De repente um vazio. Não poder mais abraçar, contar como foi o dia e fazer planos com quem se divide a vida. Foi assim, sem preparo, que a psicóloga Elaine Prestes teve que lidar com a ausência da única filha. Além da agressividade da despedida, deparou-se com com a falta de preparo da sociedade diante do luto. "Não há regra. O luto é vivido de forma diferente por cada pessoa, mas apoio é essencial. Só que uma mãe não está pronta para voltar ao trabalho depois de sete dias como se nada tivesse acontecido - ou seguir a rotina que tem normalmente. Há uma insensibilidade nisso e as pessoas, em sua maioria, são inconvenientes". E cita frases prontas: "Ela está melhor lá, Deus livrou de algo pior... São ditas repetidamente e eu tive que filtrar ao ver a inabilidade das pessoas com os enlutados."

Na prática, Prestes teve o cotidiano alterado. Buscar na escola, ajudar nas tarefas, ler juntas, levar a festas, cozinhar e conversar foram ações suprimidas. "No começo, os amigos e familiares estão por perto, querem ajudar e se compadecem. Mas com o tempo, naturalmente, seguem suas rotinas, deixam de fazer convites e ficamos alheios como se não combinássemos mais com esse mundo - e muitas pessoas pensam que somos só sofrimento. O dia da morte se estende e o primeiro ano é muito difícil, um sofrimento intenso. É o primeiro aniversário, o primeiro Dia das Mães, o primeiro Natal." A psicóloga considera que a transformação do concreto em abstrato é surreal. "Somos pessoas muito concretas. Precisamos abraçar, beijar, mas esse é um processo doloroso. Como o mar, ora o luto é rebentação, ora calmaria - tudo no mesmo dia. Lidar com o silêncio é muito difícil e o que mais queremos é conversar. Conversar sobre alguém que se foi, mas que amamos muito e por isso o grupo é tão especial para mim e outras mães que sofreram esse perda." (W.V.)

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