de vir perguntamos o motivo, sentimos falta”, acrescenta.

OBSTÁCULOS SOCIAIS

Embora não exista uma regra para a formação do grupo, apenas mulheres participam. “Não foi uma imposição, mas foi assim”, resume Dias. Algumas afirmam se sentirem mais à vontade no esporte pelo ambiente mais acolhedor, mas comentam que ainda passam por situações inesperadas quando se trata de uma mulher jogando futebol. “Fui comprar uma bermuda na loja e o vendedor perguntou se era para meu namorado”, comenta uma das integrantes. “É difícil encontrar uma chuteira número 35 também, tem que comprar infantil”, acrescenta outra.

Elas compreendem que é uma questão de cultura e que é um processo em desenvolvimento. “Essa coisa da mulher em esportes coletivos, na escola sempre foi muito vinculada ao vôlei ou handebol e tínhamos o futebol como um espaço masculino. A legislação que permitiu o futebol feminino no Brasil é muito recente e isso tem um efeito histórico”, comenta Ruth Piveta, 31, uma das jogadoras.

Para ela, a Copa do Mundo de Futebol Feminino contribuiu para a disseminação do esporte. “Hoje as pessoas acham curioso, mas não há preconceito”, acredita. Mesmo assim, ainda prefere jogar em um grupo feminino. “Se fosse de homens eu nem viria, me sinto mais à vontade no grupo com mulheres. Acho que tem essa coisa de conexão de grupo, rede afetiva e de apoios, isso é interessante. Eu já pratiquei outros esportes e alguns espaços são hostis quando você vai com uma amiga, pode ser um momento de interação e conversa em um mundo individualizado”, afirma.

Por isso acredita que grupos espontâneos têm essa característica de trazer, além de saúde física e mental, a possibilidade de trocar experiências e encontrar na turma uma rede que fornece coragem. “O legal do time é isso: conexões não esperadas, reunir mulheres de grupos sociais diferentes, mas que se conectam nesse tipo de atividade”, conclui.

Fernanda Pardini tem diabetes e cuidar da saúde foi fundamental para buscar um esporte
Fernanda Pardini tem diabetes e cuidar da saúde foi fundamental para buscar um esporte | Foto: Lais Taine
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