Respeite seus limites
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

No dia a dia da infectopediatra Joceley Figueiredo cabem muitas atividades - muitas mesmo. Com energia de sobra e pouca necessidade de sono, ela encaixa o grupo de pedal, a academia, a corrida, as aulas de dança, a patinação, a fisioterapia, os filhos e o trabalho, das primeiras horas da manhã até a madrugada.
"Primeiramente sou mãe do Eduardo, do Rafael, do Gustavo e do Samuel. Trabalho em três postos de saúde, faço plantão em três hospitais e atendo no meu consultório. E a cada dia tenho diversas atividades diferentes. Sempre fui bem ocupada, desde criança eu era agitada, meio moleque. Eu sinto necessidade disso, meu corpo pede", explica.
Ela é capaz de citar de cor as atividades de cada dia da semana, sempre com tudo bem encaixado. Meia hora de intervalo é tempo suficiente para uma passada na depilação. Com exceção das segundas-feiras, quando dorme em casa, todos os outros dias ela passa nos plantões e logo na manhã seguinte já está pronta para mais uma lista de atividades, que começam bem cedo. Neste dia, a médica conta que dorme cerca de quatro horas, já nos outros depende do movimento dos hospitais.
"Tem plantão que é bem agitado, outros nem tanto. Mas se demora muito entre um atendimento e outro, fico impaciente. As pessoas no pronto-socorro já estão acostumadas comigo, me chamam de Mulher-Maravilha. Eu tenho noção de que sou agitada, mas gosto, tenho sensação que estou viva", justifica.
Figueiredo conta que ainda na faculdade descobriu que tinha depressão e demorou algum tempo até encontrar um tratamento que desse certo. "Hoje está bem controlada, mas no início foi bem pesado. Eu não me conformava, eu dizia: 'não tenho motivo para ter essa tristeza, tenho uma vida excelente, minha família com saúde, faço o curso que sempre almejei'. Acho que essas atividades me ajudam a lidar com a doença."
Figueiredo diz também que tem seus momentos de preguiça e algumas vezes quando chega do plantão pensa em ficar dormindo, porém, sabe que precisa dos exercícios e que vai se sentir melhor. "Mesmo quando eu estava grávida eu sempre tive vários empregos. A diferença é que hoje eu tenho divertimento, antes eu só trabalhava."
Os três filhos mais velhos já são independentes, estudam e trabalham fora de Londrina. É Samuel, de 10 anos, quem faz companhia para a mãe nas horas de lazer. "Um domingo fui para o hospital achando que era meu plantão, mas não era. Fiquei muito feliz porque pude voltar para casa e ficar com ele. Assistimos seriado, andamos de bicicleta, fomos tomar açaí, passear. Gosto de estar a cada dia em um local, de ter uma rotina diária. Se um dia o posto está fechado, fico perdida", garante.
Com o pé no freio

Até o ano passado, a rotina do estudante de Direito Rodrigo Lourenço Aristides era cheia de atividades. Funcionário público, ele trabalhava durante a madrugada e parte da manhã e depois ia direto para a universidade. Neste ano, entretanto, resolveu desacelerar e mudar o ritmo de vida, o que incluiu muito mais do que pedir demissão.
"Eu sempre gostei de fazer muitas coisas, me mantinha ocupado com esportes, trabalho e estudo, mas passei a valorizar outras coisas. Eu comecei a estudar e queria me dedicar mais ao curso, porque realmente quero trabalhar com isso. No ritmo de trabalho que eu tinha, não me sobrava muito tempo para me dedicar como eu acho que deveria. Sempre quis fazer Direito e quero fazer bem feito. Por isso, uma das primeiras coisas foi mudar a minha relação com o dinheiro. Sempre controlei bem isso, mas quando a gente começa a acumular, começa a questionar o propósito de tudo isso", diz, de forma tranquila.
Na intenção de reduzir o ritmo, uma das primeiras atitudes foi deixar de trabalhar aos sábados, o que não era obrigatório mas rendia um valor extra no salário. Depois, vendeu o carro e passou a se locomover de bicicleta. E por fim, pediu demissão e acabou de cumprir o aviso-prévio nesta semana.
"Me divorciei recentemente e algumas coisas perderam o propósito. Este é um ano de recomeço, mas depois de dez anos em uma empresa, nem todos entendem. Decidi apostar na faculdade e estou procurando satisfação no que faço. O carro, de uma certa forma, também me mantinha agitado, era uma fonte de estresse. Com a bicicleta não, você sabe que não vai ser mais rápido do que os outros. A manutenção também é simples, várias coisas a gente mesmo pode fazer. A bike pra mim representa a serenidade e é uma forma de esporte também, além de aproximar as pessoas."
Aristides conta que parte das mudanças também aconteceram depois que assistiu a um material sobre o minimalismo e agora pensa em manter em casa apenas o essencial, por isso já começou a se desfazer de alguns objetos. Outros pontos já estão ficando em segundo plano, como a televisão e o uso das redes sociais. "Já pensei em desativar minha conta, mas é algo que também serve como fonte de informação. As redes sociais refletem a sociedade e, para mim, uma forma de desacelerar é usar mais produtivamente essa ferramenta."
Outro momento bastante importante, apontado por ele, foi fazer uma viagem de bicicleta até o litoral paranaense. Ele conta que foi um momento de reflexão e o fato de fazer no seu tempo, aproveitando a paisagem enquanto os carros passavam ao lado, foi algo que lhe trouxe bastante tranquilidade. "As pessoas acham que eu sou louco, mas loucura é fazer o que todo mundo está fazendo. Quando você reduz o seu ritmo descobre que outras pessoas já começaram a fazer isso também."


