Há mais de 2.500 anos, na fronteira da Índia com o Nepal, nasceu Sidarta Gautama, o Buddha. A palavra Buddha significa "aquele que despertou". E Sidarta despertou do quê? Despertou da grande ilusão de que somos separados dos outros e de todo o resto. Sentir-se um ser separado é a fonte de todos os males e de todas as guerras, é a partir dessa ideia que nasce o egoísmo, a indiferença e a falta de compaixão.
Atualmente, vivemos uma crise de compaixão. A crise de compaixão pode ser percebida facilmente, basta prestar atenção. Temos aqui alguns exemplos: é frequente nas redes sociais, que deveriam servir à união das pessoas, instalarem-se verdadeiras trincheiras de batalha onde muitos, "escondidos" atrás dos seus teclados e sentindo-se empoderados pela sensação do quase anonimato, ofendem e ferem outros tantos, só porque pensam diferente; pode ser vista na política, em que interesses individuais se sobrepõem aos interesses coletivos; pode ser vista ainda no coração daquele que estaciona na vaga de um idoso, daquele que disfere xingamentos no trânsito e também no coração daquele que fura a fila do banco. A crise de compaixão guarda estreita relação com a famosa "lei de Gerson" e levar vantagem em tudo acaba sendo, muitas vezes, mais importante do que o bem-estar do próximo e do bem comum.
Felizmente, na contramão dessa ideia, um movimento vem ganhando força, seu mote bem que poderia ser "gentileza gera gentileza", o slogan criado por José Datrino, o Profeta Gentileza. Sim, gentileza gera gentileza, mas para ser gentil é preciso ser compassivo e para ser compassivo é preciso mudar! Falo de uma transformação profunda, falo de transformar coração e mente, uma mudança que só é possível quando ocorre de dentro para fora. Quando olhamos nos olhos de uma criança, de um idoso, de uma pessoa enferma e vemos a nós mesmos, a nossa essência.
O Buddha disse certa vez: "pratique o bem, evite o mal, seja senhor de sua mente". Só é senhor da própria mente aquele que consegue enxergar no outro a sua própria verdade, aquele que tem sensibilidade suficiente para perceber que somos todos um. Somos a vida do planeta e do universo inteiro.

Marcos Vinícius Fernandes Miranda é engenheiro eletricista, engenheiro de Segurança do Trabalho e mestre em Educação. É, também, monge budista e responsável pela Comunidade Zen Budista de Londrina – Daissen-Ji

"Dois monges estavam perdidos no deserto. Eles estavam morrendo de inanição e sede. Finalmente, eles avistaram um alto muro. Do outro lado eles podiam ouvir o som de quedas d’água e pássaros cantando. Acima, eles podiam ver os galhos de uma árvore frutífera atravessando e pendendo sobre o muro. Seus frutos pareciam deliciosos. Um dos monges subiu o muro e desapareceu no outro lado. O outro, em vez disso, saciou sua fome com as frutas que sobressaíam da árvore ali mesmo, e retornou ao deserto para ajudar outros perdidos a encontrar o caminho para o oásis." (Conto Zen)
mockup