PODCAST| E se não existisse jornalismo?

Segundo episódio do Supernova aborda o tema do futuro do jornalismo em narrativa que mistura ficção e realidade

Alice Resende - Estagiária*
Alice Resende - Estagiária*

 

PODCAST| E se não existisse jornalismo?
 


Você saberia responder essa pergunta: “E se o jornalismo não existisse?”. O Supernova, podcast da Folha de Londrina discute em seu segundo episódio o passado, presente e futuro do jornalismo e dos brasileiros, de um jeito descontraído e bem humorado. Em conversas com especialistas e literatos constrói um hipotético futuro onde não existe imprensa.

O mote permeia uma realidade na qual,  seja em governos autoritários ou democracias, há pessoas, entidades e organizações que se empenham para descredibilizar e diminuir a importância do jornalismo para a sociedade. Em qualquer tempo informar sofre ataques de várias instâncias da sociedade à que serve. Em especial, na era das fake news e da informação desqualificada facilitada redes sociais e justificada pela gratuidade da web que abre um campo fértil para as notícias falsas. "Cada vez mais o consumidor está acostumado a ter acesso às informações sem pagar, mesmo quando tem os paywalls da vida, existem formas de burlar, esse é o problema, por que a informação deveria ser para todos, todos deveriam ter acesso à informação, só que, como o jornalismo vai se pagar, né?!”, comenta a futuróloga Lidia Zuin. O jornalista e pesquisador sobre fake news, Fábio Silveira nos conta que o corrobora para a crise de confiança entre sociedade e e o jornalismo é que a verdade é difícil de aceitar,

" factual e caótica, ela nem sempre dá a coerência, ela nem sempre traz as respostas com coerência e de forma redonda para as pessoas. Já a mentira, que é o oposto da verdade factual, ela traz toda coerência do mundo embalada em uma teoria da conspiração."

E essa realidade contemporânea não é exclusividade do século XXI, a jornalista Márcia Buzalaf pesquisa a ditadura militar no Brasil, e nos conta que naquele período crítico brasileira o fazer jornalismo era um ato de sobrevivência, os jornais independentes não sobreviviam à censura e falta de recursos.

“A gente pode dizer de uma maneira geral, que era um exercício diário, esse tentar fazer jornalismo, em um ambiente de censura institucionalizada pelo AI-5, principalmente.”

O Programa

O Supernova foi elaborado com pesquisas, entrevista e dados levantados pelas estudantes de jornalismo Alice Resende, Ana Julia Gabas e Stefany Zacheo que roterizaram, gravaram e editaram o episódio como trabalho de conclusão da primeira turma de estágio obrigatório ofertado pela Folha de Londrina em parceria com a UEL (Universidade Estadual de Londrina), durante o qual, por dois meses, puderam aprender na prática a rotina dos jornalistas, mesmo em teletrabalho. 

“Acho que a tarefa mais difícil foi selecionar tudo o que tínhamos produzido e colocar em um roteiro que fizesse sentido.” conta Ana Julia Gabas sobre o processo de criação desse podcast. Sem dúvidas esse desafio tornou ainda mais satisfatório o resultado final. Tudo isso feito com a ajuda da editora da Folha de Londrina Patricia Maria Alves, que nos instigou a pensar fora da caixa e fazer além do que tínhamos imaginado. A partir de uma simples ideia, que inicialmente era falar sobre a desinformação, nasceu um projeto com um assunto tão relevante: “E se não existisse jornalismo?”. 

Como relatou a estudante Stefany Zacheo: “Estar envolto em um ambiente que valoriza a informação e sua veracidade mostrou como é importante conhecer seu espaço e seu papel dentro da sociedade.”. Assim foi passar 200 horas de estágio obrigatório na Folha de Londrina. Conhecer de perto como é trabalhar em um jornal sério e comprometido com os fatos. Mesmo que não tivemos a chance de trabalhar presencialmente devido a pandemia, o aprendizado com certeza foi grande. Como completou Ana Julia Gabas: “ A oportunidade de adquirir experiência justamente nesse ambiente de redação, com deadline, produção de reportagem e de outros projetos, era algo que eu sempre quis conhecer no jornalismo.”. Que os próximos que façam o estágio obrigatório possam ter tantas oportunidades quanto tivemos. Foi uma jornada incrível e fechada com chave de ouro pela publicação do “E se não houvesse jornalismo?”.

A Realidade fantástica

O episódio especial do Supernova foi envolto em narrativas ficcionais - sobre realidades paralelas em um futuro onde o jornalismo não existe - criadas exclusivamente para a FOLHA, pelo escritor e jornalista Mateus Itiyama, o escritor e historiador L.R. Silva e pelo estudante de jornalismo Hiury Pereira, as vozes são dos jornalistas Celso Felizardo e Renata Cabreira, convidados especiais que se uniram ao Supernova para ilustrar que não importa quantas distopias existam sobre um mundo sem imprensa livre, nós nunca estaremos preparados para isso. E que o jornalismo é essencial para o bem estar social. 

(supervisão Patrícia Maria Alves/ editora)


LEIA OS CONTOS CRIADOS EXCLUSIVOS PARA O SUPERNOVA

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O país do ontem


Outra vez acabou a energia no esconderijo. Ventilador parado, calor infernal. 

Espero estar com meu filho em breve, sonho com isso todos os dias, é o que me faz seguir em frente. Espero que quando ele crescer, entenda os motivos porque deixei que o pai o levasse para longe de mim. 

Me chamem de Professora, não darei meu verdadeiro nome. Estou gravando isso e programando para que um bot invada a rede nacional amanhã, às 18h, quando já estarei longe daqui, e transmita tudo em rede nacional.

Sou uma pessoa de gostos simples. Eu gostaria de viver em uma dessas realidades alternativas dos escritores de ficção científica, sabe? Países de pessoas livres, sem miséria e com acesso à informação, educação e arte. Seria um sonho. Mas eu nasci no Brasil, um país que, há duzentos anos mais ou menos, anexou as nações circunvizinhas. Algumas conquistou usando de muita violência, sob o pretexto de serem nações comunistas, outras apenas com golpes de estado. Em seguida, fechou as fronteiras com o resto do mundo. Notícias de fora não chegam até nós e o que acontece aqui dentro não vai para fora das fronteiras. 

Nos tornamos uma ilha de ignorância.

Explico.

O Comando Geral das Américas, nome pomposo para um governo assassino, autoritário e cruel, controla tudo: escolas, hospitais, associações esportivas, universidades, portos, aeroportos e os meios de comunicação. Das grandes instituições, só os bancos continuam privados e fazem a festa na economia, corrompendo o alto escalão da política quando bem entendem, para o que bem querem. Fora isso, muitas igrejas têm tanto poder quanto os governos locais, censuram praticamente tudo de igual maneira e, sob a pecha da educação bíblica, ditam costumes e fazem passar leis absurdas.

Não temos educação política, nem ciências humanas, nem livros! Ah, como eu adoraria ler alguma coisa de Tolstói. Ouvi dizer que em Portugal há edições lindíssimas das obras dele. Mas o que resta para nós, povo sem educação e sem informação? Ensino sem humanidade e vida sem conhecimento é o que resta. Eu sou professora de matemática, uma das poucas coisas que ainda é possível estudar ou ensinar por aqui. E isso começou com o Comando primeiro censurando e depois extinguindo os meios de comunicação na primeira metade do século 21. Depois foi a vez das universidades e dos cursos de ciências humanas.

Você deve estar se perguntando como eu sei tudo isso, se não existe imprensa livre? 

Faço parte de uma rede clandestina de informação que sobrevive da boa vontade de algumas poucas pessoas que acreditam em um futuro de liberdade para nosso país, uma espécie de guerrilha digital. A comunicação propriamente dita é controlada pelo estado, TVs, rádios, sites, redes sociais. Estas últimas são basicamente vitrines de produtos, exposição pessoal e disputa de egos, onde você vê toda espécie de efemeridade. As TVs e as plataformas digitais transmitem programas interativos e jogos onde você finge que pode decidir o final de uma história ou o resultado de um reality show. Para se ter uma ideia, praticamente não existem mais profissionais de ciências humanas, como advogados ou cientistas políticos. Jornalistas? Nem os que o governo coloca nas suas redes oficiais são jornalistas de fato, são só porta-vozes. Somos uma nação de zero jornalistas, zero historiadores, zero filósofos, ou sociólogos. Somos o país do ontem, enquanto o resto do mundo livre progride e melhora.

Fora os canais de comunicação oficiais, há também os aplicativos de mensagens, cujo ambiente é constantemente monitorado pelo Comando com ajuda de inteligência artificial e algoritmos de rastreamento de termos usados nas conversas. É nesse ambiente que imperam a desinformação e a boataria, as famosas notícias falsas. Tudo para manter o povo sob as amarras, como se fosse um gado a pastar em verdes prados, sem ter do que reclamar.

Semana passada foram assassinados três estudantes que tinham a intenção, pasmem, de criar um jornal local. As forças armadas dão sumiço em qualquer indivíduo que se oponha minimamente à ideologia do Comando. Não há opositores ao regime, pois as notícias não são veiculadas, pelo simples fato de não haver meios de comunicação independentes, nem jornalistas. Não há quem reporte os fatos e isso é assustador. Tudo que temos é um amontoado de mentiras lidas por órgãos oficiais e ponto final. Ai de quem ousar investigar.

Miséria e doenças se disseminam sem ninguém para orientar ou informar as pessoas.

Eu gostaria tanto que o país tivesse uma imprensa livre, com informação e profissionais dedicados à verdade, denunciando corrupção e abusos de poder, tratando questões de saúde ou economia, como já foi outrora. Penso nas pessoas do passado, que podiam sair de casa, comprar um jornal e lê-lo livremente, enquanto saboreavam um café em meio ao matinal caos urbano das cafeterias. 

Embora a vida tenha me reservado outra realidade, sem todas essas liberdades, quero me ver longe deste mundo o quanto antes.

Estou em rota de fuga, com a ajuda dessa rede clandestina que já mencionei. É algo parecido com o que alguns alemães faziam para retirar judeus do país bem embaixo do nariz do Reich. Tomarei carona em um barco junto com outras pessoas determinadas a ir embora. Não vou contar nossa localização. Esse foi o acordo com meus camaradas, para que eu pudesse gravar e publicar esta mensagem, que será enviada para servidores fantasmas e transmitida em diversos pontos do país. 

Sairemos das águas nacionais, onde um navio nos aguarda. Não há como ficar e lutar, ninguém luta, o povo está manso e controlado. Eu diria até anestesiado com tanto entretenimento e frivolidades. A desinformação é o pão e circo do século 23, nascida e alimentada pelo grande boom de conteúdos duvidosos do século 21, cuja credibilidade ninguém pensava em questionar. Uma faca de dois gumes: excesso de informação que não informa nada. 

A quem quer um mundo diferente, só resta fugir para sobreviver. O Comando matou meu pai, que ousou se opor a ele, e eu vivi sob constante vigilância. 

Mas hoje isso vai mudar. Adeus Brasil. 

Filho, estou indo até você!

L. R. Silva – historiador e escritor. Autor de “Esta é a guerra do mundo”, disponível na Amazon.

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12 de abril de 2073,  RPDC


Hoje eu vi um pequeno balão flutuando sobre os vastos campos de soja que preenchem a planície da nossa grandiosa RPDC. Essa esfera vermelha que velejava o éter anil me lembrou das estórias contadas por meu avô. Em sessões familiares que pareciam secretas demais, o velho descrevia outros tempos quando informações de toda sorte chegavam a quem soubesse ler. Antes da Gloriosa Revolução Patriótica, bastava um dispositivo eletrônico qualquer para que se tivesse acesso a histórias da antiga república, dos estados extintos, de nações além-mar, de países além-florestas. Dizia o velho que não havia limite de tema para as histórias, contava-se sobre tudo e sobre todos, inclusive sobre personalidades de fora da Dinastia Jair.

Os contadores eram conhecidos como jornalistas, título aparentemente derivado da forma arcaica de imprimir em papel as tais histórias. As formas também se alteraram com o passar do tempo, relembrava o avô. Na antiga república começou com o papel, passou pelas ondas de rádio, televisão e culminou na miríade de aparelhos eletrônicos. No desenvolver da GRP, descobrimos que os ditos aparelhos eletrônicos eram a principal forma de espionagem dos Canalhas, assim nosso comandante conquistou nossa independência abolindo o uso de tais aparelhos espiões.  

Com o fim da espionagem, também veio a pique as histórias contadas pelos jornalistas. A atividade tentou resistir retrocedendo nas formas de contar. Tentaram a televisão, mas a revelação de que ela também portava chips espiões fez com que a intentona televisiva tivesse vida curta. Nos primeiros anos da RPDC, era possível captar algumas histórias por ondas de rádio próximo a zona desmilitarizada com o Brazil, lembrava o velho. Com o passar do tempo, as histórias por rádio foram se extinguindo conforme as transmissões eram interrompidas por hinos da Juventude Jairzista.  Os Canalhas tentaram também contar histórias através da impressão em papel. O avô dizia ter tido em mãos alguns exemplares que chegavam a RPDC escondidas em carregamentos do nióbio vindos do norte do Brazil. O contrabando de histórias também durou pouco, findou quando também findou-se qualquer relação comercial com os Canalhas.  

Os balões começaram a surgir no éter abaixo da redoma pouco tempo depois. Eram centenas por dia, talvez até milhares. Muitos eram abatidos ao cruzarem a floresta da zona desmilitarizada. Poucos chegavam ao interior das províncias fronteiriças.

Quando cuestionava meu avô sobre o que os balões carregavam, ele baixava ainda mais o tom e o volume da voz para sussurrar que os objetos voadores traziam a verdade. A tal verdade era, segundo o velho, que as proezas do líder e presidente eterno eram propagandas inventadas. A partir desse ponto, a mente já cansada do meu avô, ancião com longos 62 anos, começava a divagar e perder-se em absurdos. Ele loroteava que o patriarca da divina Disnastia era apenas um capitão do exército da antiga república, que ele não havia nascido nas montanhas da serra entre Grecaville e o zentralstaat de Heileges Katarina e que ele não havia derrotado os Canalhas com apenas a ajuda de um soldado e um cabo. As mentiras do velho também atingiam o sucessor do pai da nação, o Querido Líder Jair Renan. Meu avô garantia que ele não era o inventor do hambúrguer tampouco era um ícone mundial da moda. Os feitos esportivos e intelectuais extraordinários do Supremo Líder também seriam exagerados: a seleção da RPDC não teria goleado a seleção alemã por 7 a 1, todos os gols marcados pelo líder, inclusive o gol-contra, como gesto de grande benevolência. Jair Renan também não escrevera 1500 livros durante a faculdade e, ainda mais, não teria frequentado qualquer faculdade segundo as sandices do meu avô. 

A real verdade é que meu avô era apenas um velho triste. Preso na saudade e nas memórias de um tempo que não existiu. Sua mente era um reflexo do seu corpo definhado e ainda viciado em uma dieta de alimentos supérfluos além da soja. Lembro das longas batalhas na ceia noturna para convencer o velho que a ração de soja é um presente de Deus. Alimento perfeito do qual pode-se fazer quase tudo: hambúrguer, salada, bolos e o prato típico da RPDC, Sojastrudel. O velho sempre regateava inventado estórias absurdas de como a culinária antiga era rica, com pratos elaborados com 3, 4 ou até mais ingredientes. Sua mente cansada ignorava as benesses do grão sagrado para a nossa nutrição e para a pujante economia da RPDC. Sua sandice não lhe permitia saborear devidamente a ração. A cada colherada seus olhos embotados denunciavam onde sua mente vagava. Era nítido que sua cabeça navegava pelas histórias contadas por jornalistas, que seu pensamento flutuava como os balões por cima da zona desmilitarizada, que perdia seu juízo nas florestas que separam o território dos Canalhas da grandiosa nação da República Popular Democrática de Coritiba. 

Meu avô e o balão que hoje avistei simplesmente sumiram. Passaram pela minha vida e desapareceram. O fim do balão provavelmente foi instantâneo, é certo que estourou ao colidir com a grande redoma. A desaparição do meu avô foi um processo lento. O seu ocaso era diário, todo dia parecia estar mais longe de nós, mais ausente, um pouco mais morto que no dia anterior. Um dia ele deixou de estar mais ausente e ficou somente ausente. 

Decidi escrever esse diário porque talvez discorde do que foi-me catequizado na ECM. Talvez, não sei. Talvez a vida seja mais complexa do que aparenta. Tudo é tão certo e tão claro que me sinto culpado de me surpreender tantas cuestões insistem em pousar na minha cabeça. Qual fim teria levado o meu avô? Por que ele inventava tantas mentiras? Quais eram os sabores que ele tanto falava? O que é golden-shower? 

Não consigo me furtar dessas cuestões. Atingem-me como a chuva anual de março atinge os campos de soja de nossa nação. Minha esperança talvez esteja em algum balão que algum dia vai cruzar esse céu. 

Mateus Itiyama, jornalista e escritor em Londrina 

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