PENSAR MAIS
Foi o grande Ariano Suassuna quem contou: um sertanejo da terra dele era um grande contador de estórias. E juntava gente pra ouvir. E era cada estória comprida, sempre tendo o tal fulano como protagonista, em cenas de arrepiar os pelos, secar a boca. Um dia, no meio de uma dessas narrativas, um cidadão todo empoado interrompeu o contador e disse: "não foi assim! Eu tive lá e não foi desse jeito!" O povo emudeceu. Não se ouvia nada, só o piscar dos olhos voltados para o chão. Um constrangimento de dar dó. O orador então, passados esses momentos, disse, alegremente: "gente, que é isso! Pra que essas caras? O moço aí tem razão! Mas agora escutem: vocês querem ouvir a verdade dele ou continuar a ouvir as minhas mentiras?" E a conversa continuou noite adentro...
Essa outra, quem contou foi o escritor chileno Hernán Rivera Letelier, que retratou a vida difícil dos mineiros do deserto do Atacama, no romance "a contadora de filmes", sobre uma família pobre que amava o cinema, mas que não tinha dinheiro para que todos vissem, e então o pai mandou um filho por vez para ver quem melhor contava filmes. E a menina Maria Margarita tornou-se a contadora oficial, porque não contava o que viu, mas vivia o que contava. A certa altura a personagem comenta: "contar um filme é como contar um sonho. Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme."
A mentira sempre figurou entre os pecados, os desvios, as demonstrações de falta de caráter, de educação, de "berço". Uma pessoa "de bem" não mente. Os pais ensinam, concentrados, sóbrios, tesos, essa lição fundamental: "não minta nunca, meu filho! Kant, na sua Metafísica dos Costumes, afirmava que mentir não é uma possibilidade moral, nem que isso implique a vida de outrem. Imagine então um kantiano na Segunda Guerra, com um judeu escondido atrás do armário e um agente da Gestapo batendo na porta e perguntando se há algum judeu escondido ali?
Por aqui, os negros escravos mentiram para os seus senhores, os índios para os jesuítas, os peões da obra para seus patrões, os filhos para seus pais irados, as esposas para seus maridos bêbados, os amigos para os que perdiam o emprego, a saúde, a esperança. No sertão, mentia-se para embelezar uma história, na cidade, para arrancar um sorriso ou esticar uma conversa. Essa mentira é a que chamamos de "mentirinha".
A origem do Dia da Mentira foi algo assim, uma zoeira. A versão mais aceita ou simplesmente a melhor estória conta que a reforma do calendário feita pelos padres e reis, no século XVI, alterava a data de comemoração do Ano Novo, de 1° de abril para 1° de janeiro. E como o povo simples demora mais para saber dessas novidades, muitos continuavam a festejar na data "errada". Na Europa, até hoje, esse dia é chamado de "o dia dos tolos". Tolos, mas alegres, como o sertanejo do Ariano, como a filha dos mineiros do Chile, como a boa alma que mentiu para o nazista e salvou uma vida. Viva o Dia da Mentira!
Daniel Medeiros, doutor em Educação Histórica pela Universidade Federal do Paraná e professor no Curso Positivo





