Será que retornam?
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sexta-feira, 18 de maio de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Duas sacolas esquecidas em pleno centro de Londrina contam mais sobre quem as encontrou do que quem as esqueceu. A FOLHA deixou dois objetos em espaços públicos da cidade para acompanhar o trajeto dos itens "perdidos" e a percepção de quem tenta devolvê-los.
Uma pasta de papel com orçamento nomeado, um frasco de remédio, um bloco de notas identificado com nome e telefone e uma bolsinha de moedas com uma nota de R$ 10. Estes eram os itens da primeira sacola de papel esquecida no movimentado ponto de ônibus da rua Minas Gerais. Não foi necessário nem uma hora para que o telefone tocasse. "Escuta, foi você que perdeu uma bolsa? Tem uma caderneta, uma bolsinha com R$ 10 dentro, está aqui no ponto de ônibus do Palácio do Comércio, venha buscar!"
A voz era de Elias Maurício, 55, doceiro que trabalha no local há 16 anos. Quem encontrou a sacola entregou a ele e seguiu caminho. "Aqui é quase todo dia alguém perdendo alguma coisa. Primeira coisa que eu faço é tentar me comunicar com a pessoa", declara. Quando não consegue, o objeto fica lá aguardando o dono, como um documento que estava grudado sobre o vidro do carrinho como arte de lambe-lambe. Há também outros documentos esquecidos que Maurício mantêm escondidos por segurança.
As histórias dos objetos perdidos são tantas que o doceiro não consegue parar de relembrá-las. "Uma vez uma moça perdeu R$ 500 no envelope, quando eu entreguei, ela chorava igual criança", recorda. "Um senhor perdeu uma chave de carro, vi ele olhando para o chão procurando, chamei e ele ficou tão contente que queria me dar R$ 50, mas eu não quis. Eu nunca pedi nada", afirma como quem comprova a inocência antes de ser contestado.
Experiente no assunto das devoluções, Maurício diz não ter o costume de perder suas coisas, mas não menospreza o valor dos pertences de outros, independentemente do que seja. "É doído a pessoa perder uma coisa e a outra pegar. Se não é nosso, não é justo. Não é todo mundo que tem essa consciência de devolver", lamenta. Sobre ter custo e trabalho para entrar em contato, não contabiliza. "Para essas coisas não tem gasto, o que faz para os outros pode ser feito para você um dia. Tem que pensar em fazer o bem", afirma.
A um quarteirão dali, no Calçadão de Londrina, uma sacola com pertences de maior valor foi "esquecida" pela reportagem. Um livro acadêmico identificado com nome e telefone, fones de ouvido, bloco de notas com recados e telefones, um kit de lápis e canetas e a imagem de uma santa com uma nota de R$ 10 embalados por um plástico.
Nunca saberemos o motivo, mas até o fechamento da edição, não foi devolvida.


