Por ano, 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçadas no mundo. O número representa um terço da produção global. Além da questão da fome, outro viés também preocupa: o desperdício alimentar tem consequências no meio ambiente. Os recursos naturais utilizados em todo o processo, desde a produção até o consumo, vão para o lixo junto com a comida.

"Recursos hídricos, uso do solo, emissão de gases desnecessários, insumos perdidos. Uma cadeia que vai para o lixo", expõe Carolina Siqueira, especialista em Alimentos e Agricultura do WWF-Brasil. Segundo ela, 1,4 bilhão de hectares do mundo é desperdiçado e o nível de sobrecarga da terra está aumentando a cada ano.

A perda de alimentos ocorre em todas as fases da cadeia, em diferentes proporções e regiões do planeta. Produção, armazenamento, processamento, distribuição, acesso e consumo de alimentos. "O consumidor é o principal ponto, ele precisa entender que faz parte disso", defende a especialista.
Siqueira acredita no potencial do consumo consciente, em que haja o planejamento de compras estabelecendo a quantidade necessária e consumo de produtos locais para diminuir a distância entre comprador e produtor. Além disso, coloca a importância da valorização de produtos fora do padrão. "Aqueles que têm má formação, que estão amassados... É importante consumi-los e aproveitá-los de forma integral", ensina.

Imagem ilustrativa da imagem #Semdesperdício



Para isso, é necessário que o consumidor esteja empoderado para exigir dos estabelecimentos a boa gestão dos alimentos e evitar perdas. O consumo consciente, segundo ela, tem papel estratégico para pressionar toda a cadeia. "Consumir é um ato político", argumenta.

Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, enfatiza as questões ambientais em decorrência do desperdício. "Se um terço do alimento produzido for para o lixo, por exemplo, consequentemente um terço dos recursos hídricos, energéticos e financeiros empregados na produção também estarão sendo desperdiçados", afirma.
O Brasil perde cerca de 30% dos alimentos produzidos, são 41 mil toneladas por dia. "Produzir alimento que não será consumido acarreta emissões desnecessárias de gás carbônico (CO2). O desperdício global de alimento é o terceiro maior emissor de CO2 na atmosfera, depois das emissões dos Estados Unidos e da China", destaca o diretor.

A campanha #Semdesperdício, organizada pela WWF-Brasil, Embrapa e FAO-Brasil tem o intuito de conscientizar o consumidor na mudança de hábitos. Nas redes sociais e site, a #Semdesperdicio divulga dicas, ideias e informações para tirar a mania de desperdício do brasileiro, encontradas em diversas partes. Desde o não aproveitamento integral dos alimentos até a cultura de que "é melhor sobrar, do que faltar".
Outra questão lembrada pela especialista da WWF-Brasil é que o País assinou, em 2015, o compromisso com os objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Até 2030, o Brasil tem que diminuir pela metade o desperdício de alimentos per capita e reduzir as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e abastecimento. "A meta precisa sair da agenda e ir para a prática. Tanto governo estadual, quanto federal", cobra.

COMIDA NO PRATO

Evitar o desperdício de alimento e combater a fome. O Mesa Brasil, do Sesc, faz a ponte entre empresa doadora e instituição receptora de alimentos que não estão no padrão comercial. "Esse alimento perdeu a beleza, perdeu o valor comercial. Isso não quer dizer que perdeu o valor nutricional e muitas vezes é jogado no lixo", afirma a nutricionista do Sesc Londrina Aeroporto, Lara Libanori Barbosa.

Desde 2006 em Londrina, o modelo de colheita urbana tem beneficiado 15 mil pessoas da região de instituições carentes ou em situação de vulnerabilidade. Todos os dias, a rede busca os alimentos fora do padrão de comercialização em um de seus doadores, como supermercados, cooperativas e produtores rurais. Ao todo, são 40 cadastrados, 25 que doam sistematicamente.

"Todo tipo de alimento pode ser doado, desde que esteja com a embalagem intacta, dentro do período de validade, em temperatura e armazenamento adequados", informa. Para que o serviço funcione, a rede promove oficinas de orientação para funcionários das empresas doadoras, indicando formas de manejo, triagem, separação e sensibilização.

Depois disso, o Mesa Brasil faz a triagem e deixa em sua área de armazenamento. "Como é modalidade colheita urbana, não fica mais que 24 horas. O que é coletado é logo distribuído, até porque o produto tem necessidade de consumo rápido", explica a nutricionista.

As unidades receptoras recebem oficinas, palestras e cursos na área de nutrição e desenvolvimento pessoal e institucional. "O objetivo não é só entregar na mão da instituição, é fazer com que ela se desenvolva e aplique bem esse recurso que ela economizou", indica.

Ao todo, 89 instituições filantrópicas ou não governamentais são assistidas. O maior volume de doação é de hortifrúti. "A gente orienta a consumir todas as partes dos alimentos, desde cascas, talos, raízes, oferecendo oficinas de aproveitamento integral dos alimentos, porque também influencia no meio ambiente. Não adiante buscar um monte de abacaxi e jogar a casca fora", diz, salientando que também há uma demanda de alimentos não perecíveis.

Com isso, pretende um dia chegar a um momento em que não vai haver descarte e que o produto produzido a mais tenha um destino certo. "Fazendo isso, o próprio doador está contribuindo socialmente para ajudar nas questões da fome e evita-se jogar muito lixo no meio ambiente", finaliza.

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