PENSAR MAIS
O título da coleção é "El Dia que me Quieras". Ao contrário do que muita gente pode pensar, não vem da célebre música de Gardel. Peguei o nome emprestado da loja que o estilista Ney Galvão abriu em Itabuna, no início dos anos 70.
Um belo dia, Ney e sua irmã resolveram criar as roupas que eles queriam usar e não encontravam para comprar. A solução foi abrir uma loja, que rapidamente fez sucesso e virou ponto obrigatório para os travestis do Sul da Bahia. Essa clientela chegava a sair de cidades a um raio de mil quilômetros de distância para comprar botas, vestidos e perucas da El Dia Que Me Quieras.
Nessa mesma época, Ney Galvão, filho de magistrados, vivia numa casa cuja mesa sentavam juízes, advogados, pessoas da alta sociedade, travestis, gays e lésbicas. Essa história me faz imaginar uma época mais tolerante, mais empática, diferente do que estamos vivendo hoje. O curioso foi que Ney só veio a conhecer o preconceito quando saiu de sua cidade interiorana para se mudar para a capital Salvador.
O preconceito que existia e que ainda existe, mata. No Brasil, a população trans é diariamente dizimada. Segundo a ONG Trans Gender Europe, somos o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo.
Se o feminino representa aquilo que é desvalorizado socialmente, ainda mais desvalorizado é o homem que se identifica com o feminino, desafiando a crença da maioria, segundo a qual a identidade de gênero é uma expressão de cromossomos e hormônios. A violência insurge contra quem não se encaixa nessa representação do senso comum.
Durante toda a vida, uma pessoa trans luta para ser reconhecida por um gênero diferente daquele de nascimento. Em nossas cidades, a essas pessoas são negados os registros de nome e até o banheiro público com o qual se identificam. O mesmo acontece na escola, no trabalho e em todas as frentes sociais.
E o que isso tem a ver com um desfile na São Paulo Fashion Week? A moda tem o poder não só de ver com poesia em terreno árido, como também de lançar luz sobre a face da roupa e, nela, encontrar uma forma de libertação. Se aqui estamos falando do corpo como prisão do desejo, a roupa funciona como chave. Não raro, transgêneros se recordam como um momento libertador aquele em que, finalmente, usaram o primeiro vestido.
Essa é uma coleção exclusivamente composta pelo mesmo vestido. De épocas glamorosas, das décadas de 20, 30 e 40. Poderiam ser roupas de bonecas de papel, como aquelas que encantavam crianças de antigamente. Mas a história deste desfile não está na roupa. Está em quem as veste.
Neste universo complexo de gênero, identificação, corpo e desejo, a roupa é uma época. Para todos, aliás, e sempre, a roupa deveria ser um vetor de apropriação do ser. Ela é capaz de libertar, como mostra a memória do simples uso da primeira saia, do primeiro salto, do primeiro batom e de outros códigos que se alinhavam direta e inexplicavelmente com o ser. Esse ser que muita gente chama de alma.
Ronaldo Fraga
estilista, de Belo Horizonte (MG), que apresentou a coleção El dia que me Quieras no Theatro São Pedro, em São Paulo. O texto acima foi lido por ele pouco antes das 29 modelos, todas mulheres transexuais, desfilarem





