Imagem ilustrativa da imagem O politicamente correto na berlinda
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Instauração de nova moralidade, evolução social, exagero, censura. Em tempos de sociedade polarizada, o termo politicamente correto ganha defensores e críticos. Se de um lado, os favoráveis ao conceito mostram que a linguagem designada para retratar grupos minoritários ou oprimidos é uma das ferramentas para se combater a discriminação e de promover mudança social, os contrários argumentam que a prática não passa de uma maquiagem do preconceito e uma forma de censura.

Segundo o sociólogo da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Gustavo Biscaia, a discussão tem seus aspectos positivos e negativos. "É a instauração de uma nova moralidade pública, de não xingar minorias, não ofender, de respeitar, são novos valores e isso é positivo e importante. O problema é a imposição de valores, pois eles têm que ser aceitos com liberdade", menciona. Biscaia explica que os valores pertencem ao âmbito da sociedade civil, não podem ser regulados nem impostos pelo estado.

O efeito do politicamente correto é sentido em vários aspectos. Em Hollywood, por exemplo, os discursos proferidos em premiações, como o Oscar, clamam cada vez mais por diversidade e inclusão. Os filmes perdem por colocar cenas de violência explícita, os personagens já não fumam como antes e as mulheres ganham papéis representativos. São tempos em que o público questiona onde estão os atores negros na novela que se passa na Bahia ou por que os gays sempre são personagens estereotipados.

Do outro lado, alguns profissionais da área criativa, como diretores, humoristas ou chargistas, reclamam do bloqueio em um mundo onde tudo pode ser ofensa. Na política, Donald Trump e Jair Bolsonaro apresentam-se claramente como antipoliticamente corretos. O assunto está tão em alta que o presidente brasileiro chegou a incluí-lo em seu discurso de posse dizendo: "vamos libertar o país do socialismo e do politicamente correto". O movimento é mundial e a discussão começou no século passado.

COMO SURGIU?

Biscaia explica que o uso do politicamente correto começou nos EUA nos anos 1960 quando a esquerda americana, dentro das universidades, começa a fazer uma política de formação de valores. "Uma política identitária. 'Sou negro, farei uma política de negro; sou mulher, farei política de mulheres', e assim por diante", explica.

De acordo com Cézar Bueno de Lima, professor doutor em ciências sociais da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), a origem dos novos conceitos é das minorias. "Estão nascendo e sendo produzidos por grupos que antes eram excluídos e agora estão reivindicando direitos e se afirmando como sujeitos portadores de interesses", afirma Lima.

As conquistas dos espaços sociais permitiram nova visão de mundo e de reivindicações de direitos de quem sempre esteve à margem. No entanto, de acordo com Biscaia, o pensamento deixou de ser universalista e abrangente para se fechar cada vez mais aos grupos. "Se eu sou mulher, negra, homossexual, somente eu posso falar sobre mulheres negras homossexuais. É o que se chama hoje de lugar de fala, que é um negócio absolutamente excludente. A política identitária nos EUA degradou-se", opina. O conceito chegou ao Brasil nos anos 1990.

O sociólogo da UFPR também aponta que o termo é oriundo da expressão que, em tradução literal, seria correção política. "De ser correto, não importa se é a verdade, o que importa é você estar de acordo com a linha do partido", menciona. E disso viria a censura. "Se dissermos que algum outro grupo é decadente, vão apontar como ofensa, então temos de usar eufemismos, mas decadente é decadente. A correção política tem esse aspecto de censura", critica.

TRANSFORMAÇÕES

Apesar de apontar os aspectos negativos, Biscaia comenta os benefícios dessa corrente de pensamento. "São parâmetros mais adequados aos tempos da nossa sociedade, que vai mudando, que vamos tendo novas liberdades e novos valores."

Os novos conceitos aplicados já são indicadores de mudança da realidade, segundo Lima. "As conquistas estão em processo e para você mudar uma realidade, você também tem de mudar a forma de falar as coisas, as palavras também têm o poder de mudança." Para ele, a troca de alguns termos carregados de preconceitos denotam uma nova percepção, sensibilidade, de grupos que antes eram considerados excluídos e estigmatizados.

São reivindicações de valores mais humanistas, relativistas, da laicidade e da ciência que enfrentam os argumentos dos conservadores, defensores dos valores tradicionais e cristãos. "É uma reação de quem é contra as mudanças de valores, algumas boas, outras ruins. Na história, a gente fala de reação daquilo que vem contra", afirma Biscaia.

Enquanto alguns pedem por novos parâmetros, outros acreditam no exagero de uma sociedade que está cada vez mais chata. "Os grupos mais conservadores acham que não há necessidade, porque só mudam os termos, mas não muda a realidade. Acho correto compreender essa percepção, mas quando se fala de politicamente correto, estamos falando de mudanças históricas que vêm acontecendo. Eu acho que existem direitos que devem ser respeitados, mesmo que você não concorde, por que não aceitar a identidade proposta pelo movimento?", questiona o professor da PUCPR.

Nem concordar com tudo nem ser ofensivo. Chegar ao equilíbrio é um desafio na sociedade cada vez mais polarizada, mas discutir abre espaço para rever exageros e estabelecer relação mais igualitária. "Ser politicamente correto em uma sociedade crítica, que pensa, não significa sempre estabelecer um consenso, o conflito é importante, inclusive saudável, para você avançar", finaliza Lima.

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