As farmácias de Londrina já começaram a vender o Olire, a primeira caneta de emagrecimento produzida integralmente no Brasil.

Pesquisa da FOLHA com farmácias na cidade mostra que o medicamento está sendo vendido a R$ 312,98 a unidade e R$760,61, um kit com três canetas, mas preços podem variar de uma loja para outra.

Fabricado pela EMS, o medicamento tem como princípio ativo a liraglutida (liraglutida) e foi lançado em agosto de 2024 após aprovação da Anvisa. A proposta da empresa é ampliar o acesso a esse tipo de tratamento, oferecendo uma alternativa mais barata em comparação às versões importadas.

Os valores revelam uma diferença significativa. Enquanto o Olire custa em média menos de R$ 320 por unidade, o Ozempic (semaglutida) é encontrado nas farmácias brasileiras por valores entre R$ 1.000 e R$ 1.300. Já o Mounjaro (tirzepatida), considerado a versão mais moderna dessa classe de medicamentos, pode ultrapassar os R$ 2.300 fora dos programas de desconto.

O surgimento de opções nacionais como o Olire acompanha uma tendência global. Em poucos anos, os medicamentos que imitam hormônios intestinais — os chamados agonistas de GLP-1 e, mais recentemente, as combinações de GLP-1 e GIP — deixaram de ser restritos a prescrições específicas e se tornaram tema de farmácia, consultório, redes sociais e até conversas de família.

Por trás da popularidade, há resultados clínicos impactantes, como a redução sustentada de peso e benefícios cardiovasculares já comprovados em estudos com semaglutida e tirzepatida, mas também limitações importantes, como efeitos colaterais gastrointestinais e a necessidade de uso contínuo.

Nesse cenário, o Olire representa um passo importante para o mercado brasileiro: mesmo sem a mesma potência de moléculas mais recentes, como a semaglutida ou a tirzepatida, ele entrega resultados já conhecidos dos estudos com liraglutida e amplia o acesso a terapias antes restritas a quem podia pagar caro por produtos importados.

Febre dos remédios antiobesidade: o que já está provado (e o que ainda falta saber)

Por que esta trend importa: em poucos anos, os medicamentos que imitam hormônios intestinais — os chamados agonistas de GLP-1 e a geração “combo” (GLP-1/GIP) — saíram do nicho médico e viraram assunto de farmácia, consultório, redes sociais e conversas de família. Por trás do hype, há ciência robusta — e limites claros — que ajudam a separar fato de exagero.

O que é essa classe de medicamentos?

São fármacos injetáveis ou orais que amplificam sinais hormonais naturais liberados após a refeição. Eles diminuem o apetite, retardam o esvaziamento gástrico e melhoram o controle glicêmico. Na prática, facilitam comer menos e, com isso, perder peso — efeito que vem acompanhado de impactos metabólicos amplos.

O que já está bem estabelecido na literatura?

1) Primeira geração no Brasil: a liraglutida, disponível aqui no Olire (EMS, lançado em agosto de 2024 após aprovação da Anvisa), demonstrou em estudos internacionais perdas médias de 5% a 8% do peso em 56 semanas. Em Londrina, a caneta já é vendida a partir de R$ 307,26 por unidade ou R$ 760,61 no kit com três unidades, bem abaixo dos preços dos importados.

2) Redução sustentada de peso (GLP-1): em adultos com obesidade sem diabetes, a semaglutida semanal levou a perda média de 14,9% do peso em 68 semanas, muito acima do placebo com mudança de estilo de vida. O estudo STEP-1 foi publicado no New England Journal of Medicine em 2021.

2) Redução sustentada (GLP-1/GIP): o tirzepatida, que combina alvos de GLP-1 e GIP, alcançou quedas médias de \~20% do peso em 72 semanas. Resultados publicados no NEJM em 2022 (SURMOUNT-1) e no estudo comparativo com semaglutida em 2025 confirmaram a superioridade.

3) Coração em foco: o ensaio SELECT demonstrou que semaglutida 2,4 mg reduziu em 20% o risco combinado de morte cardiovascular, infarto e AVC em pessoas com sobrepeso/obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mesmo sem diabetes. Publicado no NEJM em 2023 e atualizado em 2024.

4) Sono e respiração: em 2024, dois ensaios de fase 3 (SURMOUNT-OSA), também no NEJM, mostraram que o tirzepatidareduziu o índice de apneia-hipopneiae o peso em adultos com apneia obstrutiva do sono, com e sem uso de CPAP.

Efeitos colaterais: onde estão os “poréns”

Náuseas, vômitos e diarreia são os efeitos mais comuns e levam parte dos pacientes a parar o tratamento. No SELECT, a descontinuação por eventos adversos** foi de 16,6% no grupo semaglutida versus 8,2% no placebo (NEJM, 2023) ([link]()).

Meta-análises recentes, como a publicada em JAMA Internal Medicine (2022), também apontam aumento do risco de doença da vesícula biliar e complicações gastrointestinais.

Tradução prática: são medicamentos eficazes, mas não indolores. A titulação lenta de dose e o acompanhamento médico reduzem desconfortos — e ajudam a decidir quem tem mais a ganhar.

O que ainda não sabemos (ou sabemos menos)

Uso por longos anos: ainda não há dados consolidados para períodos de 5 ou 10 anos.

Comparações entre gerações e combinações: os resultados iniciais sugerem superioridade dos duplos agonistas (GLP-1/GIP) sobre os GLP-1 isolados, e estudos de triplos agonistas (como retatrutide) publicados no NEJM em 2023 mostraram perdas de peso ainda maiores, mas ainda em fase 2/3.

Por que essa trend “pegou” além da medicina

Magnitudes inéditas de benefício (peso e coração) em uma condição prevalente como a obesidade.

Resultados perceptíveis no curto e médio prazo.

Expansão de indicações: de manejo de peso a comorbidades (cardiovasculares, apneia do sono).

Guia rápido para o leitor

Para quem é: pessoas com IMC elevado e/ou comorbidades (como doença cardiovascular, apneia do sono ou pré-diabetes), sempre com avaliação médica individualizada.

O que perguntar ao médico:

* Minha condição clínica encaixa nos perfis estudados?

* Como vamos monitorar vesícula biliar e efeitos gastrointestinais?

* Qual a melhor estratégia de titulação para evitar náuseas e vômitos?

O que não esperar:

Soluções mágicas sem mudança de hábitos. Os ensaios clínicos foram sempre combinados com intervenções de estilo de vida.


FONTES: Reportagem baseada em ensaios clínicos randomizados e meta-análises revisados por pares:

SELECT (NEJM, 2023/2024): semaglutida 2,4 mg reduz MACE em 20% em pessoas com sobrepeso/obesidade e doença cardiovascular, sem diabetes. Link: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2307563

STEP-1 (NEJM, 2021): perda média de 14,9% com semaglutida vs. 2,4% com placebo + estilo de vida. Link: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2032183

SURMOUNT-1 e estudo cabeça-a-cabeça (NEJM, 2022–2025): tirzepatida alcança cerca de 20% de perda de peso e supera a semaglutida em 72 semanas. Link: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2206038

SURMOUNT-OSA (NEJM, 2024): tirzepatida reduz índice de apneia-hipopneia e peso em apneia obstrutiva do sono. Link: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2404881

Meta-análises de segurança (JAMA Internal Medicine, 2022; Gastroenterology, 2025): apontam aumento de risco de eventos biliares e refluxo com uso de GLP-1RAs. Link: https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2793549

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