PENSAR MAIS
Os jovens que acompanho atualmente (minha filha adolescente, seu grupo de amigos e pacientes de consultório) estão reservando o namoro como uma quarta etapa do relacionamento. Eles primeiro estão "trocando uma ideia", depois "ficando", "ficando sério" e então, namorando. São etapas de aproximação e conhecimento, o que me parece muito saudável. Parece-me que a agilidade virtual é contrabalançada por uma aproximação gradual no mundo off-line, real. Dentro desta estrutura, monogamia passa a ser exigida apenas na fase "ficando sério" e este comportamento vale para as redes sociais inclusive.
O que vejo de interessante é que, dentro deste contexto de elevada interconexão, somos obrigados a ser coerentes e transparentes. As possibilidades que existiam na minha juventude (anos 1980 1990) relativas a esconder relacionamentos paralelos, atualmente, parecem estar seriamente comprometidas. Estamos muito mais expostos e, por isso, a coerência passa a ser fortemente exigida em termos de comportamento. Regras claras, jogo limpo, sem dúvida.
Outro fator interessante é que neste critério de transparência a diversidade também é respeitada enquanto tal e as relações amorosas são discutidas como fenômenos no relacionamento humano, independentemente das orientações sexuais ou raciais no processo. O que não mudou: o frio na barriga, a insegurança romântica dos primeiros encontros, a ansiedade do primeiro beijo, o medo da primeira relação sexual, as dificuldades em se falar sobre impotência, ejaculação precoce, baixa autoestima corporal, ciúmes excessivo, patologias e também o desejo de conhecer alguém especial.
Acredito que a geração Millenium lida com os aplicativos e as redes sociais com muita naturalidade. E os relacionamentos, dentro deste contexto, seguem esta linha também. Penso que talvez as gerações y e z tenham maiores dificuldades e utilizem com menos sabedoria a exposição que a internet nos traz, pois são (somos) pessoas que ainda olham analogicamente para um mundo que está digital e totalmente interconectado. Como esta geração ainda está presente nas organizações e ocupando posições de liderança, ainda temos um longo caminho a percorrer em termos sociais no que se refere a um bom uso do cyber world.
A forma de usar aplicativos e redes para questões relativas a namoro, romance e relacionamentos afetivos segue exatamente na mesma proporção que temos de saúde emocional ou não e, sob este ponto de vista, não há nada de novo! Foi assim com o rádio no tempo de nossos avós e bisavós, foi assim com a sessão da tarde da Globo, foi assim com o Orkut, será assim com o cibernético. Cada geração tem seu desafio, tem sua virtude e sempre teremos que lidar com esta polaridade, já que o antagonismo faz parte de sermos humanos.
Salma Cortez, psicóloga





