No filme "A Lista de Schindler", de 1993, composta por John Williams, foi escolhido um violino solo para o tema principal
No filme "A Lista de Schindler", de 1993, composta por John Williams, foi escolhido um violino solo para o tema principal | Foto: Divulgação



Muito da emoção que sentimos ao assistir a um filme vem da música. Com quase 20 anos de experiência em compor trilhas sonoras originais, não só para cinema e televisão como para a seleção brasileira de ginástica rítmica, o músico Otávio Santos explica que a música feita para emocionar na verdade precisa de muita racionalidade para ser composta.

E no quesito emoção, imagem e música dividem o potencial para ganhar o espectador. O músico explica que o processo de criação de uma trilha sonora começa com o diretor dizendo o que deseja naquela cena, se ela deve ser triste ou feliz. A partir daí o compositor vai usar seus recursos musicais para conseguir passar a sensação que ele pediu.

"Isso é uma coisa que não é nova. Historicamente, no período barroco se estudava uma questão que se chama de teoria dos afetos. Eles sabiam que a música tinha um impacto nos sentimentos e eles até chegaram em um extremo, que nem sabemos se é assim de fato, de atribuir a cada nota, a cada intervalo musical uma sensação diferente. Por exemplo, se você toca a nota Dó e depois a Ré, você causa uma sensação de estranheza. Se você toca Dó e depois Mi, você causa alegria. Eles fizeram uma espécie de tabela onde colocavam todas as emoções possíveis de serem atingidas com a música. Apesar dessa teoria dos afetos muita gente achar que seja exagerada, existem marcas que a gente usa até hoje como técnica para conseguir a eficácia que a gente quer. Um acorde maior tende a soar feliz e o acorde menor tende a soar triste. Se o diretor diz que quer uma música bem triste o compositor já tende a pensar em um tom menor. Isso se torna meio impregnado em nossa cultura. Se eu chegar para você e tocar só uma sequência de acordes e questionar qual a mais feliz, provavelmente você vai dizer que a que eu uso o acorde maior é mais feliz. Isso está em jingles, trilhas sonoras, as pessoas já associaram isso. É uma construção social", explica.

Santos diz que temos alguns padrões que nos estimulam para emoções tristes ou alegres e os compositores sabem disso. "Da mesma forma que a imagem pode usar dos neurônios espelho para criar sensações determinadas, tentamos fazer a música de uma maneira que controlamos dramaticamente a sensação de quem está assistindo. A música que parece tão emotiva é construída de uma maneira bem racional. O compositor pensa bastante, acorde por acorde, nota por nota o que vai causar a sensação 'X' na pessoa. Essa previsão é baseada em experiências que o compositor tem e que está assimilada em nós. O primeiro teste se funciona ou não sou eu mesmo. Quando eu faço uma cena eu acho bonito e aquilo me toca, provavelmente vai tocar as outras pessoas porque temos a mesma construção social em termos do que emociona ou não."

Cena de "Cinema Paradiso", de 1988: feito para chorar de emoção
Cena de "Cinema Paradiso", de 1988: feito para chorar de emoção | Foto: Divulgação



MUITO ALÉM
E existem fatores que nem imaginamos que possam ser usados para emocionar quem assiste. Desde o tipo de instrumento selecionado até a forma como a música é interpretada. Como exemplo, Santos cita o filme "A Lista de Schindler", de 1993, composta por John Williams, onde foi escolhido um violino solo para o tema principal. "O violino por si é um instrumento bastante expressivo e o que torna essa melodia triste é o uso desses intervalos, da teoria dos afetos. O compositor pega uma tonalidade menor, faz uma melodia bastante triste, parece que o próprio violino chora do jeito que o intérprete toca as notas arrastadas. E por que um violino solo? Porque o filme trata da luta de um só homem para salvar uma série de pessoas. Esse violino sozinho também está representando isso. A trilha sonora é muito mais do que a música final que sai dela", destaca.

Um dos autores da trilha sonora do filme premiado Boi Neon, Santos explica que em média são necessários dois meses para finalizar a trilha de um longa-metragem, sendo que grande parte do tempo é dedicado a acertar detalhes e chegar exatamente ao que o diretor deseja. Além da trilha sonora de "A Lista de Schindler", ele destaca duas obras de Ennio Morricone como marcantes: "A missão", de 1986 e "Cinema Paradiso", de 1988.

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