Sebastiana Terciotti e João Gercy entre as filhas Marcia e Célia: sossego e empreendedorismo no campo
Sebastiana Terciotti e João Gercy entre as filhas Marcia e Célia: sossego e empreendedorismo no campo | Foto: Fábio Alcover/10-12-2016

Como todo processo natural, a comida caipira é lenta. O frango solta o vapor da panela enquanto o molho de tomate fresco aguarda a massa artesanal, tudo no fogão a lenha e com tempero de vó. Do colher ao servir, a rotina do campo é compartilhada em restaurante que vê no universo caipira uma forma de vida em conexão com a natureza.

No espaço onde o pai plantou e colheu, há um salão que abrigou bailes da região por muito tempo. Em volta dele agora há casas espalhadas onde os três filhos escolheram viver com suas famílias. Hortas, frutas, bosque, galinhas circundam o o restaurante. “Meu pai veio para cá com 7 anos e não tinha nada aqui, tanto que meu avô tinha intenção de abrir um comércio, por isso a casa deles foi construída na beira da estrada. Essa casa está aqui até hoje”, conta Célia Terciotti Magro, 55, filha de João Gercy, 82, e Sebastiana Terciotti, 76, a Vó Tatau, nome dado ao restaurante fundado pela família em 2004.

Aquela casa, na verdade, foi utilizada para abrigar os maquinários de beneficiamento de arroz e café, mas com as dificuldades climáticas, trabalhar com a agricultura foi ficando difícil. Vó Tatau abriu uma sorveteria e depois ergueu um salão no terreno da família. “Era para fazer bailes de festa, antigamente se fazia muito baile por aqui”, recorda Célia.

A família cresceu unida em volta deste espaço. Célia fala dos almoços de domingo com tios, primos e amigos com a agitação e rotina de campo. “Cresci nesse espaço, nós todos moramos aqui: eu, meu irmão (Wellington), minha irmã (Márcia) e meus pais. Está cheio de casinhas aqui em volta”, comenta Célia, que tentou viver um tempo na cidade, mas decidiu voltar para respirar ar puro.

RESTAURANTE

A ideia do restaurante só veio depois, quando Célia e a irmã buscaram voltar ao mercado de trabalho após bom tempo de dedicação aos filhos. “A gente fez curso, porque a gente sabia cozinhar, mas de restaurante a gente não entendia muito”, recorda. E exigiu dedicação. “A gente não tinha dinheiro para investir, meu pai e meu irmão fizeram as mesas e bancos do salão. Eu, minha irmã e minha mãe pintamos as paredes. E os primeiros materiais eram nossos, trouxemos as panelas, conchas, vasilhas de casa para poder começar”, relembra.

O primeiro domingo que o restaurante abriu foi um serviço exclusivo aos familiares. “Nossa ideia era fazer a nossa própria comida, a que a gente comia mesmo, como um frango caipira, porco no tacho, torresmo e depois fomos acrescentando outros pratos”, afirma. Grande parte da família trabalha no restaurante, até a banda convidada é formada pelos tios e a equipe de garçom é formada por sobrinhos e primos.

E se os filhos levam adiante a tradição da família, a mãe fica orgulhosa. “Eu me sinto realizada. Aprendi tudo com a minha mãe e minha avó, aqueles costumes de fazenda, de manter o forno a lenha... Parece um sonho, fico até emocionada”, comenta Tatau, a matriarca responsável pela configuração do restaurante e da família.

COSTUMES

O rural está não só na comida, mas também nos costumes. “A gente continua com a rotina de campo, a mandioca que usamos aqui no restaurante foi nós que plantamos”, menciona Célia. O restaurante só abre aos domingos, mas o trabalho dura a semana toda. “A comida caipira é mais demorada. Quem faz doce caseiro em casa hoje? Massas, quem faz? Compra tudo no mercado. Então, aqui a gente mantém muita coisa para poder preservar, servir a comida caipira autêntica”, menciona Célia.

Para ela, a comida caipira exige mais que trabalhar com panelas. “Engloba tudo: acolhimento, simplicidade no jeito de ser, no fazer, no sabor da comida com temperos caseiros, naturais mesmo, como banha, cheiro verde, alho, etc”, revela. E o resultado chega à memória. “Eu já vi cliente provando a comida e se emocionando por se lembrar do passado, da mãe ou de alguém da família”, acrescenta.

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