Cada região do Brasil tem suas peculiaridades: Salvador é destaque no Nordeste, arrastando multidões
Cada região do Brasil tem suas peculiaridades: Salvador é destaque no Nordeste, arrastando multidões | Foto: Shutterstock



Considerada a maior festa popular brasileira, o Carnaval tem diferentes formas de comemoração ao longo do País. Dos bonecos de Olinda ao desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro, passando pelos trios elétricos de Salvador e os blocos de rua em São Paulo, cada região tem suas peculiaridades. Mas o que faz com que uma festa única tenha características tão diversas?

Segundo o professor Rogério Baptistini, sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o Carnaval remonta há mais de três séculos, quando na Grécia antiga se cultuava Dionísio e depois, em Roma, Baco. Registros apontam que o Carnaval no Brasil tenha surgido no século 17, na forma do Entrudo, um tipo de manifestação popular que acompanhava o calendário cristão e antecedia a Quaresma. Basicamente era composto por escravos, que brincavam com água de cheiro. Embora vários autores apontem a origem como Pernambuco, ele destaca que outros colocam que no Rio de Janeiro já havia escravos que faziam o Entrudo.

"Pode ser que a origem seja mesmo em Pernambuco, devido à alta densidade populacional de escravos por causa do ciclo de açúcar. De qualquer forma, os brancos não participavam e achavam de mau gosto. Foi ao longo do século 19 e início do século 20 que o Carnaval passou a ficar mais perto daquilo que temos hoje. Ele continuou sendo celebrado pelos escravos, mas com a República passou a ser algo da elite, porém mais parecido com o de Veneza, com máscaras e figuras como Pierrô, Colombina e os Corsos", explica.

O Carnaval marginalizado dos ex-escravos foi ganhando força e se tornou as atuais escolas de samba no Rio de Janeiro, tidas como verdadeiras expressões populares. Baptistini conta que como a República tornou marginal elementos dos escravos como o samba e a capoeira, os expulsou dos casarões, alijando os pobres. Estes passaram a mostrar apreço por itens da corte, na figura de um imperador e sua filha, por isso a origem de diversos nomes de escolas de samba ligados à monarquia, como Império e Imperatriz. Surgem também os reis e rainhas nas escolas.

"Quanto às diferentes formas dessa manifestação, podemos atribuir à colonização e também ao fato de serem comunidades muito distantes entre si, sem comunicação, que era inexistente dentro do território. Isso foi produzindo culturas diferentes. Conta também o tipo de religiosidade do local e a população nativa", afirma o especialista.

Já no final do século 20 e início do século 21, um outro fenômeno começa a ocorrer, segundo Baptistini. Por conta da indústria cultural e os artistas globais, o Carnaval começa a se tornar uma coisa só, "uma festa pop".

"Quando olhamos no geral tudo se parece, é quase como se fosse uma festa onde os personagens são os mesmos atores, onde o povo de verdade fica cada vez mais distante. Os enredos das escolas não representam mais o povo, as rainhas de bateria não são membros da comunidade e sim atrizes e vão de escola em escola, depois aparecem no camarote no Nordeste", descreve.

Apesar do lado negativo disso, o professor aponta que é esperado esse tipo de mudança, em que a manifestação cultural se transforma em algo mais elitizado. Porém, é lamentável, na medida que as manifestações populares são também formas de preservação da memória e, neste sentido, estão perdendo sua identidade.

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