Há mais de quatro milênios, famílias de pastores na região do Sinai, no Egito, se reuniam no início da primavera para celebrar a vida da família e pedir pela fecundidade dos rebanhos. Na festa, que durava a noite toda de lua cheia, um carneiro novo era imolado. A carne assada era servida à família, enquanto o sangue era usado para marcar a tenda.
Quando esses grupos de pastores se uniram com outros grupos escapados da opressão do faraó, os rituais do sangue foram associados à experiência de libertação, e a festa do grupo pastoril tornou-se festa de libertação do povo de Israel. O livro do Êxodo conserva os elementos desse rito pastoril, unidos à memória da saída do Egito:
"Este mês (primeiro da primavera) será para vós o princípio dos meses; será o primeiro mês do ano. Aos dez deste mês cada um tomará para si um cordeiro por família. O cordeiro será escolhido na proporção que cada um puder comer. O cordeiro será macho, sem defeito e de um ano. Tomarão do seu sangue e pô-lo-ão sobre os dois marcos e a travessa da porta. Naquela noite, comerão a carne assada no fogo; com pães ázimos e ervas amargas. É assim que devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias nos pés e vara na mão, comê-lo-eis às pressas: é uma páscoa para Javé. (Ex. 12 2-12)"
Mais tarde, a festa ganhou outros elementos e se tornou a principal festa do povo judeu: a Páscoa. Até hoje é celebrada pelas famílias judaicas, mesmo as que vivem fora da terra de Israel. Na época de Jesus não era diferente, e é possível imaginar que, desde menino, ele participava, no mês de nisan, da celebração de pessah. Fez o mesmo com seus discípulos.

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Na última vez, Jesus estava em Jerusalém e, sabendo que sua vida estava ameaçada, dá a essa festa da Páscoa novo significado. Os quatro evangelistas nos contam esse momento fundamental da experiência cristã:
Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu, dizendo: "Tomai, isto é o meu corpo". Depois, pegou o cálice, deu graças, passou-o a eles, e todos beberam. E disse-lhes: "Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos. Em verdade, não beberei mais do fruto da videira até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus". (Marcos 14,22-25)
Para os cristãos, a Páscoa tornou-se a passagem de Jesus da morte para a sua ressurreição. Não somente dele, mas de todos os homens e mulheres, antes e depois de sua vinda. Por isso o credo cristão, usando uma linguagem da época, diz que Jesus desceu à mansão dos mortos e resgatou todos os mortos. Um ícone oriental representa Jesus ressuscitado tomando Adão e Eva pelo pulso, enquanto outros personagens do Antigo Testamento estão em pé, já salvos.
O evento pascal, portanto, não exclui ninguém, seu tempo é o kairós (tempo da graça de Deus), não o tempo do relógio (chronos). A festa da Páscoa vai além da fé judaica e cristã. Alcança todos os que acreditam na vida e a promovem em todos os seus significados.
- João Luis Fedel Gonçalves (coordenador do Laboratório de Pesquisas do Instituto Ciência e Fé e Memorial Marista) e Angelo Ricordi (pesquisador no Memorial Marista da Província Brasil Centro-Sul)

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