Sei que nem todas as crianças têm uma infância feliz. Eu, apesar de ter sofrido bullying por ser muito tímida, fui privilegiada. Tive uma infância com poucos recursos financeiros, porém rica, riquíssima de palavras. Preciso dizer que sempre fui colecionadora de palavras e mais tarde passei a colecionar caixas de palavras (mas essa é uma conversa para daqui a pouco!).
Nasci na Rua Amazonas, na Vila Casoni. Portanto, sou uma legítima "pé-vermelho". Morei na Rua Jaguaribe, na Vila Nova, quando o asfalto ainda não tinha chegado lá. Nos terrenos descampados, ciganos montavam acampamentos e utilizavam um linguajar desconhecido.
Vivi rodeada de palavras oralizadas. Que tipo de palavras? Todos os tipos. Minha mãe fazia tricô, lia revista de fotonovelas e contava histórias de forma encantadora. Meu pai, pedalando a sua bicicleta, me buscava na escola e falava de cobras, onças, morcegos, de sua infância quando morava no sítio no interior de São Paulo.
Meu avô Nicolau, mineiro, vendedor de bilhetes de loteria, tinha um humor contagiante. Ao entrar na circular, os passageiros diziam: lá vem o homem que desce na Rua Belém.
Minha avó Barbara brincava com parlendas (só depois de adulta que aprendi essa palavra). Ela fazia os netos, um a um, beliscarem as costas da mão do outro, deixando as mãos como uma pirâmide. Então balançava dizendo: "uma duas argolinha, finca o pé na pampolinha. O rapaz que jogo faz? Faz o jogo do Japão, Arretira o seu pezinho que lá vai um beliscão!"
Com nove anos, fui morar em Rolândia e me encantava quando ouvia, mesmo que sem compreender as palavras, os alemães de pernas longas andando de bicicletas pra lá e pra cá, falando entre si.
Foi nessa época que a nona foi morar em casa e aí sim foi uma "palavraiada". Ela misturava rezas em latim e um linguajar macarrônico do interior paulista. Com a nona, aprendi palavras como maledeto, carcamano, mangia que te fa bene,
Nesses espaços, convivi com uma diversidade enorme de palavras. Só hoje tenho noção de quanto influenciaram na escolha da minha profissão. Sou bibliotecária desde 1981, quando comecei a colecionar caixas de palavras, os livros. Passei a comprá-los compulsivamente e a colecioná-los. Não há outro produto que eu compre com tanto amor e prazer quanto um livro infantil. Preciso saciar o desejo de conhecer e me alimentar de palavras.
O livro infantil é uma possibilidade de diálogo. Contém palavras congeladas na escrita, mas carregadas de uma oralidade pulsante e que é percebida com muita facilidade pelas crianças.
Hoje, o livro não é apenas de papel. Sei quanto os dispositivos encantam as novas gerações. Mas, sendo ele digital, precisa manter os elementos psicológicos do texto impresso para que leve o leitor-criança a enfrentar seus sofrimentos (porque há sofrimento na infância). Sendo assim, as histórias, em especial os contos de fadas, são alternativas ficcionais saudáveis.
Caro leitor: dê caixa de palavras de presente às crianças. Nunca deixe de ler e contar histórias, seja qual for a idade do seu leitor-ouvinte. Seja feliz lendo e ouvindo literatura!

Sueli Bortolin, Bibliotecária e docente do departamento de Ciência da Informação/UEL

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