Presente e futuro em chamas

Queimadas ameaçam fauna e flora, colocam em risco nossa saúde e podem trazer prejuízos econômicos para o país

Marcos Martins (especial para a FOLHA)
Marcos Martins (especial para a FOLHA)

Presente e futuro em chamas
Departamento de comunicação do governo de Mato Grosso/ AFP
 

Presente e futuro em chamas
Mauro Pimentel/AFP
 


As imagens de animais carbonizados e feridos chocaram o mundo. Além de devastar grandes áreas verdes, o fogo que consome o Pantanal ameaçou propriedades e moradores da região. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), até a metade de setembro, a área já registrava 14.764 pontos de queimadas no ano, a maior taxa histórica registrada no território, com aumento de quase 95% em relação aos nove primeiros meses do ano passado. A faixa devastada pelo fogo corresponde a 12 cidades de São Paulo – 18.646 km2, ou cerca de 12% do total do bioma. Florestas inteiras viraram cinzas e a fumaça foi longe, afetando até lugares distantes, como São Francisco de Assis, na região central do Rio Grande do Sul. Por lá, foi registrada a ocorrência da chamada “chuva escura”, resultado do encontro das nuvens de precipitação com a fuligem. Na Amazônia, o número de queimadas e incêndios florestais registrados entre 1 e 14 de setembro já superou o mês todo de 2019, crescimento de 86% para o período. Uma possível extinção de algumas espécies da fauna e da flora preocupa o biólogo Juarez Soares. “O bioma sofre danos seríssimos com essas agressões, fica desregulado. Podemos sim perder espécies conhecidas e até ainda desconhecidas, que trariam benefícios para o ser humano no futuro, por meio de descobertas e pesquisas, mas que acabariam incineradas hoje”, alerta.


Presente e futuro em chamas
CARL DE SOUZA / AFP
 

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Mauro PIMENTEL / AFP
 

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Mauro Pimentel/AFP
 


Para quem vive no Centro-Oeste, a situação tem sido assustadora. Em 2016, o jornalista Gilmar Agassi Evaristo Júnior deixou o Paraná e se mudou para Cuiabá, capital do Mato Grosso. Desde então, trabalha com a família com turismo no Pantanal. E relata nunca ter visto nada parecido com os dias atuais. “É geralmente uma época seca e de queimadas, mas esse ano está muito pior. Alguns vizinhos contam que, em 10 anos, é o pior momento”, revela. A pandemia de Covid-19 já havia impactado os negócios, causando o cancelamento de todas as reservas de turistas estrangeiros em 2020. Agora, o fogo afugenta também os brasileiros. “Alguns grupos de pesca que vinham para passar cinco dias, ficaram só três por causa da fumaça. No último dia 15, o fogo chegou a menos de um quilômetro da pousada. Quem estava aqui ficou em pânico. Pai e filho que estavam hospedados acabaram indo embora, com medo”, lamenta Gilmar. 




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CARL DE SOUZA / AFP
 

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CARL DE SOUZA / AFP
 


Além do prejuízo financeiro, a saúde dos moradores também está em risco. Especialistas temem uma alta na demanda por leitos para tratamento de doenças respiratórias, que se agravam com fumaça e tempo seco. Dificuldade para respirar, cansaço, dor e ardência na garganta, falta de ar, tosse seca, dor de cabeça e rouquidão estão entre as consequências, que variam em cada pessoa. “A fumaça carrega vários elementos tóxicos. As menores partículas podem percorrem o sistema respiratório, alcançar o alvéolos pulmonares e invadir a corrente sanguínea, causando inflamações e outros efeitos graves ao organismo”, alerta o pneumologista Caio Moraes. Segundo ele, todos os anos cresce o número de pacientes que procuram o consultório com queixas relacionadas à piora da qualidade do ar. “O futuro é preocupante”, observa.


Presente e futuro em chamas
CARL DE SOUZA / AFP
 

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CARL DE SOUZA / AFP
 

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MAURO PIMENTEL / AFP
 

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Mauro PIMENTEL / AFP
 



Projeções da Organização Mundial de Meteorologia apontam, para o período de 2020 a 2024, consequências como aumento de temperatura, redução de chuvas e períodos mais secos em diversas regiões. “Com mais queimadas, o clima fica mais seco, o que faz com que a vegetação daquele local fique mais suscetível à queimadas. Com isso, gases do efeito estufa vão para a atmosfera, o que reforça essas mudanças climáticas. Isso gera um novo aumento de temperatura e clima ainda mais seco, sem chuvas, com mais risco de queimadas. É uma espécie de ‘looping’ da destruição”, resume o climatologista Renato Neves. Em uma live recente, o pesquisador e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, Carlos Nobre, fez um alerta. “A Amazônia se aproxima de um ponto de não retorno, em que a floresta perderia a capacidade de se regenerar diante da degradação causada pelo homem e haveria mudanças drásticas e permanentes do ecossistema”, explica.

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Mauro Pimentel/AFP
 



Desmatamento ilegal e grilagem de terra são os grandes vilões dessa história. Mapeamentos feitos por Inpe e Nasa (Agência Espacial Norte-americana) mostram que acima de 50% da área queimada na Amazônia é de mata derrubada, em processos de expansão da área de agropecuária, principalmente feita por grandes propriedades. No Pantanal, Gilmar Agassi conta que o clima seco e a falta de chuvas contribuíram para o atual cenário, mas a ação do homem, a falta de fiscalização e de uma equipe de combate a incêndios fixa, baseada no local, também pesou. 

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Mauro PIMENTEL / AFP
 

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CARL DE SOUZA / AFP
 

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Florian Plaucher/ AFP
 



Será possível mudar o rumo e evitar que a situação piore? Na opinião do ambientalista Renato Neves, o principal ponto é a fiscalização. “Um decreto do governo federal, publicado em julho, proibiu queimadas no Brasil por 120 dias. Mas sem uma fiscalização efetiva, não há efeito prático. E isso fica claro pelas ocorrências que estamos vendo. A fiscalização precisa ocorrer, aliada com um trabalho de inteligência e monitoramento para evitar o desmatamento”, sugere Renato. Para ele, ações sofridas por órgãos federais de defesa ambiental, como ICMBio e Ibama, também podem ter sido prejudiciais. “Se o trabalho dos fiscais está sendo tolhido, se as multas não estão sendo aplicadas e os dados de satélite são negados, fica praticamente impossível obter um resultado, no mínimo, satisfatório”, lamenta.

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Mauro PIMENTEL / AFP
 



Comandando o Conselho Nacional da Amazônia Legal, criado pelo governo federal para coordenar e acompanhar a implementação das políticas públicas relacionadas à Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão negou o chamado “desmonte” das agências de fiscalização ambiental. “Nós herdamos tanto o Ibama como o ICMBio com reduzido número de servidores. Com as questões orçamentárias que vivemos e a proibição de concursos, nós estamos buscando uma solução, e isso é uma tarefa que o Conselho da Amazônia irá buscar, para que essas agências tenham sua força de trabalho recompletadas”, afirmou.


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Pressão econômica

Investidores ameaçam retirar investimentos do Brasil, enquanto países europeus resistem em ratificar acordo com o Mercosul


No último mês de junho, um grupo de 29 grandes fundos internacionais de investimento, que gerenciam cerca de R$ 20 trilhões em recursos, fez um alerta ao Brasil. Em uma carta aberta enviada para embaixadas brasileiras de oito países – Estados Unidos, Reino Unido, França, Japão, Holanda, Noruega, Suécia e Dinamarca – os gigantes se mostraram preocupados com o aumento do desmatamento por aqui e apontaram uma “incerteza generalizada” sobre as condições de investimentos no país. Anteriormente, os europeus já haviam ameaçado tirar recursos investidos no Brasil devido aos problemas ambientais na Amazônia. Dias depois, executivos de 38 grandes empresas brasileiras e estrangeiras enviaram outra carta, desta vez ao vice-presidente Hamilton Mourão, pedindo medidas para combater o desmatamento no país. No texto, eles pontuaram a preocupação do grupo com a imagem negativa do Brasil no exterior por causa da política ambiental e defenderam medidas para conter o desmatamento, criando uma estratégia de desenvolvimento econômico sustentável. Segundo os empresários, “a percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o país”.

Novo Progresso, Pará
Novo Progresso, Pará | Carl de Souza/AFP
 



A imagem ruim do Brasil ameaça ainda o acordo de livre-comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, fechado em junho de 2019, após 20 anos de negociações. Para entrar em vigor, ele ainda depende da ratificação de todos os países envolvidos. Mas a UE espera um compromisso claro dos países do Mercosul, especialmente o Brasil, de que vão respeitar os pontos sobre desenvolvimento sustentável traçados no acordo comercial, antes que o pacto seja ratificado. A França teve a reação mais incisiva. No ano passado, o presidente Emmanuel Macron colocou como condição para a implementação do acordo um reforço da proteção ambiental no Brasil e ameaçou bloquear a ratificação do acordo por causa da política ambiental do governo de Jair Bolsonaro. Na ocasião, o francês também acusou o brasileiro de mentir sobre compromissos firmados na área ambiental apenas para garantir o sucesso do acordo.


Novo Progresso, Pará
Novo Progresso, Pará | Carl de Souza/AFP
 

Novo Progresso, Pará
Novo Progresso, Pará | Carl de Souza/AFP
 

Diante de ameaça de graves prejuízos econômicos, o governo federal precisou agir. “Vamos recuperar a estrutura de fiscalização na área ambiental. Hoje ela não tem pernas para combater ações ilegais de desmatamento”, afirmou o vice-presidente Hamilton Mourão, após uma videoconferência com investidores estrangeiros. 


 



Transpantaneira, Mato Grosso
Transpantaneira, Mato Grosso | Mauro Pimentel/AFP
 

Para o economista Carlos Meireles, o Brasil precisa definitivamente aproveitar os recursos naturais que possui de forma inteligente. “É consenso que, no mundo de hoje, a floresta brasileira vale mais em pé que derrubada. Temos uma série de tecnologias para produção sustentável e isso é, cada dia mais, valorizado em todo o mundo. Os governos precisam centralizar políticas públicas com foco nesse cenário moderno, aproveitando essa onda verde para se destacar e conseguir mais investimentos e apoios, não se isolar ou andar na contramão da realidade”, sugere. No entanto, após o discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, na última terça-feira, em que disse que “Brasil é vítima de uma campanha brutal de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”, que “a floresta amazônica é úmida e só pega fogo nas bordas” e os responsáveis pelas queimadas são “índios e caboclos”, entre outras afirmações questionadas por especialistas, Carlos diz ser cético em relação à mudanças. "Não houve uma sinalização de algo novo, diferente. Apenas mais do mesmo, o que é frustrante", analisa.

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