Produções cinematográficas espelham realidade social
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de janeiro de 2019
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 

Se a vida imita a arte é claro que questões relacionadas ao politicamente correto acabam aparecendo em filmes, séries e novelas. Mas até que ponto elas influenciam no que vemos? Marden Machado, jornalista e cinéfilo, explica que se observarmos o cinema nos últimos 50 anos é muito fácil perceber as mudanças.
Uma das mais evidentes é a redução do fumo em cena. "A única série que trouxe de forma mais intensa a questão do cigarro foi Mad Men (2007-2015), que se passa nos anos 1960, período em que fumar significava que a pessoa tinha status e cultura, que era entrosada e chique. Havia um contexto histórico", diz.
Outra obra relativamente recente, o filme Boa Noite e Boa Sorte (2005) trouxe uma cena bastante curiosa segundo o especialista. O filme se passa em 1950 e mostra o apresentador e âncora de televisão Edward R. Morrow fumando enquanto apresentado o telejornal. "Fiquei curioso para ver se ele fazia isso mesmo e descobri que era verdade", conta Machado.
As mulheres também estão saindo do papel de mocinha e se tornando as protagonistas em diversas produções. Gal Gadot e Daisy Ridley recentemente encarnaram respectivamente a Mulher Maravilha e Rey, personagem de Star Wars e não ficaram esperando que alguém aparecesse para salvá-las.
"Com os escândalos sexuais recentes e o empoderamento feminino, já tinha percebido maior foco em histórias com mulheres protagonistas, mas vejo que isso vem aumentando e os Estados Unidos influenciam o resto do mundo. A Mulher Maravilha aparece em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e em Liga da Justiça (2017), junto com outros super-heróis. No seu próprio filme - Mulher Maravilha (2017), a personagem não é objetificada, não existem closes de seios e nádegas - o que acontece nos outros filmes - e as roupas, apesar de justas, são mais recatadas. A direção é feita por uma mulher e a mensagem parece ser de que a personagem pode se impor como pessoa e não pelos seus atributos físicos", explica o cinéfilo.
Outro super-herói cujo filme foi lançado recentemente é Pantera Negra (2018) e ao contrário do que muitos possam ter pensado, o personagem não surgiu recentemente. "O Pantera Negra é da década de 1960 e na época seu nome gerou polêmica por causa do grupo violento de mesmo nome. Ele surgiu como um personagem secundário e agora ascendeu. A Marvel passou por uma grave crise financeira no final dos anos 1990 e acabou vendendo os direitos cinematográficos de seus personagens mais importantes. O Homem Aranha, por exemplo, foi vendido para várias empresas e posteriormente a Sony recomprou. Como todo o primeiro pelotão estava vendido, eles apostaram no segundo, do qual o Pantera faz parte. De toda forma o filme é muito bom e não duvido que possa ser indicado ao Oscar", conta Marden.
MAIS VIGILÂNCIA NA TV ABERTA
A nova trilogia de Star Wars dividiu opiniões. Se alguns fãs se entusiasmaram pelos rumos da história, entre os mais antigos há quem não tenha gostado nada, seja pela mudança no perfil de alguns personagens, como Luke Skywalker ou pela mudança nos protagonistas.
"O filme traz entre seus primeiros personagens três representantes de minorias sociais e cinematográficas: um latino, um negro e uma mulher. Algumas pessoas quiseram boicotar o filme porque uma mulher era a protagonista. Mas há quem não se importe com isso. Esse protagonismo da Mulher Maravilha e do Pantera Negra é importante, as pessoas se identificam. Eu me identifiquei pelo que eles defendem, não por causa do gênero nem a cor da pele."
Segundo Marden, as questões que envolvem o politicamente correto estão sendo mais discutidas agora. Obras cinematográficas e de canais fechados ou streaming podem até receber críticas pelos conteúdos exibidos, mas as pessoas entendem que seu conteúdo é para um público mais específico. "Já na televisão aberta, por ser uma concessão pública, há mais patrulhamento. É uma questão de identidade. Sempre há debate, sempre há quem queira boicotar, quem enxerga (a obra) pelo olhar dele. Seria mais simples se as pessoas pudessem optar pelo que dizer, ter liberdade e arcar com as consequências disso." (E.G)


