O melhor da história
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de julho de 2017
Francismar Lemes<br>Especial para a FOLHA 

Aonde estão e o que são as surpresas? Vamos emprestar de Arthur Schopenhauer (1788 1860) uma ideia que ajudará a olharmos dentro desta caixinha de emoções e tentar entender um pouco do que tem lá dentro.
O filósofo alemão diz que, ao olharmos para trás na vida, tudo parece fazer parte de um grande enredo, mas, quando estamos dentro dele é uma confusão: uma surpresa atrás da outra. Mais tarde, a gente olha e vê que era perfeito.
Aí fica mais fácil afirmar que as surpresas podem aparecer a qualquer hora da vida. Não importa o tamanho, sendo, justamente por isso, surpreendentes, pegando a gente nos momentos mais improváveis, como acontece com crianças internadas nos hospitais, visitados pelos palhaços do Plantão Sorriso.
Os doutores, que só levam alegria, intervêm em um enredo difícil, receitando doses de riso para tratar barriga cheia de pum ou miolo mole.
"O que me encanta é ser surpreendida com histórias novas, a cada visita. Como trabalhamos com o improviso, é uma surpresa para a gente à medida que não sabemos quem são essas crianças. É a primeira vez que vamos encontrá-las", afirmou a atriz Aneliza Paiva, formada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), e Jornalismo pela Universidade Norte do Paraná (Unopar), mas que nos corredores hospitalares é a Doutora Frida, especialista em Chicologia, trata chiliques, pitís, frescurite aguda e rodadas de baiana em geral.
O Plantão Sorriso é uma organização cultural londrinense formada por atores, especializados na arte do palhaço e treinados para atuar em hospitais.
Para o ator Gerson Bernardes, integrante também do grupo de palhaços Triolé e da Escola Livre de Palhaços (ESLIPA), do Grupo OffSina, do Rio de Janeiro, a surpresa dos palhaços nos hospitais é um ponto fora da curva, que quebrou paradigmas.
"Há mais de 20 anos, quando o Plantão Sorriso começou, era um elemento novo no processo de humanização hospitalar, que causou uma mudança, inclusive na equipe médica, mudando a atmosfera dentro dos hospitais. Já as crianças, quando querem e conseguem jogar com a gente é sempre uma história muito bonita", avaliou o ator, que vestido de jaleco é o Doutor Lambreta Mó, especialista em travalingualaringologia.
Os doutores do Plantão Sorriso dão sentido à ideia de Schopenhauer. Com suas confusõezinhas controladas são capazes de mudar o enredo de crianças internadas, durante os minutos de apresentação.
"As crianças estão na rotina hospitalar e a grande surpresa é que propomos não nos olharem como palhaços, mas médicos. Isso surpreende porque invertemos uma lógica", acrescentou a atriz.
Em uma visita dos palhaços ao Hospital Infantil, acompanhada pela reportagem, foi possível ver que o queixo caído dos crianças, pais e acompanhantes não é por causa de miolo mole, sintoma de riso frouxo o mais comum entre a plateia hospitalar, que inclui funcionários e equipe médica.
"Faz sete dias que a minha filha está internada e receber uma visita dessa é muito bom", afirmou a auxiliar administrativo de Arapongas, Eliane Regina Polvani, 44, mãe de Maria Júlia Polvani Alves, 9.
"Gostei da animação deles e de conhecer médicos palhaços", disse Júlia, confirmando o diagnóstico dos médicos do Plantão Sorriso de que, naquele raro instante, teve uma crise aguda de riso frouxo.
O menino Matheus Oliveira Besson, 10, de Japurá, terá muito tempo pela frente para saber quem é Schopenhauer do qual emprestamos a ideia para entender o que é uma surpresa. Porém, os doutores Frida e Lambreta Mó, ele conheceu, sendo apresentado aos dois, pouco antes de receber alta hospitalar.
Ele foi outro pequeno paciente que teve uma crise de riso frouxo, precisando que os doutores avaliassem os pais, o contador Fernando Besson, 37, e a mãe, a costureira Cintia Fabiano Besson, 35, já que a epidemia de risada se alastrou pelo hospital.
Se Schopenhauer ainda não significa nada para o menino, Frida e Lambreta Mó sim, ensinando que a vida tem surpresas boas e ruins, mas no final da história a gente sempre torce pelo melhor.
Sempre pronta para surpresas

Toda surpresa pode ser comparada a uma porta que a gente entra e não sabe o que vai encontrar.
A comparação, estamos pegando da presidente do Plantão Sorriso, Emilia Miyazaki, ao afirmar que, no caso dos doutores palhaços, a porta é o primeiro contato entre crianças, atores e as surpresas do enredo dentro de um quarto, enfermaria ou unidade de terapia intensiva de um hospital.
Miyazaki é uma das fundadoras da organização. Durante anos, interpretou a Doutora Tulipa. Com 21 anos de existência, o Plantão Sorriso atende sete hospitais de Londrina e Ibiporã, realiza 20 mil atendimentos leito a leito por ano, num total de 470 mil atendimentos, desde 1996.
"A porta é o primeiro contato com tudo o que vai acontecer dentro do quarto. É onde começa a conexão com a criança e a família. Ao entrarmos, não sabemos como a criança vai reagir. Se são mais velhas podemos brincar, jogar com elas, mas, às vezes, entre os mais novos, cantamos, fazemos bolhas de sabão, enfim. Não sabemos o que vai acontecer", afirmou Miyazaki.
Diferente do palco em que os atores esperam o aplauso, as apresentações nos hospitais revelam grandes surpresas em pequenas situações.
"É tudo muito singelo, delicado, por trás dessa magiquinha. A gente, como ator ou atriz, espera sempre arrasar, mas no hospital não é isso", avaliou.
Uma conexão que estabelece entre os doutores, pacientes e familiares e que atravessa outras portas.
"Principalmente, depois que eu tive filhos, a minha conexão com os pais mudou. Encontrei uma mãe nos corredores, quando estava interpretando a Tulipa, e não foi preciso ela dizer nada, somente com o seu olhar eu compreendi que tínhamos perdido uma criança. A gente se olhou, ela seguiu e eu compreendi tudo sem a necessidade de uma palavra", explicou Miyazaki uma das situações em que o enredo termina de uma maneira triste também para o palhaço.
A mágica da surpresa pode não desfazer com os anos, como lembrou outras duas histórias, a atriz.
"Uma vez, encontrei um menino numa UTI que não respondia a nada em várias visitas. Não sabíamos o que estava acontecendo. Até que falamos de um disco voador que iria chegar e ele abriu um pouco os olhinhos. Esse foi o start. Anos depois, o reconheci pelo nome, novamente internado porque tinha quebrado uma perna. Apesar da fratura, vi que estava muito bem e que fizemos parte de sua história. Outro caso marcante foi um garoto que conheci fazendo quimioterapia no HU. Descobri que esse menino era filho de conhecidos. Chegou a tirar fotos com a gente. Anos mais tarde, nos reencontramos, se tornou um rapaz lindo, subiu ao palco de nosso espetáculo para contar a sua história", contou Miyazaki.
São surpresas que a fazem guardar o figurino da Doutora Tulipa, que sempre está pronta para voltar. (F.L.)


