PENSAR MAIS
Ariano Suassuna, grande estudioso e defensor da cultura popular brasileira era avesso às influências da língua e cultura estrangeiras. Ele argumentava que somos um país cheio de manifestações culturais ricas e plenas de significados e uma língua igualmente rica. Acrescentava que, de uma maneira ou de outra, éramos obcecados pelo ideal cultural do primeiro mundo. A começar pela língua, sabemos que ela é completa e farta em conteúdos, igualmente representativos, diz tudo o que precisamos saber, às vezes numa única palavra. Do mesmo modo somos um país repleto de lendas, mitos, narrativas orais e cheias de significados, histórias tão bonitas que torna-se supérfluo "importar" o que quer que seja de outras culturas. Dia 31 de outubro convencionou-se comemorar o Dia das Bruxas - dia muito festejado nos países de língua inglesa, sobretudo nos Estados Unidos, data que consiste em fantasias, coleta de doces pelas crianças na vizinhança, entre outras coisas. É uma festa que remonta há mais de 2000 anos, de origem celta, trazida aos Estados Unidos pelos imigrantes irlandeses. O seu significado original de louvor às boas colheitas e de cunho religioso perdeu-se no tempo e hoje é uma festividade comercial, como tantas outras. As crianças utilizam como símbolos caveiras, monstros, cemitérios, casas mal assombradas, aranhas, etc. Contrapondo-se ao dia conhecido como Halloween, criou-se em 2005 o Dia do Saci como símbolo de nossa identidade, também comemorado no dia 31 de outubro. O saci tem as suas origens na Região das Missões ao sul do Brasil, mas espalhou-se por todo o País. Usa um barrete vermelho, herança portuguesa, que possui poderes mágicos. Tem vários nomes: saci-pererê,saci-cererê, matimpererê, matita perê,saci-trique. Câmara Cascudo considera o saci uma de nossas histórias de folclore das mais conhecidas e estudadas. Faz parte de um sem número de escritos de autores de nossa literatura. Monteiro Lobato em 1917 fez uma pesquisa sobre o mito, dirigindo-se aos leitores do jornal O Estado de São Paulo que resultou no seu livro "O Saci-Pererê: resultado de um inquérito". Em 1958 Ziraldo cria "A turma do Pererê", quadrinho lançado em periódico da época, que dura até 1964, época em que a ditadura proibiu a sua circulação. O Pererê, dito Saci, é uma das melhores representações da história oral de nossa cultura. É um ente que transita entre o bem e o mal, faz brincadeiras inesperadas como trocar o sal pelo açúcar nas cozinhas que frequenta, sempre em busca de uma travessura.. É o que alimenta o Halloween, pedir doces ou trocá-los por uma travessura. Considero tarefa complicada estabelecer uma tradição, já que para que ela exista é necessário um tempo para sua fixação. Os hábitos e costumes que são parte de uma comunidade, com o tempo se perpetuam enquanto cultura e aí temos a tradição. Pensar o saci como o mito que possa representar ou substituir aquele dos países anglófonos é sobremaneira difícil. Sobram questões: não poderíamos dispensar a comemoração? Ela é mesmo necessária? Por quê? Pensar a data "Dia do Saci" mostrando a importância desse mito com tudo o que a cultura popular propõe: ou seja adotar, transformar as realidades do seu dia a dia em atitudes repletas de significados que é o motor da cultura, demanda tempo, reflexões. Os mitos, as lendas, as histórias formam-se no coração da sociedade; é ela que lhes dá credibilidade e as molda de acordo com as necessidades reais no mundo real.
Raimunda de Brito Batista
É professora aposentada do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina. Tem mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), em Literatura Brasileira, e pós-doutorado em Literatura de Cordel na Paris III (Sorbonne).





