O Carnaval brasileiro faz parte da história do País, existe há décadas. No caso do Carnaval paulistano por mim estudado, constatamos que nos últimos anos os blocos carnavalescos ganharam força em decorrência da necessidade da população paulistana por momentos de expressão e manifestação de relações sociais centradas na espontaneidade e na alegria, quando então é possível voltar e se apropriar das ruas do bairro, das praças públicas e de outros equipamentos públicos.

Após a década de 1990 a cidade de São Paulo tem passado por uma onda revitalizadora configurada por movimentos de samba que buscam resgatar as raízes do samba e propiciar um reencontro com os sambistas do passado, que deixaram sua contribuição em músicas muitas vezes ainda desconhecidas pelos próprios sambistas atuais.

Algo que me chama a atenção é que o samba apresenta uma dimensão mais ampla que a do Carnaval, e que embora a festa carnavalesca tenha sido envolvida pelo espetáculo televisivo que tem como palco o Sambódromo, ela nunca saiu dos bairros e hoje costura novas relações sociais a partir de uma movimentação própria que se dá nos territórios do samba, motivada pelos blocos carnavalescos, rodas e movimentos de samba; além dos eventos que ocorrem ao longo do ano nas quadras das escolas de samba.

Em minha pesquisa recente, constatei que o Carnaval brasileiro tem influenciado o Carnaval em outros países. No Japão, por exemplo, a festa tem carros alegóricos, samba cantado em português, ala de baianas e até passistas que sambam e usam adereços trazidos do Brasil.

A abordagem da alegria e do prazer na música popular e com a atenção mais destacada às imagens de Brasil solicita a definição da utopia que vai referendá-la imageticamente. Essa pré-sensibilização acerca do viés positivo do País envolve elementos relacionados ao carnaval, ao futebol, à música, à capoeira, entre outros.

Nota-se dentro e fora do Brasil uma crença no ideário de que a identidade cultural brasileira é atravessada pelas práticas festivas e, como são representações caricaturais vigorosas, expandem-se abrangendo populações de outros países, que procuram interiorizar certos aspectos da cultura brasileira.

Nas festas carnavalescas europeias encontramos com frequência a bandeira nacional brasileira, além da visualização de um dos elementos usuais nos desfiles carnavalescos de rua no Brasil: a presença do mestre-sala e da porta-bandeira com o seu traje característico, que no caso europeu denota alterações em relação ao que se verifica nos desfiles brasileiros.

Além da dimensão da vestimenta, também as dimensões da gestualidade, dos efeitos sonoros (há dezenas de batucadas, grupos de europeus que tocam ritmos brasileiros: maracatu, samba-reggae ou samba) e dos carros alegóricos. Tudo isso evidencia as renovações constantes que atingem as festas carnavalescas em território europeu.

Ainda que seja um fenômeno novo e complexo, a influência do imaginário utópico brasileiro nas práticas festivas europeias tem gerado modelos alternativos de festas, distinguidas por práticas culturais reterritorializadas que são operadas por utopias democráticas que toleram o jogo identitário, e são motivadas pela expansão duradoura e irreversível de uma diversidade cultural transnacional.

Alessandro Dozena, professor e geógrafo - autor de "A Geografia do Samba na Cidade de São Paulo" (Editora PoliSaber)

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