Palhaçada de mãe
Dor e riso maternos se encontram nos corredores de um hospital
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de maio de 2019
Dor e riso maternos se encontram nos corredores de um hospital
Laís Taine - Grupo Folha 

Brincar com o riso quando espera-se choro já é por si só um ato louvável, mas quando os olhares maternos se entrecruzam e se comunicam chega-se a nível espiritual. Esse encontro se dá nos corredores frios de um hospital. Uma mãe sofre por não conseguir tomar para si as dores do filho adoentado, e chora. Outra mãe, caracterizada como palhaça, estuda o momento, faz das tripas coração, e ri. Porque se o riso é contagioso, não há nada melhor que uma mãe rindo para a outra para oferecer o ombro empático em momentos difíceis, ainda mais quando se trata da prole. É desses encontros sublimes que se forma, de maneira despretensiosa, a fabulosa rede secreta de apoio entre mulheres que se entendem e se entregam para a dor da outra.
Aneliza Paiva, 34, é palhaça e atua nos hospitais com a equipe do Plantão Sorriso há 15 anos. Lá, o trabalho é árduo: fazer sorrir quem não enxerga motivos para tal. Depois de se tornar mãe, há quatro anos, o trabalho ficou um pouco mais intenso. “Logo depois que eu voltei da licença maternidade foi muito difícil, eu tinha dificuldade de ver essas crianças. Em alguns momentos precisei sair da UTI (Unidade de Terapia Intensiva), porque eu não estava conseguindo lidar com esse impacto de brincar com uma criança saudável em casa e tantas mães e crianças no hospital”, relata.
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Aos poucos, foi usando esse sentimento para se aprofundar e se aperfeiçoar ao oferecer seu ombro de mãe. “Parece que a gente tem uma rede de mães que se entende, eu comecei a olhar a dor de uma forma diferente”, conta. Oferecer um abraço e tentar usar a experiência materna abriu até o leque de piadas. “De perguntar se a criança também faz cocô até o pescoço, isso é uma experiência que as mães passam e elas riem”, brinca.
Se a maternidade afetou de forma positiva o trabalho, o ofício também fez refletir a educação em casa. “Muitas vezes eu me pego muito disponível no trabalho para as crianças e chego em casa querendo resolver um monte de coisas sem olhar para a minha filha”, se critica. Questões que envolvem a eterna culpa materna daquelas que precisam e querem trabalhar, porém não sem suas autocríticas congelantes. Paiva diminuiu a carga horária do trabalho para poder ficar mais com Marina. “Agora que ela está com 4 anos, estou voltando, mas meio período do meu dia estou sempre com ela”, afirma.
A dor de voltar a trabalhar com a bebê pequena em casa (cinco meses) existiu, mas nada comparável em ter que deixá-la na escola aos 2. “Ela ficava com meu marido, mas pouco antes de completar 2 anos ela foi para a escola. Eu chorei como uma criança, fiquei muito emocionada com o crescimento dela”, ri Paiva, com a sua forma de expressão na ocasião.
Experiências diárias que a fortalecem para poder executar seu trabalho melhor. “Eu sinto que as pessoas percebem que eu tenho um olhar diferente, de cuidado, mas não é nada forçado, é natural, um olhar de afeto, de cumplicidade. A mãe vem contar, conversar, já aconteceu de o filho dormir e ela desabafar. Lembro de encontrar uma chorando em um momento muito difícil e a gente ofereceu esse abraço, afeto, tentando entender o que ela e a família estavam sentindo”, conta. Nesses momentos é que a rede se fortalece e dá espaço para o envolvimento de uma mãe disposta a ouvir a outra.


