Imagem ilustrativa da imagem Quem tem medo da verdade?
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O termo "fake news" ganhou força nos últimos anos com a grande disseminação de informações falsas pelas redes sociais no período das eleições dos Estados Unidos. No entanto, a expressão ainda é discutida entre os estudiosos. Informação falsa, pós-verdade, desinformação ainda são mais utilizados para designar essa onda de conteúdos mentirosos distribuídos na internet.

"Fake news ou notícia falsa seria aquele conteúdo que tem um formato que lembra jornalismo e é utilizado por pessoas de má-fé para espalhar desinformação", explica Marcelo Träsel, diretor da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e professor e pesquisador na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

No entanto, o problema vai além da alusão ao jornalismo. Os clássicos boatos também circulam nas redes sociais em longos textos, imagens que imitam banners, vídeos opinativos ou tendenciosos, áudios difundindo boatos, sem, necessariamente, imitar uma notícia. "Por isso a gente prefere utilizar o termo desinformação, porque tem muito mais problemas além das notícias falsas", acrescenta.

QUEM PRODUZ?
Mas quem faria esse tipo de conteúdo e a troco de quê? Golpes, vírus, informações infundadas, mentiras, com esse tipo de conteúdo, sites especializados em notícias falsas conseguem um grande número de leitores e atraem também anunciantes. Há também as desinformações oriundas de pessoas que só querem sacanear alguém ou várias pessoas ao mesmo tempo.

Mas além dessas situações, há também um grande interesse pelo convencimento popular. "O grande problema é que a gente tem visto grupos políticos no Brasil muito bem organizados que estão produzindo desinformação para tentar angariar benefícios para seus candidatos", alerta.

Nessa questão, o diretor da associação afirma que não se tratam apenas de militantes. "Tem escritórios com pessoas que são pagas para fazerem esse tipo de coisa. Também tem os militantes equivocados que acham que produzindo isso vão beneficiar o candidato dele, mas tem grupos que correm por fora, que não estão no caixa 1 e que produzem esse tipo de material", denuncia.

LEIS?
O diretor da Abraji aponta que dependendo do conteúdo, a própria informação pode incorrer em uma variedade de crimes contra a honra, como calúnia, difamação, injúria, falsidade ideológica. Sobre a própria produção do conteúdo, há atualmente 14 projetos de lei no Congresso (13 na Câmara dos Deputados e um no Senado) que pretendem punir a disseminação de fake news na internet.

"Na verdade, para a Abraji, seria muito preocupante se o estado resolvesse legislar sobre isso e transformar em crime, porque ficaria na mão de quem fosse classificar. A liberdade de expressão é um direito constitucional", argumenta Träsel e acrescenta: "está nas mãos do leitor identificar se aquele conteúdo é sólido ou não."

COMO IDENTIFICAR?
A primeira questão é desconfiar. "Se a notícia for muito boa, muito ultrajante, normalmente a gente está tendo uma coisa que se não for mentira, está tentando apelar pelos instintos mais primitivos do ser humano", afirma.

"Descoberta a cura do câncer" ou "Avião tem pane e você não vai acreditar no que aconteceu", são exemplos de títulos citados para induzir a leitura pela curiosidade ou pela forte comoção. "Matérias jornalísticas legítimas não vão fazer afirmações irresponsáveis e também possuem títulos diretos e informativos", argumenta.

Uma segunda forma é verificar a fonte da notícia e se já é reconhecida. "A melhor forma de saber se um site é sério é se ele dá os nomes dos sócios, dos editores, dos contatos da redação, como endereço, telefone, porque, normalmente, esses sites que produzem falsidade não colocam, porque não querem ser encontrados", explica.

O terceiro passo é até mais simples. Pesquisar em sites de buscas, como o Google ou Bing, se algum outro site conhecido já deu a matéria.

IMPACTO
Como a questão é relativamente nova, institutos de pesquisa ainda estão estudando os impactos sociais do fenômeno. "Esse ano saiu um estudo sobre o impacto das notícias falsas nas eleições americanas de 2016 e os pesquisadores descobriram que não teve impacto, porque, na verdade, quem consumia notícias falsas eram pessoas que já tinham seus candidatos escolhidos", afirma Träsel.

No entanto, em outras áreas também há confusão, como a recente desinformação sobre as vacinas no Brasil. "Pessoas deixaram de vacinar os filhos por conta de boatos que estão circulando, isso sim é gravíssimo. Essa foi uma das poucas situações que foram estudadas e os resultados mostraram que sim, as pessoas são influenciadas por esse tipo de boato."

COMO COMBATER?
"É muito mais fácil criar uma informação falsa do que desbaratá-la", afirma o pesquisador. Exige energia e investimento, mas algumas iniciativas adotadas pelas redações são as ferramentas de checagem. Outra iniciativa que acho promissora é a Fátima Bot, um robô criado pela agência de checagem Aos Fatos, que avisa quando o link publicado se trata de uma notícia falsa", apresenta.

Além dessas, iniciativas de educação do público e a divulgação sobre a desinformação podem auxiliar pessoas a compreenderem melhor o fenômeno. "É importante que cada cidadão assuma a responsabilidade para que a desinformação não se espalhe e alerte sobre elas nos grupos de famílias e amigos", cita.

CREDIBILIDADE
As notícias falsas afetam a credibilidade de meios de comunicação legítimos ou elas possuem leitores porque a credibilidade dos meios já estava afetada? O pesquisador acredita na última afirmação, considerando o nível baixo de alfabetização digital e desconhecimento sobre ferramenta dos usuários.

"Se uma pessoa não sabe julgar uma fonte de informação, ela vai tender a seguir suas sensações, emoções e não seu raciocínio e vai pelo viés da confirmação. 'Se aquilo diz o que eu acho ou o que eu estou sentindo e aquele jornal está dizendo o contrário, então o jornal está mentindo'", exemplifica.

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