Em pleno ano 2018, podemos dizer que a situação da mulher melhorou muito, se comparada a décadas atrás. Entretanto, ainda lutamos por direitos básicos, como o de andar na rua sem sermos importunadas e equiparação salarial. A reportagem da FOLHA conversou com jovens atuantes no movimento feminista em Londrina, que avaliam a atualidade e contam o que esperam dos próximos anos no que diz respeito à situação da mulher na sociedade

Nathália Douradinho Lopes, 21, Giovanna Mayer Zorzeto, 21, e Rebeca de Lima Rosales Borges, 18
Nathália Douradinho Lopes, 21, Giovanna Mayer Zorzeto, 21, e Rebeca de Lima Rosales Borges, 18 | Foto: Gina Mardones



LIDERANÇA
"Vi uma matéria sobre a mulher na política e apesar das mulheres representarem 52% do eleitorado, elas ainda ocupam cerca de 11% dos cargos políticos. Apesar da sensação de ter um espaço igual na sociedade, temos que nos impor mais. Ninguém está dizendo que a gente não pode ir, mas ao mesmo tempo não deixam a gente ir. A gente pensa que é uma coisa de geração, que vou criar minha filha de um jeito diferente, mas mesmo dentro da nossa geração, vendo nossos pais que passaram por um período diferente, é algo que vai sendo incutido e de uma forma velada, a gente não consegue conquistar esse mesmo espaço. Todo esforço parte mais das mulheres, não é nada dado."
- Nathália Douradinho Lopes, 21

"A maioria das universitárias são mulheres, mas são poucas reitoras, poucas mulheres em cargos muito altos. Quanto mais você sobe, menos mulheres você vê. Apesar do sistema educacional ter mais mulheres, mesmo assim você não tem posição de liderança. Mesmo quando tem posição de liderança, tem pouca voz. E quando você é criada para ficar em silêncio, e os homens são criados para falar, para liderar, eles não aceitam bem quando você quer falar. Isso influencia muito a questão da mulher na política."
- Rebeca de Lima Rosales Borges, 18

"O movimento feminista tem como desafio essa questão do trabalho político, de uma educação política, de uma forma meio orgânica. É um trabalho de tentar organizar rodas de conversa, de promover debates temáticos."
Tatiane Monteiro, 37

SORORIDADE
"Nossa esperança é encontrar nossa voz nas outras. Como coletivo, tentamos dar um pouco mais de voz para as mulheres. Quando a gente se une, é muito mais alto. Minha esperança para o futuro é a sororidade, é você se apoiar em outra mulher, você se sentir representada por um coletivo e aí o pouco que você faz no dia a dia parece que é mais ouvido."
Rebeca de Lima Rosales Borges, 18

"Venho de uma família de mulheres fortes. Sempre ouvimos para fazermos o que quiséssemos, para batalhar pelos nossos sonhos. Isso eu tenho desde criança, mas tenho amiga que a mãe não deixou fazer engenharia porque era profissão de homem e nos coletivos percebemos que as mulheres estão se unindo mais e tentando dar voz para a outra, para ser uma voz mais forte. Acredito em um futuro melhor. As mulheres estão se unindo para melhorar, compartilhando as coisas, apoiando umas às outras. A luta ainda vai continuar por muitos anos, não vai ser uma coisa que vai mudar de uma geração para outra, mas vejo coisas boas. É importante parar de apontar o dedo umas para as outras e começar a se apoiar. Não somos inimigas umas das outras, em níveis diferentes, talvez todas estejam passando por uma situação de machismo, de opressão. É importante você exaltar as mulheres que conseguem algo, apoiar. Precisa acabar com essa rixa."
Giovanna Mayer Zorzeto, 21

LEGISLAÇÃO
"Esse retrocesso na legislação é muito ruim. Acham um absurdo uma menina engravidar com 13 anos, mas ela não teve acesso (a métodos contraceptivos), nunca ouviu falar. Aí queremos começar a discutir isso, dar acesso, e aí vem uma pessoa e diz 'não, que absurdo falar sobre isso'. Queremos melhorar a situação das mulheres, porque tem muitas morrendo fazendo aborto clandestino e 'não, isso é um absurdo'. Essa coisa da legislação é bem complicado, porque a gente tenta lutar aos poucos e com isso desanima um pouco."
Giovanna Mayer Zorzeto, 21

FEMINISMO
"Em alguns lugares, por muito tempo, vai ser considerado algo horrível, pejorativo. Espero que a presença disso na mídia desmistifique o termo para que possamos levar mais do que temos para oferecer."
Rebeca de Lima Rosales Borges, 18

"O que a gente fala aqui não consegue chegar (em todos os lugares) e talvez com essas mulheres de destaque, consiga. E as meninas consigam enxergar que está acontecendo alguma coisa, ver uma cantora e pensar que também pode e quer chegar lá. Muitas mulheres têm uma educação em casa que isso não existe, que é horrível falar que é feminista, tem que obedecer, apanhar e ficar quieta. É bom que elas possam enxergar, que possam se ver em algum lugar, se sentir representadas e queiram melhorar."
Giovanna Mayer Zorzeto, 21

"Há uma distorção absurda de que a mulher por ser feminista é descuidada. Os machistas – ou até algumas mulheres - pegam tudo que consideram fora do padrão que alguma mulher possa ter feito um dia e constroem um Frankenstein de uma mulher feminista, que tem que ser tudo de ruim. Mas isso é um mito. Se a mulher for tudo isso, e você acha tudo isso ruim, tem algo de errado aí. Se ela está contente com o corpo dela daquele jeito, porque você não vai estar?"
Nathália Douradinho Lopes, 21

"Esperamos que a mulher tenha uma ocupação mais efetiva nos espaços de poder político e econômico, essa é a luta maior."
Tatiane Monteiro, 37

Tatiane Monteiro, 37, e Pâmela Carolyne Oliveira, 24
Tatiane Monteiro, 37, e Pâmela Carolyne Oliveira, 24 | Foto: Saulo Ohara



ELES
"Não sei se é por causa da criação do homem ser voltada para o espaço de liderança, para voz e para poder, que alguns homens acham que quando vão tomar partido sobre o feminismo, eles têm que lutar por isso e ter o cargo de liderança, ter a voz para falar disso. É muito difícil explicar que não é assim. (…) Mas tem uns caras que têm preocupação com a menina, que leva para casa por só levar para casa mesmo. Existem homens que fortalecem o movimento, nos relacionamos com homens assim. Acho que ninguém é perfeito, mas a partir do momento que o cara quer conhecer, quer ajudar de verdade. Existem esses homens e a tendência é que existam cada vez mais."
Nathália Douradinho Lopes, 21

"Alguns homens querem discutir pela gente, querem fazer uma lei só que não convidam nenhuma mulher para falar sobre essa lei. Não, você não é uma mulher. Você pode apoiar, mas não é você que está lutando por aquilo. Ou diz que apoia as mulheres mas chega na rodinha e faz piada machista com os amigos. Chega na balada e não fala nada para o amigo que está se esfregando na menina e ela não está gostando. É complicado. Eles apoiam, mas falando por elas."
Giovanna Mayer Zorzeto, 21

"Mesmo que timidamente, percebemos que os homens, mesmo em minoria, têm se atentado às questões que nós mulheres reivindicamos. Mas não vejo essa iniciativa vinda deles, é por conta da reivindicação das mulheres. Penso que outro desafio da luta feminista é a mudança de cultura que chamamos de patriarcal. Temos quebrado isso, mas ainda temos muito o que avançar."
Tatiane Monteiro, 37

DIREITOS
"Quem sofre essas limitações de futuro são geralmente as mulheres mais pobres, as mulheres negras. Você tem a política de cotas e dez anos depois a política reduz a possibilidade dessas pessoas estarem na universidade com bolsa. Como elas recebem os menores salários, se elas forem para o mercado de trabalho, vão ter um desgaste maior para estudar. A perspectiva (de futuro) vai variar conforme a camada social."
Pâmela Carolyne Oliveira, 24

FAMÍLIA
"Acho que tem muitas mudanças, vejo uma diferença muito grande. Até por uma explosão do feminismo nas redes sociais, acho que isso contribui muito para uma mudança. Mas ainda é um grande caminhar. Se olhar o crescente conservadorismo do Brasil, pelos candidatos e as falas que têm em relação à mulher e vendo o comportamento da população frente esse tipo de fala, é uma cultur. Imagino que essa cultura social impacta no âmbito familiar, pois é lá que ocorre a violência contra a mulher e a política pública ainda não foi esquematizada de uma forma que a mulher consegue acessar."
Pâmela Carolyne Oliveira, 24

"Viemos de uma cultura que a mulher tem que cuidar da casa e dos filhos, tem os papéis estabelecidos, pensamos em quebrar isso. A educação das crianças é uma possibilidade de mudar culturalmente esse quadro. Por outro lado, vejo uma grande dificuldade porque não vejo no ambiente escolar essa mesma intenção. É um trabalho de formiguinha, a expectativa é de mudança, mas uma mudança construída, não vai ser muito fácil na verdade. As próprias mulheres trabalhadoras têm que lutar por essas construções e por isso que trabalhamos nessa perspectiva do feminismo, porque não acreditamos na luta individualizada."
Tatiane Monteiro, 37

ASSÉDIO
" A mulher ainda é vista como uma propriedade de alguém, lógico que não dessa forma óbvia, mas eu tenho uma cultura que me diz que eu posso assediar aquela mulher e se ela não quiser eu também posso, porque ela não tem esse direito sobre ela. Temos essa cultura de que a mulher pertence ao Estado, que não temos direito de decidir muitas coisas sobre os nossos corpos, não temos uma legitimação quando denunciamos violência. Eu não quero andar na rua e um cara vir me assediando na rua. Acho que por causa de viver num país que tem muitos retrocessos, ainda vamos enfrentar barreiras muito grandes. Vamos continuar lutando contra isso."
Pâmela Carolyne Oliveira, 24

"Isso é muito triste e temos vários tipos (de assédio): os de dentro de casa, os institucionais. Penso que hoje as mulheres denunciam mais, por isso a importância da construção de políticas públicas sobre isso. A Delegacia da Mulher deveria funcionar de final de semana, que é quando mais ocorrem os casos de violência contra a mulher, e a infância e juventude. Para a mulher sair de uma situação de abuso ela precisa de um enfrentamento muito forte, que na maioria das vezes não consegue fazer sozinha. E os equipamentos sociais, da política social, têm muito para avançar ainda. E eu honestamente não vejo movimento do governo executivo para isso, vejo um retrocesso. Temos visto um desmonte desses equipamentos."
Tatiane Monteiro, 37

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