Bernadete Zanon Martins (à frente) com a irmã Sandra Zanon e a mãe Cecília Zanon: sinceridade a toda prova
Bernadete Zanon Martins (à frente) com a irmã Sandra Zanon e a mãe Cecília Zanon: sinceridade a toda prova | Foto: Saulo Ohara



Sinceridade tem limite. Só que não. No código de conduta de quem não vê mal ou não resiste em falar a verdade, nem que uma mentirinha salve de uma situação embaraçosa, a franqueza está acima de tudo. São os supersinceros.

Eles podem ser encontrados nas versões júnior: são sinceros, mas não chegam a perder amigos por isso; os tops: conhecidos ainda por sincerões; e os masters of the universe da franqueza. Estes até parecem gostar de viver perigosamente. São os famosos sincericidas.

A divisão em classes e categorias de sinceros ainda inclui as versões antipático: o que fala a verdade sem se importar se vai machucar alguém; os divertidos: geralmente têm consciência do que estão falando, mas, o jeitão descolado e alegre faz com que poucos levem a mal a franqueza. Finalmente, os sem noção: são os que podem transformar um velório numa piada e uma festa numa tragédia. Resumindo: são os reis e rainhas dos barracos.

Vamos conhecer agora, as peripécias de uma sincerona assumida, a bacharel em Direito, Bernadete Zanon Martins, de 49 anos.

Com mais de 1,75m de altura, Berna, como os amigos a chamam, não passa despercebida quando chega. A sinceridade vem logo atrás.

Episódios para contar não faltam, mas é entre família que as histórias rendem assunto e dão a dimensão do que significa conviver com um supersincero.

"As pessoas não gostam de sinceridade, querem ouvir somente o que gostariam e o sincero pode desagradar muita gente", afirma a gerente de atendimento Sandra Zanon, de 45, irmã de Bernadete, confirmando que a mana, entre os três irmãos, sempre foi a que mais saiu com as suas.

PRONTO, FALEI
Bernadete faz o tipo: "pronto, falei", que no catálogo dos supersinceros inclui o modo avançado, "pronto, falei mesmo", um nível de sinceridade em que o sincerão ainda se sente satisfeito e vingado.

"A minha mãe tinha uma máquina fotográfica antiga, daquelas de filme. Estávamos no aniversário da minha avó, tirando fotos e um parente tinha uma digital das mais modernas e disse, quando viu a gente com aquela maquininha: ‘cuidado para não queimar a pólvora’. Na hora, eu virei e disse: ‘pelo menos a nossa máquina está paga’", lembra Bernadete, contando que várias vezes em família precisou rasgar o verbo.

O sincerão não tem lugar, nem ocasião para afiar a língua. Até velório vale.

"Uma vez, eu fui representar antigos patrões em um velório. Tinham mandado até coroa de flores. Só que eu não sabia quem era o dono do defunto. Quando cheguei, para ajudar, estavam acontecendo seis velórios ao mesmo tempo. Calcei a cara e tive que sair perguntando: ‘quem é o parente do morto?’. Tive que ser sincera e dizer que estava ali, sem conhecer nem a pessoa que morreu, muito menos os parentes", conta Bernadete.

MENOS, MENOS
Toda pessoa sincera tem sempre alguém para dizer "menos, menos". É o caso dos filhos e do marido de Bernadete que, ao contrário da matriarca, são superdiscretos.

"Recentemente, eu e meu marido fomos ao mercado. Eu estava dirigindo e, quando estacionei, ele saiu do carro e me deixou para trás. Na hora, eu chamei a atenção, dizendo que não era motorista de ninguém. Um tiozinho ficou olhando a minha reação. ‘O senhor está olhando o quê? Nunca viu?’", conta Bernadete, acrescentando que sobrou até para o homem.

Todo sincerão acredita que a verdade – acima de tudo – é a melhor solução para se sair bem de qualquer situação.

FESTA
Berna conta que era estagiária no juizado especial e uma das amigas fez aniversário e o pessoal decidiu fazer uma festinha com direito a bexiga e tudo – embora sabendo que festa em órgão público, ainda mais no horário de expediente, não pega bem.

"De repente, um juiz entrou na sala e perguntou o que estava acontecendo. Todo mundo ficou paralisado. Ele tinha fama de ser muito rigoroso. Eu disse que era uma festa e que também estava convidado", lembra uma das muitas ocasiões em que quase praticou um sincericídio.
Mas, o que faz um sincerão ser um sincerão? Qual a força que move essas mentes e esses corações valentes?

"Sinceramente, eu não sei o que nos motiva, mas eu costumo dizer que a gente sempre pode falar a verdade, mas de uma maneira sem ofender as pessoas. Sem que se sintam magoadas e não provoque constrangimentos. Porém, vai da pessoa aceitar o que a gente tem a dizer", conclui Bernadete.

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