'Tem franguinho na panela'
Família transforma rotina da cozinha do campo em restaurante
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de agosto de 2019
Família transforma rotina da cozinha do campo em restaurante
Laís Taine - Grupo Folha 

Como todo processo natural, a comida caipira é lenta. O frango solta o vapor da panela enquanto o molho de tomate fresco aguarda a massa artesanal, tudo no fogão a lenha e com tempero de vó. Do colher ao servir, a rotina do campo é compartilhada em restaurante que vê no universo caipira uma forma de vida em conexão com a natureza.
No espaço onde o pai plantou e colheu, há um salão que abrigou bailes da região por muito tempo. Em volta dele agora há casas espalhadas onde os três filhos escolheram viver com suas famílias. Hortas, frutas, bosque, galinhas circundam o o restaurante. “Meu pai veio para cá com 7 anos e não tinha nada aqui, tanto que meu avô tinha intenção de abrir um comércio, por isso a casa deles foi construída na beira da estrada. Essa casa está aqui até hoje”, conta Célia Terciotti Magro, 55, filha de João Gercy, 82, e Sebastiana Terciotti, 76, a Vó Tatau, nome dado ao restaurante fundado pela família em 2004.
Aquela casa, na verdade, foi utilizada para abrigar os maquinários de beneficiamento de arroz e café, mas com as dificuldades climáticas, trabalhar com a agricultura foi ficando difícil. Vó Tatau abriu uma sorveteria e depois ergueu um salão no terreno da família. “Era para fazer bailes de festa, antigamente se fazia muito baile por aqui”, recorda Célia.
A família cresceu unida em volta deste espaço. Célia fala dos almoços de domingo com tios, primos e amigos com a agitação e rotina de campo. “Cresci nesse espaço, nós todos moramos aqui: eu, meu irmão (Wellington), minha irmã (Márcia) e meus pais. Está cheio de casinhas aqui em volta”, comenta Célia, que tentou viver um tempo na cidade, mas decidiu voltar para respirar ar puro.
RESTAURANTE
A ideia do restaurante só veio depois, quando Célia e a irmã buscaram voltar ao mercado de trabalho após bom tempo de dedicação aos filhos. “A gente fez curso, porque a gente sabia cozinhar, mas de restaurante a gente não entendia muito”, recorda. E exigiu dedicação. “A gente não tinha dinheiro para investir, meu pai e meu irmão fizeram as mesas e bancos do salão. Eu, minha irmã e minha mãe pintamos as paredes. E os primeiros materiais eram nossos, trouxemos as panelas, conchas, vasilhas de casa para poder começar”, relembra.
O primeiro domingo que o restaurante abriu foi um serviço exclusivo aos familiares. “Nossa ideia era fazer a nossa própria comida, a que a gente comia mesmo, como um frango caipira, porco no tacho, torresmo e depois fomos acrescentando outros pratos”, afirma. Grande parte da família trabalha no restaurante, até a banda convidada é formada pelos tios e a equipe de garçom é formada por sobrinhos e primos.
E se os filhos levam adiante a tradição da família, a mãe fica orgulhosa. “Eu me sinto realizada. Aprendi tudo com a minha mãe e minha avó, aqueles costumes de fazenda, de manter o forno a lenha... Parece um sonho, fico até emocionada”, comenta Tatau, a matriarca responsável pela configuração do restaurante e da família.
COSTUMES
O rural está não só na comida, mas também nos costumes. “A gente continua com a rotina de campo, a mandioca que usamos aqui no restaurante foi nós que plantamos”, menciona Célia. O restaurante só abre aos domingos, mas o trabalho dura a semana toda. “A comida caipira é mais demorada. Quem faz doce caseiro em casa hoje? Massas, quem faz? Compra tudo no mercado. Então, aqui a gente mantém muita coisa para poder preservar, servir a comida caipira autêntica”, menciona Célia.
Para ela, a comida caipira exige mais que trabalhar com panelas. “Engloba tudo: acolhimento, simplicidade no jeito de ser, no fazer, no sabor da comida com temperos caseiros, naturais mesmo, como banha, cheiro verde, alho, etc”, revela. E o resultado chega à memória. “Eu já vi cliente provando a comida e se emocionando por se lembrar do passado, da mãe ou de alguém da família”, acrescenta.


