No meio do caminho havia uma Judite, a gata Judy. Foi assim que Flávia Dornelles, 37, encontrou a peça que faltava para superar o medo que tinha dos felinos. O encontro foi o ponto de partida para deixar as más impressões para trás e se abrir para novas experiências. Hoje, a tutora divide o apartamento com cinco deles, participa de feiras de adoção, se disponibiliza a dar lar temporário e ajuda ONG como pode. Será que gato vicia?
 
"Eu estava passeando com o Pedro (cachorro) pela redondeza e veio essa coisa. Ela veio se esfregando, pensei que estivesse perdida, estava muito boazinha", diz ela, apontando Judy. Na infância e adolescência, filhote de gato era algo para ser despejado com vassouradas de casa. "Eu tinha medo, pavor. Quando aparecia um, já era espantado. Hoje eu me culpo por isso", ri.
 
A convivência com amigos gateiros foram amenizando a relação. "Eu chegava na casa de uma amiga, o gato vinha perto de mim e eu ficava paralisada, com medo", conta. Dornelles se viu vencida pela insistência dos felinos e pelos assuntos das rodas de conversa que ela teve que se acostumar.  "Eu ficava horrorizada ao ouvir que meus amigos compravam areia para gatos, para mim era o fim do mundo", ironiza.
 
Em 2014 se viu na situação de ter que encontrar um destino para aquela gata que pulou no seu caminho pela segunda vez. Não teve outra alternativa, senão levá-la para casa. "Aquele calor de janeiro, eu não tinha tela na janela, tive que deixar tudo fechado. Eu não tinha nada para gato, qual é a primeira coisa que se pensa? 'Vou dar leite'. Hoje sei que nem faz bem para eles", conta. No mesmo dia pagou a língua ao pedir para que um amigo comprasse ração e a tal areia para gato.
 
Judite teve aprovação da irmã de Dornelles, com quem a tutora divide apartamento, mas só ganhou o nome meses depois de descobrir que o gato encontrado era, na verdade, uma gata. "Muitas pesquisas para descobrir. Pedi ajuda das pessoas, tirei foto da bunda do gato, perguntava", brinca. Entre as novidades, a escalada. Para evitar que Judy suba na pia da cozinha, uma cadeira é colocada estrategicamente para que ela possa subir e observar tudo que acontece na cozinha.

OS PRÓXIMOS

Com essa primeira experiência, vieram os próximos. No mesmo ano a estudante adotou mais duas: Elizabeth e a filha, Dorinha. Dois anos depois veio o Raul e, por último, o Júlio, gato que está temporariamente na casa e se tornou o melhor amigo de Pedro, o cão. Nesse período, Dornelles se transformou. Ajuda ONG que protege os felinos, participa de feiras de adoção e disponibiliza o apartamento como lar temporário. "Me vejo mais desapagada, não fico mais me preocupando com coisas banais, eles sobem no sofá e cama e não há problema nisso", afirma.
 
Com o quarto adaptado para abrigar todos eles, percebe como sua visão sobre os gatos mudou. "Eu tinha a ideia de que gato é frio, distante, que não gosta do dono e sim da casa, mas me surpreendeu, eles são companheiros. A maneira do gato mostrar que está à vontade com você é diferente da do cachorro", admite. Cinco anos e cinco gatos depois, ironiza essa mudança. "Quem me viu, quem me vê. Quem tinha pavor de gato, agora deixa a gata dormir na mesma cama", brinca.

mockup