O politicamente correto é necessário
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de janeiro de 2019
Reinaldo César Zanardi, Jornalista, professor colaborador do Curso de Jornalismo 
Gestado no contexto da luta por direitos civis da população negra dos Estados Unidos contra a segregação racial, na segunda metade do século passado, o politicamente correto (PC) evoluiu e, hoje, abarca outros segmentos no mundo todo. Esse mecanismo pressupõe a adoção de políticas afirmativas para reduzir a desigualdade, combater a discriminação que as parcelas vulneráveis sofrem.
Além dos negros, o PC envolve a proteção social para outros públicos como mulheres, indígenas, LGBT. No entanto, o politicamente correto não está vinculado apenas a esses estratos. Idosos, crianças, pessoas pobres, com deficiência, entre outros, também são beneficiadas por políticas que passam por esse viés.
Se há críticas quando esse tema trata de mulheres, homossexuais, negros e indígenas, por que isso não ocorre com a mesma intensidade quando se trata de idoso, criança e pessoa com deficiência? A resposta passa por alguns fatores e, talvez, o principal é o que o machismo, a homofobia e o racismo são maiores que a aversão aos outros segmentos.
Prevalece também, nesse debate, o papel dos valores morais. A criança, por exemplo, precisa de proteção porque é inocente. A mulher não precisa ser protegida porque é adulta, dona de sua vida e se apanha é porque "gosta de malandro". O juízo de valor varia conforme a cara da vítima, em um julgamento moral. Isso é preocupante quando o governo estabelece políticas públicas, nessa perspectiva.
O Brasil é campeão mundial em assassinatos de LGBTs, está em 5º lugar no ranking de violência contra a mulher e é um dos países mais racistas do mundo. Mais que um debate ideológico entre progressistas e conservadores, o politicamente correto desnuda quem vive e quem morre em nossa sociedade, incomodando machistas, homofóbicos e racistas.
Do comportamento politicamente correto, um destaque deve ser dado à linguagem. Essa modalidade pressupõe substituir variantes (termos/palavras) consideradas pejorativas por outras - positivas ou neutras. Assim, em vez de se usar bicha, usa-se gay e homossexual; em vez de crioulo, negro; em vez de índio, indígena. As variantes linguísticas são mutáveis e evoluem conforme os sentidos vão sendo construídos.
Há quem desqualifique o movimento de trocar palavras com sentidos depreciativos. No entanto, essa desqualificação é seletiva. Até pouco tempo atrás, por exemplo, eram comuns formas (ainda vivas, porém em desuso) como mongoloide, mongo e retardado para o atual pessoa com síndrome de down. Por que algumas formas politicamente corretas "pegam" e outras não? Depende do público beneficiado e do grau de preconceito que envolve esse mesmo segmento. Quanto maior o preconceito, menos chance de a variante "pegar".
Um dos principais mecanismos de funcionamento da linguagem politicamente correta (LPC) é o eufemismo, que impulsiona a substituição de palavras pejorativas, "pesadas". No dia-a-dia, muitos usam esse recurso para amenizar sentidos quando a interlocução afeta pessoas próximas, conhecidas. Se usamos variantes politicamente corretas para quem gostamos, por que não usá-las para quem não conhecemos?
A LPC não é um projeto, lei ou norma a ser cumprida por obrigação legal. Essa modalidade está mais para uma iniciativa linguística, a partir da crença de que a palavra pode ofender e diminuir o outro, estigmatizando-o. A simples troca de palavras, realmente, não combate o preconceito em si, mas usar formas negativas na relação com o outro ajuda a manter a discriminação. E isso não é pouca coisa.


