Imagem ilustrativa da imagem Sabores do campo
| Foto: Fábio Alcover
Sebastiana Terciotti e João Gercy entre as filhas Marcia e Célia: tradição em comida mineira e italiana no Patrimônio Regina


Em 1950, o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou que Londrina tinha 71.412 habitantes. A maioria, 52%, residia na zona rural. Trinta anos depois, em 1980, a população total do município havia crescido mais de 400%, chegando a 301.711 moradores, dos quais apenas 11,5% moravam no campo.
O êxodo rural sem precedentes da década de 1970, com o declínio da cultura cafeeira, fez com que a cidade recebesse milhares de pessoas que antes trabalhavam nas lavouras ou eram proprietários de pequenos lotes de terras em muitos municípios do Paraná e de outros estados. Em 2016, os londrinenses são 553.393. Pouco mais de 13 mil deles moram na área rural.
O povo saiu da roça, mas os bons valores rurais ainda estão entranhados em muita gente. Mesmo quem é da geração que já nasceu na cidade tem pais ou avós vindos da lavoura. E nada melhor para amainar a saudade do que uma boa comida à moda caipira. Quiabo frito, milho refogado, tutu de feijão, polenta, porco no tacho, torresmo à pururuca. É por isso que os restaurantes rurais do município fazem sucesso e lotam a cada fim de semana.
"Aqui, tudo o que oferecemos é feito a partir de receitas de vovós e de bisavós", comenta Sebastiana Cândida Terciotti, de 74 anos, a Vó Tatau, que empresta o carinhoso apelido para o restaurante que a família abriu há 13 anos no Patrimônio Regina (Zona Sul).
Os Terciotti plantavam café na região desde 1942. Um deles, João Gercy, o Vô Gerson, hoje com 80 anos, tinha padrinhos na cidade, donos de uma casa de retalhos. Quando ia visitá-los, galanteava a funcionária do estabelecimento, que era Sebastiana. Acabou conquistando a moça. Casaram-se em 1963 e ela, apesar de viver na área urbana de Londrina, não se importou de ir para o sítio, apaixonada que era pelas coisas da natureza.
Enquanto o marido cuidava dos cafezais e ela das duas meninas e do menino que o casal teve, Sebastiana também arranjava tempo para empreender. Chegou a ter uma pequena indústria de sorvetes no próprio Patrimônio Regina; fazia pães, compotas e doces para comercializar; frequentava cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) para aprender a manusear alimentos.
Gerson e alguns de seus irmãos continuaram na cafeicultura mesmo depois da geada de 1975. Ele chegou ao século 21 ainda na atividade. Até o dia em que decidiu, junto com a mulher, que já não dava mais. Cogitaram abrir um restaurante para propiciar também uma opção de renda para as filhas. Venderam as terras para investir no negócio.
"Daí decretei; de domingo ninguém mais almoça em casa. Vamos comer só em restaurantes para aprender sobre o negócio", recorda o patriarca.

TORRESMO À PURURUCA

Durante seis meses, visitaram outros estabelecimentos, fizeram mais cursos, planejaram, reformaram o antigo salão que alguns anos antes abrigara a fábrica de sorvetes. No primeiro domingo em que abriram, serviram apenas familiares, como teste. No segundo, os amigos. Depois, foram crescendo, com Vó Tatau comandando os fogões das cozinhas mineira e italiana e as filhas Marcia Cristina, de 47, e Célia Regina, de 52, na retaguarda.
Atualmente, recebem entre 600 e 700 pessoas a cada domingo. Torresmo à pururuca, paleta de porco e tutu de feijão são alguns dos pratos preferidos dos clientes. A banda Kanto Dubosque, especializada em música caipira de raiz e que tem quatro irmãos de Sebastiana entre os integrantes, toca no bosque anexo ao salão.
O pessoal fica ali até as 17h, conversando, curtindo a sombra, vendo girar a roda d’água que movimenta um monjolo e um pequeno moinho, enfim, matando a saudade das coisas do campo.
No total, o restaurante gera 58 empregos, atrai gente de vários municípios da região e já foi visitado por cidadãos da Itália, do Canadá, dos Estados Unidos. O repórter questiona Vó Tatau sobre qual é o segredo do sucesso. "Fazer tudo com amor", simplifica, com sabedoria e simpatia.
E aproveitando estar diante de um pioneiro da cidade que hoje aniversaria, pede para Gerson dizer o que pensa sobre Londrina. "Era barro e poeira, foi crescendo e ficou simplesmente maravilhosa", ele responde, com a autoridade de quem entende do assunto e a vitalidade de quem ainda se alonga, encostando os dedos das mãos no chão sem dobrar os joelhos.

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