Disireé da Silva cresceu sabendo se defender: "Minha mãe sempre nos orientou que ninguém tem o direito de nos tocar, se visse uma coisa estranha era para chamar um adulto"
Disireé da Silva cresceu sabendo se defender: "Minha mãe sempre nos orientou que ninguém tem o direito de nos tocar, se visse uma coisa estranha era para chamar um adulto" | Foto: Saulo Ohara



"Eu estava em pé, achei que alguém tinha passado e enroscado a bolsa na minha saia, porque o ônibus ia parar no ponto. Então olhei e, no que eu virei, vi o que ele estava fazendo atrás de mim. Não tive dúvidas do que estava acontecendo", relata Disireé Marcelino da Silva, 38, sobre o abuso que sofreu em outubro do último ano, dentro de um ônibus do transporte coletivo de Londrina.

Cinco meses depois, a vendedora não cansa de contar o caso que acredita ter colocado um novo propósito em sua vida: ajudar outras mulheres vítimas de violência. Na ocasião, Silva recorda que sua primeira reação foi empurrá-lo e perguntar o que estava fazendo. Com o órgão sexual exposto, a preocupação do rapaz, 21, foi fechar o zíper da calça e afirmar que não estava fazendo nada.

"Aquilo me irritou. A ironia dele. O ônibus estava parado, eu falei 'vou te dar uma oportunidade, se você quiser sair aqui, nada vai te acontecer. Se você permanecer, só vai sair preso'. E ele continuou dizendo que não estava fazendo nada", recorda. Algumas passageiras se movimentaram, avisaram o motorista para acionar a segurança do Terminal Urbano. Próximo do destino, começaram as ameaças. "Ele disse que estava armado e que ia matar a gente, que ia dar tiro... Tanto eu, quanto uma senhora que estava com um filho pequeno dissemos: 'se você quiser atirar, tudo bem, mas daqui você não vai sair'", destaca.

A indignação transformada em coragem. Filha de mãe divorciada, que precisava deixar os filhos em casa durante o trabalho, Silva aprendeu desde cedo a se proteger. "Ela sempre nos orientou que ninguém tem o direito de nos tocar, se visse uma coisa estranha era para chamar um adulto, ligar para a polícia", afirma. Por conta disso, acredita que teve a valentia suficiente para reagir e continuar com a denúncia que levou o agressor à prisão em um crime classificado como tentativa de estupro.

Silva não tem nenhuma formação jurídica, se autodefine apenas como uma cidadã que conhece seus direitos. E por se interessar por eles, pretende provocar mudanças. "Fui procurada por muitas mulheres e também por homens que têm criança pequena. Algumas me relataram situação de abuso que sofreram, que passaram pela mesma situação ou até pior. Eu fiquei com a sensação de que eu preciso fazer alguma coisa."

O quê, exatamente, a vendedora ainda não sabe, mas acredita que um caminho seria lutar por mudanças nas leis. "A lei precisa ser mudada, porque o homem não tem o direito de passar a mão em uma mulher e não ir preso. Não tem o direito de ejacular em uma mulher e ser simplesmente um atentado ao pudor. É uma situação muito séria, muito grave, não deveria precisar acontecer o ato do estupro para ele ir preso", defende.

SORORIDADE
Embora Silva já tivesse reagido, contou com apoio de outras mulheres no momento do ocorrido. Uma se prontificou a avisar ao motorista para que a segurança do Terminal fosse acionada, outra a apoiou no enfrentamento das ameaças, mesmo com o filho pequeno. Três se dispuseram a dar o número do telefone, caso ela precisasse de testemunhas. Formou-se uma cadeia de proteção. Mulheres se ajudando para levar a denúncia até o fim.

APOIO
Além das passageiras, a vendedora destaca o apoio que teve dos homens que trabalharam no caso. Motorista, seguranças, Guarda Municipal, escrivão e juiz agiram de forma respeitosa para dar voz à vítima e o crime foi classificado como tentativa de estupro. O que a vendedora classifica como um privilégio, já que, infelizmente, esse é um caso que "acontece muito, é quase todo dia" e nem sempre possui o mesmo desfecho.

Por isso, pensa que é preciso buscar formas na lei que garantam a segurança para que o crime seja notificado como deve. "Esses casos de abuso, assédio, às vezes são tratados como uma coisa simples, mas eu penso que se alguém tem coragem de passar a mão em você, nada impede dessa pessoa te estuprar se tiver a oportunidade."

'Luto pelos meus direitos como cidadã'

Casos como o da vendedora Disireé Marcelino da Silva infelizmente são frequentes, mas nem todas as mulheres têm a coragem de denunciar. Para evitar mais constrangimento, as vítimas costumam deixar passar e assim vão enfrentando o assédio no dia a dia. "A grande maioria das vezes elas não denunciam, por vergonha, por medo de se expôr. Eu pensei na hora que a situação pior já tinha acontecido comigo, então não vai ser pior continuar com a denúncia. Eu creio que o meu medo maior foi pela minha sobrinha, de 17 anos, que falou que a situação do homem passar a mão na gente dentro do ônibus é muito comum", lamenta Silva.

Por isso, ela acredita que todos devem conhecer um pouco de leis, pelo menos o necessário para se defender. "Eu luto pelos meus direitos como cidadã. A gente tem direito, a gente elege deputado, elege prefeito, então eu acho que a gente também tem o direito de se organizar, entender um pouco de lei para saber cobrar das pessoas certas", afirma, acreditando que essa seria a única forma de combater, pois, segundo a vendedora, falta posicionamento adequado. "A gente está em desigualdade de força física, apenas, mas com o intelecto e como cidadã jamais. Cabe a nós buscarmos com inteligência os nossos direitos como cidadã e não fazer barulho só por fazer. Entender de lei, de legislação para pode cobrar."

A violência generalizada foi um dos motivos que levou a vendedora a continuar com a denúncia. Segundo ela, a impunidade faz com que crimes como esse continuem ocorrendo e que as mulheres precisam apontar os criminosos. "Muitas vezes as pessoas deixam pra lá. A gente tem que ir atrás, é por isso que eu acho que a criminalidade vai aumentando", argumenta.

"A gente está vivendo uma situação ultimamente que você não tem segurança, e não é porque falta polícia ou falta de segurança em si, por causa da impunidade. Uma pessoa vai presa hoje e daqui dois ou três dias ela vai estar na rua", desabafa um dia após ter ido ao velório de um dos agentes da Guarda Municipal. O homem que foi morto a tiros em Londrina foi um dos responsáveis por ajudá-la no dia que sofreu a tentativa de estupro dentro do ônibus.

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