O paradoxo da criança protagonista
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sexta-feira, 05 de outubro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 
Uma família que deixou de viajar para conhecer uma cidade porque as crianças preferem resort, uma mãe ou um pai que não leva o filho ao mercado pelo medo que ele faça birra. Duas situações comuns da educação atual ilustram como funcionam as famílias que têm a criança como protagonista. Até que ponto uma criança pode ter o poder de decisão?
De acordo com a psicoterapeuta Eliana Louvison, essa ideia do protagonismo vem do teatro grego e diz quem comanda a cena. Em outros períodos, os pais eram detentores dessa posição, que hoje é dada às crianças. "Elas não estão assumindo esse lugar, são colocadas. Só que ao mesmo tempo em que ela ganha esse lugar, não é dado o que ela precisa", aponta.
A inclusão não é ruim, mas é preciso compreender quando ela vai poder decidir. "Elas podem dar sugestões, mas há pais que permitem que elas decidam sobre qual escola vai estudar, sobre o que comer no restaurante. Isso é uma enganação. A criança não tem crítica ainda, ela acredita no poder que tem", afirma.

De acordo com a psicoterapeuta, os pensamentos abstrato e crítico são desenvolvidos a partir dos 13 e 14 anos de idade, sem isso, a criança que toma decisões importantes sofre o fracasso precocemente, levando à falta de autoconfiança e de agressividade para as decisões futuras. Por isso, Louvison defende que a criança pode decidir, mas os pais precisam avaliar quando deve ser feito e respeitar suas necessidades.
É o que a especialista chama de paradoxo. Uma criança que tem poder, mas que não recebe tudo que precisa para se desenvolver. "Ela é tratada como a majestade, mas a gente não serve a ela. A mesma criança que é esperada, desejada, é colocada na creche com 3 meses de vida", afirma.
O protagonista é tratado como quem pode tudo, mas com a condição de atender às expectativas condicionadas à ideia de sucesso. Portanto, nas escolas, "predominam os programas que visam desempenho, produtividade, que é o equivalente ao que vai ser no futuro uma pessoa de sucesso. Então, essa criança é protagonista, mas está a serviço da minha expectativa, que quero fazer dela um sujeito bem-sucedido."
Enquanto os pais passam por esse processo de destituição de protagonismo de si próprios e também são cobrados pelo mercado, Louvison aponta que as escolas têm o diferencial de serem portadoras de conhecimento científico. "Tem escolinha para crianças de 3 e 4 anos de idade com cadeirinha e mesinha. Cientificamente, isto é um desserviço à psicomotricidade, está provado. O mercado está determinando tudo, mas eu acho que a escola deveria ser um espaço de resistência", critica.
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CONSEQUÊNCIAS
Os resultados desse protagonismo sem critérios são o abuso de poder das crianças e o narcisismo. "A criança se intromete na conversa do adulto, ela pode fazer isso, o que não quer dizer que vá trazer grandes contribuições, mas ela acha que está. Tem criança discutindo política, tomando posições", aponta.
Podendo decidir sobre o que não compete a si, vem o fracasso precoce. A autoestima sobe, mas a autoconfiança fica comprometida pelas escolhas erradas que experimenta. "Autoestima enorme e autoconfiança zero", critica. Outra questão é a falta de agressividade para enfrentar os desafios. "Não é violência, mas essa força vital que te faz lançar ao mundo. No lugar disso, tem medo e melancolia", afirma.
Louvison analisa que muitos adolescentes e jovens se sentem enganados quando percebem esse movimento. "É uma decepção. De repente ele percebe que o príncipe foi tratado como vassalo. Que ele nunca teve liberdade para ser quem ele queria ser. Ele foi investido, não foram respeitadas suas necessidades. Ele vê que ele não tem equipamento para lidar com o mundo, porque não foi preparado para isso, foi preparado para o mercado", indica.
Os reflexos disso já podem ser percebidos, com muitas crianças e jovens que estudam e praticam diversas atividades, mas que não possuem os aparatos necessários para viver. "Ele fez até curso de empreendedorismo na escola, mas ele não sabe lidar com a vida. Ele desmorona quando alguém diz não. Ele perde a referência, porque achava que ele era o máximo", afirma.
Olhando esses resultados, a psicoterapeuta concorda com a inserção da criança, mas que é preciso compreender suas necessidades e olhar com mais atenção sobre o que ela pode ou não decidir nessa estrutura. A leitura é um convite para repensar os contextos sociais e como atualmente educam-se as crianças em uma sociedade determinada pelo mercado.


